17 dezembro, 2011

COSMOGONIA DOMÉSTICA

                 

Acabo de mudar de casa. Os livros ainda se encontram hibernados em várias dezenas de caixas espalhadas pelo chão. O caos absoluto. Quando os retirar do limbo irei eventualmente encontrar S. Agostinho por cima de Henry Miller, Platão por baixo de Philip Roth, Ariosto e David Lodge lado a lado. Muito mais do que um borgesiano labirinto, uma demoníaca orgia bibliofágica.
Depois do caos primordial, da cósmica escuridão onde se misturam indiferenciadamente livros de arte com política, clássicos gregos com desgraças camilianas ou o Chiado queiroziano com o cavernoso laboratório de Fausto, farei, mais uma vez, e pacientemente, o papel de Deus a criar o mundo ou pelo menos a tentar pensar o pensamento de Deus antes de criar o mundo. Decidi voltar de novo pôr a tocar as Variações Goldberg enquanto recrio o mundo a partir do caos.
Quero acreditar que o mundo teria ganho bastante se Deus o tivesse criado a ouvir as Variações Goldberg. É verdade que quando Deus fez o mundo ainda não existiam as Variações Goldberg mas como Deus é omnisciente também não é menos verdade que já conhecia as Variações Goldberg ainda antes de existirem.
Não sei se Deus ouvia música enquanto criava o mundo. Nem tão pouco sei se Deus gosta de música. Se ouvia música, pelo que conheço do mundo, não eram certamente as Variações Goldberg. Eu, brincando um pouco ao papel de Deus sempre que mudo de casa, quero continuar a acreditar que partir para uma nova ordem através das Variações Goldberg, será sempre um factor de esperança e optimismo, conhecendo melhor a ordem que cada coisa ocupa no universo, como se fosse a única coisa verdadeiramente certa para esse lugar. É difícil. Ou até impossível. Mas perante as Variações Goldberg fica-se sempre com vontade de voltar a acreditar em tudo.