14 dezembro, 2011

PLASTICIDADE

                                                                                  Pierre Louis Pierson | Condessa Castiglione

Um aluno num teste: «Podemos demonstrar a plasticidade do cérebro através de dois exemplos, um cego é um indivíduo que tem a incapacidade de ver, então o seu cérebro irá moldar-se a esta dificuldade, desenvolvendo as áreas vizinhas, por exemplo, a visão.»

Esta desvairada frase ilude uma sabedoria de séculos: a ideia de que, para ver, é preciso fechar os olhos. De que cegos são aqueles que, com os olhos bem abertos, se deixam arrastar pela  vã e ilusória espuma da visibilidade. Outros, sem verem um palmo à frente dos olhos, são verdadeiramente visionários. Quanto mais visionário, menos vê, quanto mais vê, menos visionário.
Isto é assim tanto na política, como na religião, como no amor. No amor, porém, e como não poderia deixar de ser, o problema é mais complexo, pois quem vê também é visto. O político visionário será sempre um solitário. O místico visionário será sempre um solitário. O amante visionário, por sua vez, será sempre um solitário que junta a sua solidão à solidão de outro amante solitário. A solidão de duas pessoas que se desvanecem numa abstracção fantasmagórica ou de dois fantasmas que lutam para emergir no plano visível. Simultaneamente, vê-se tudo e não se vê nada.