13 dezembro, 2011

SEM OBRIGAÇÃO

                                                               Gertrude Käsebier

É muito interessante a relação das mulheres com a palavra "obrigado". Há dois tipos de mulheres: as que dizem "obrigado" e as que dizem "obrigada". Eu sei que parece exagero dividir assim as mulheres. Mas não é. É tão importante como a marca do perfume, o tipo de sapatos ou os livros que lêem. Por exemplo, as que lêem Virginia Woolf e as que lêem José Rodrigues dos Santos.
Uma mulher que diz "obrigada" é uma mulher que mostra educação e que sabe falar, num mundo cheio de mulheres que dizem "obrigado". São mulheres que aprenderam a falar bem e haverá sempre um certo orgulho na exposição dessa aprendizagem e na relação correcta com as convenções, seja na linguagem, seja na maneira como come, se senta ou bate palmas. Eu tenho uma filha e foram muitas as vezes que tive de a corrigir sempre que a ouvia dizer "obrigado". Um pai tem de ensinar um filho a falar bem.
Pelo contrário, uma mulher que diz "obrigado" será sempre uma mulher que vive numa linguagem suburbana, que fala como se exibisse os seus bibelôs foleiros na sua sala de jantar. Uma mulher que diz "obrigado" será sempre uma mulher proscrita num mundo que esteja longe da sua sala com bibelôs foleiros.
Mas pode haver ainda um terceiro tipo de mulheres. As mulheres que dizem "obrigado", sabendo que deveriam dizer "obrigada" mas que, ainda assim, continuam a dizê-lo porque gostam do valor neutro da palavra "obrigado". Porque acham que dizer obrigado é uma abstracção assexuada que dispensa género masculino e feminino. Porque vêem o "obrigado" como uma espécie de interjeição social que, como um "ai" ou um "ui" ou um "ena", não tem sexo. Ou como um enunciado performativo que consiste mais numa acção do que num discurso e uma acção, embora praticada por um homem ou mulher, que também não tem sexo.
Que tipo de mulher é esta? Tem de ser uma mulher muito segura de si, que sabe bem não ser contaminada por uma linguagem de lata e cuja imagem social não vai ser pervertida. Uma mulher consciente do impacto negativo da palavra mas com a convicção de que a sua identidade é impermeável a esta mácula linguística e transcendente às convenções sociais.
De certo modo, é possível estabelecer aqui uma analogia com os três estádios de Kierkegaard. A mulher que tanto pode dizer "obrigado" como "obrigada" encontra-se no plano do absolutamente concreto, do momento, de um instante sem consistência. É como a figura de D. Juan no amor.
Depois, a mulher que diz orgulhosamente "obrigada" encontra-se no plano da convenção, da responsabilidade, da seriedade. Mas de uma responsabilidade castradora, uma responsabilidade sem rosto, o respeito por uma ordem à qual se subjuga tal como uma formiga em relação ao seu código genético.
Finalmente, temos então a mulher que diz "obrigado", não por ignorância, mas com a mesma convicção com que a anterior diz "obrigada". Trata-se, porém, de uma convicção diferente. Uma convicção que penetra numa ordem que transcende a ordem social e moral. A mulher que diz "obrigado" desta maneira está no mesmo plano de Abraão quando é convocado pelo anjo para sacrificar o seu filho Isaac. Se comete um crime, será apenas aos olhos dos outros, daqueles que pensam no bem e no mal com o mesmo rigor e organização com que as formigas se organizam em carreiros. Será uma mulher subversiva mas uma subversão saudável pois dará lugar a uma nova ordem: a ordem das mulheres que dizem "obrigado", sabendo que deveriam dizer "obrigada".  Sabe que está errada mas tem a consistência de quem tem toda a razão do mundo. E eu gosto disso.