27 dezembro, 2011

NIETZSCHE C'EST MOI


O Passado Remoto é uma belíssima autobiografia de Giovanni Papini que começa da seguinte maneira:
«Este livro não é nem pretende ser uma autobiografia. Aqueles que se põem a contar a sua vida de fio a pavio, desde os primeiros passos, julgam-se personagens muito importantes na cena do mundo e, ao mesmo tempo, dão já por encerrada e concluída a sua obra. Não tenho nem esta modéstia nem aquela pretensão. Este livro, muito pelo contrário, é um livro de recordações pessoais, mas onde a primeira pessoa comparece, por simples necessidade de narração, somente para apresentar as figuras e os factos das terceiras pessoas. É, pois, uma recolha de testemunhos: testemunhos sobre certos acontecimentos ou figuras que observei nos mais verdes anos da minha vida e, principalmente, testemunhos sobre homens que conheci. Uns e outros propõem-se contribuir para o conhecimento dos diversos aspectos, humores, gostos, pensamentos e costumes de um período (1885-1914) que, hoje, depois das guerras e das revoluções que têm alterado a feição da Europa, bem pode chamar-se "remoto". Se em algumas destas recordações apareço como protagonista ou quase protagonista, mantém-se todavia firme o propósito de revelar certos motivos ou tonalidades daquela época distante».

Chega a ser perturbadora esta espécie de modéstia ou ingenuidade em alguém que pretende descrever descentradamente um período histórico do qual fez parte. Entendo esta quase vergonha em se assumir como protagonista mas é um processo inevitável em qualquer descrição do mundo que não se apresente formal e tecnicamente como científica. Porque o mundo e, particularmente, a história, por muito objectivamente que o queiramos descrever, é sempre engolido pelo protagonismo de quem o descreve. O mundo, na cabeça de um vulgar e anónimo soldado russo em Borodino, está todo ele na cabeça desse soldado russo. Neste sentido, cada ser humano funciona como uma espécie de escafandro ao contrário: o nosso equipamento mental não serve para impedir o mundo de entrar em nós mas precisamente para impedir que o mundo saia de nós depois de nele ter entrado.
É sintomático o modo como Papini inicia a sua (supostamente falsa) autobiografia. Faz uma longa viagem até à sua infância, até um remoto dia de sol de Inverno na sua Florença natal, durante um passeio levado pela mão da sua mãe. Entretanto, em frente a um hotel da cidade, passam por ele dois estrangeiros, tendo um deles, homem com "ar grave e um pouco triste", parado para acariciar, com afectuosa delicadeza, os seus caracóis loiros. Assume o escritor: «Por muito tempo ficou em mim a estranha imagem daquele homem de grandes bigodes, que me tinha olhado e afagado, tanto mais que semelhantes gestos de admiração me eram dirigidos quase sempre por mulheres». Esse homem era Friederich Nietzsche que, viria o escritor italiano, anos depois, a confirmar, tinha sido convidado pelo director desse hotel para passar uns dias em Florença.
Neste capítulo, Papini fala sobre Nietzsche ou fala sobre si próprio? Claro que é sobre si próprio. Nietzsche, aqui, é obviamente ele próprio. E é sempre ele próprio mesmo quando fala do exército italiano, de Roma, de Marinetti, do olhar de Lenine ou do regicidio. Papini, o escritor da História de Cristo, foi afagado pelo escritor do Anticristo. Tudo o que nós escrevemos, escrevemos, porque fomos afagados pelo mundo que nos fez como somos para, dentro do nosso escafandro, nunca mais lá regressarmos.