02 dezembro, 2011

ANIMA ABSCONDITA


                                                                       August Sander

Deu-me há dias para reler o Silêncio do Mar. Li-o há cerca de 30 anos, lembro-me de ter gostado e resolvi pegar nele outra vez. Voltei a gostar.
Apesar de, aqui e ali, alguma retórica literária um pouco desadequada aos nossos padrões actuais, não me desiludiu e, ao contrário do que tantas vezes acontece ao ler as mesmas coisas em idades completamente diferentes, pensei exactamente o mesmo do que me lembro de ter pensado na primeira vez.
França durante a ocupação nazi. Um oficial alemão instala-se numa casa onde vive um homem com a sua jovem sobrinha. O oficial é um homem bom, sensível, apaixonado pela cultura francesa e acredita genuinamente que a ocupação irá dar à Alemanha o melhor da cultura francesa e à França o melhor da cultura alemã.
Respeitando em absoluto os dois moradores, tudo faz para ser simpático, gentil, assertivo, mostrar que não está ali como força ocupante mas com um ser humano que, provisoriamente cumpre obrigações militares mas que, voltando à vida civil, voltará a ser o músico que era e que gosta de ser. Fala, fala, fala. Em todos os serões desce as escadas para fazer companhia ao dois residentes mas irá sempre esbarrar com o silêncio, a indiferença, o desprezo de dois franceses revoltados.
Esta relação entre o oficial alemão e os dois franceses é muito interessante. São três pessoas que ali estão, três identidades pessoais. Só que, por outro lado a subjectividade inerente a essa identidade pessoal é inevitavelmente diluída na sua identidade política. O alemão tem um nome, e um nome que traduz uma subjectidade que será sempre irredutível a quaisquer outras identidades objectivas ou que transcendem o domínio puramente subjectivo (se é branco ou preto, loiro ou moreno, europeu ou asiático, alemão ou francês, católico ou protestante) mas que ali é completamente anulada.  Aquele homem não está ali. Para os dois franceses aquele homem não tem alma pois quem ali está não é bem um homem mas um país, uma nação invasora. Os dois franceses não se recusam a falar com um homem, recusam-se a serem submetidos a um país.
Estamos perante um caso extremo. Mas, e é isto que agora me interessa, não será isto que se passa em todas as relações humanas? A relação entre duas pessoas será quase sempre uma relação entre identidades transcendentes, identidade exteriores à real identidade subjectiva. Um alemão será sempre um alemão, um engenheiro será sempre um engenheiro, um homem será sempre um homem, uma mulher será sempre uma mulher, um velhote será sempre um velhote, um preto será sempre um preto. É verdade que as pessoas serão sempre isso. Também são isso. Mas haverá sempre uma subjectividade para além disso, uma subjectividade impermeável a isso. Isso que, neste caso, já não é o id psicanalítico mas, pelo contrário, o que há de mais claro, definido e objectivo na identidade de um indivíduo.
Eu acredito que as pessoas têm uma alma mas também acredito que está sempre escondida.