31 dezembro, 2011

O TEMPO REENCONTRADO

                                                         William Henry Fox Talbot | Auto-Retrato

«Reform, reform, reform. Aren't things bad enough already?» Foi este desabafo de um dos duques de Wellington que enviei aos meus amigos e outras pessoas mais chegadas no tradicional mail de votos de um bom ano. Ironia das ironias, trata-se de uma frase conservadora com um conteúdo profundamente revolucionário, contrariamente a outras frases revolucionárias que, hoje, se tornaram escandalosa e repugnantemente conservadoras. Na 11º tese sobre Feuerbach, lamentava o revolucionário Karl Marx que, até ali, os filósofos se tinham apenas limitado a interpretar o mundo mas o que verdadeiramente importava era transformá-lo. Esta frase tão revolucionária, hoje, tornou-se um pesadelo. Apetece dizer que o mundo hoje está tão transformado que, o que verdadeiramente importa é pará-lo para o poder interpretar.
É neste sentido que a frase em cima apresentada contém, nos nossos dias, e neste simbólico momento de entrada num novo ano, um valor inestimável, devendo estar sempre presente nas consciências de todos. Seja na política, na economia, no trabalho, e em particular na escola (a minha área) mas também nas nossas vidas pessoais, no modo como pensamos o mundo. 
Existe hoje um ímpeto transformador que, visto por si mesmo, não traz nada de bom. Transformar por transformar não tem qualquer valor. A modernidade só pela vaidade da modernidade é absolutamente vazia. Há coisas  boas que se conservaram durante séculos ou anos e que, hoje, facilmente são postas em causa. Coisas que se conquistaram e conservaram precisamente porque são boas. A felicidade não é boa por nós gostarmos dela. Pelo contrário, gostamos dela precisamente porque é boa. Seria bom ter sempre isso presente e, como Aristóteles, há muitos e muitos séculos atrás, continuarmos a reflectir sobre ela em vez de nos enterrarmos cada vez mais no que dá cabo dela. Como lembra o escritor Gonçalo M. Tavares, parafraseando Hans Christian Andersen, pede-se às pessoas para rezarem e estas apenas sabem cantar a tabuada.
Bom 2011, ups, enganei-me, bom 2012.