28 dezembro, 2011

PIERRE MENARD REVISITADO

      

Ontem, depois de 11 meses sem saber dele, voltei a encontrar o D. Quixote que, neste caso, não andava perdido pelos campos de Castilla La Mancha mas, algures, numa qualquer arca perdida em Torres Novas. Isto, dito, assim, pode não querer dizer nada mas quer dizer muito e irei explicar porquê.
Muito antes de ter lido o D. Quixote eu fiz várias tentativas para o ler sem nunca chegar a consegui-lo. Tentei uma versão e não consegui, tentei outra versão e também não consegui. Até que compro uma outra edição, aliás, simples e barata, com tradução e notas de José Bento. Comecei a ler e já não consegui parar, tendo, no fim, tomado a decisão de ser aquele o livro da minha vida.
Ora, eu tenho o hábito de sublinhar os livros, incluindo romances. Acontece que, como não poderia deixar de ser, eu tenho o Quixote bastante sublinhado, relendo muitas vezes essas inúmeras passagens, coisa tão importante como tomar um bom banho de mar, fazer uma caminhada bem cedo de madrugada ou comer chocolate. Uma coisa muito física, quase vital.
Apesar de continuarem em minha posse as outras duas edições, cheguei a ponderar comprar de novo a edição perdida. Mas não era o livro que eu queria. O que eu queria era o livro sublinhado por mim. É o mesmo livro mas não é o mesmo livro. Há uma enorme diferença entre o livro virgem e o livro sublinhado por mim. O livro virgem é o livro escrito por Cervantes e publicado em 1605 (primeira parte) e 1615 (segunda parte). O livro sublinhado, por sua vez, é o livro escrito com a mão de Cervantes e escrito com os meus olhos.
Se eu fosse um Orlando ao contrário e, em vez de caminhar imortalmente do passado para o futuro, caminhasse do futuro para o passado, podendo reprotagonizar a escrita de um livro para ser lido no futuro, teria parado no momento em que Cervantes se prepararia para escrever o Quixote. Compreender que o Quixote é o livro da minha vida significa igualmente compreender que o Quixote é o livro em que absolutamente coincidem a cabeça do escritor e a cabeça do leitor que sou eu, o livro cujo momento de leitura coincide absolutamente com o momento da escrita. E, como diria Pierre Menard a Borges «antes de tudo um livro agradável» e não «uma ocasião de brindes patrióticos, de soberba gramatical, de obscenas edições de luxo. A glória é uma incompreensão e talvez a pior». Ou seja, o livro em estado de puro no atelier  mental do pintor, tal como um quadro de Velasquez acabado de pintar na caótica e suja oficina do pintor.
Tê-lo reencontrado foi como ter reecontrado um livro escrito por mim. Dito de outra maneira: foi como ter reencontrado uma parte de mim, algures perdida por aí. Não a glória, claro está, apenas uma parte agradável de mim, aquela de que sempre gostei e continuarei eternamente a procurar.