18 dezembro, 2011

A CIÊNCIA DA DESTRUIÇÃO


                                                Catedral de Colónia, intacta após um bombardeamento

Ao mudar de casa torna-se engraçado comparar a fase em que embalo os livros com a outra em que, já na casa nova, são tirados das caixas para regressarem às prateleiras. Enquanto na primeira fase há uma rápida e feroz destruição da ordem estabelecida, já que a única preocupação é embalar o mais depressa possível para poderem ser levados, na segunda, pelo contrário, há uma lentidão e um cuidado na sua arrumação pelas prateleiras.
Quando estou a embalar livros não estou a embalar livros. Os livros, nesse momento, não são livros. São apenas corpos, substâncias pesadas, volumes que ocupam espaço como desconfortáveis pedras num caminho onde é suposto passear tranquilamente sem ter de olhar para o chão. Transportar um caixote com livros é como transportar pratos ou pequenos electrodomésticos. Um caixote com livros não é um caixote com livros mas apenas um caixote. A diferença entre a Cidade de Deus  e o Silêncio do Mar é que o primeiro são 3 grossos volumes e o segundo apenas um livro fininho. Eis a degradante condição a que ficam reduzidos os livros, quase uma perversão ontológica.
Entretanto, ontem, voltei a recolocá-los nas prateleiras, processo que pressupõe uma espécie de renascimento de todos eles. O processo migratório daqueles livros para um novo lar leva a uma espontânea redescoberta e reavaliação de todos eles. E livros para os quais não olhava há anos, livros que eu tinha até esquecido que existiam, voltam a adquirir uma importância genésica, como se ainda estivessem na livraria à espera de serem comprados. Estou a arrumar os livros e dou por mim a folheá-los lentamente, a lê-los, chegando mesmo, por vezes, a sentar-me. Há, por isso, um veemente constraste entre a brutal rapidez da destruição inerente à desarrumação inicial e a paciente, meticulosa e reflexiva lentidão da arrumação.
Curioso será, entretanto, comparar este processo com o que acontece na vida, na qual, creio, talvez possa resultar melhor o processo inverso: aprender a destruir lentamente e a reconstruir rapidamente. A destruição deveria ser uma ciência, um processo feito de tentativas e erros, de paciente observação e rigorosas conclusões para, finalmente, formular uma teoria exacta que torne a realidade cristalina perante os nossos olhos. A destruição devia, pois, não ser só uma ciência mas uma ciência exacta. Reconstruir, por sua vez, não deverá ser uma ciência mas uma arte, a qual, de exactidão não deve ter nada. Uma arte marcada pela espontaneidade, a improvisação, a imaginação, a criatividade.
A vida de um ser humano é feita de permanentes destruições e reconstruções, de sucessivas mortes e renascimentos. Saber destruir é uma técnica difícil e que não está ao alcance de todos. É como fazer a limpeza de um maxilar depois de extrair um quisto. Deve ficar tudo bem limpo e com a consciência clara do quanto importante foi proceder a essa extracção. A boca deve ficar bem limpa como se tivesse estado sempre limpa. Para isso é, repito, precisa paciência, determinação, tempo, para não voltar a surpreender-nos.
Deve ser por isso que as guerras se desejam rápidas. Deve haver um medo qualquer de que a lentidão impeça o desejo de destruir, pois, destruir, ao contrário do que se julga, cansa muito mais do que construir. Destruir é passar do ser ao nada e isso é sempre profundamente desgastante, embora pareça fácil. Matar depressa, destruir depressa será, pois, uma forma de nos protegermos a nós próprios (ou de nós próprios). Mas não nos esqueçamos que a guerra de 39-45 foi, por outros meios, uma continuação da guerra de 14-18 que, por sua vez, foi uma continuação de um passado que nunca ficou irreversivelmente morto. Cá está a limpeza meticulosa da gengiva.
Sabemos, desde os gregos, ser a destruição inevitável. Mas também sabemos que a saúde, a paz e a fé serão sempre os nossos principais objectivos. Sim, a fé. Renascer é, também, ao contrário da ciência, que é sempre fria, um processo religioso e quente. Daí a destruição ser tão importante na imagética religiosa, do Dilúvio ao Apocalipse. Nunca dizemos que o céu pode esperar. Achamos sempre que o céu está à nossa espera.