03 dezembro, 2011

AMOR AMOR


Todas as semanas vou ao lar ver a minha mãe. Todas as semanas, de todos os meses, de todos os anos. Costumo ir ao fim de semana mas quando tal não é possível passo depois na terça ou na quarta.
O lar tem uma sala de visitas onde nos encontramos com os velhotes, sendo aí, portanto, que estou com ela. Sempre, mas sempre que lá vou, está também uma senhora, numa cadeira de rodas, que não anda nem fala e sempre, sempre acompanhada do marido, que não está no lar e tem ainda pernas para andar. Estão sempre no mesmo sítio, ela, numa cadeira de rodas, ele, ao lado, numa cadeira normal. Nunca falam, estão apenas ali sentados ao lado um do outro em silêncio. Sempre que eu chego ele já lá está. Sempre que me venho embora, ele ainda lá fica. De vez em quando ele diz-lhe alguma coisa, ela abana ligeiramente a cabeça para mostrar que ouviu e entendeu.
O homem e a mulher têm um ar humilde. Ele, pelo que já pude perceber foi agricultor mas ainda é pessoa para semear umas coisitas, pois de vez em quando interrompe o silêncio para contar à mulher o que anda a semear e a tratar lá na horta, enquanto ela, com olhar vago e distante, sem expressão no rosto, vai abanando ligeiramente a cabeça. Não sei se tem ou não tem a 4ªclasse. Se sabe ler e escrever. De certeza absoluta que nunca ouviu falar de Ulisses e Penélope, de Dido e Eneias, de Tristão e Isolda, de Dante e Beatriz. De certeza absoluta que nunca sentiu quaisquer devaneios amorosos enquanto ouve as Variações Goldberg. De certeza absoluta que nada sabe de pintura para alguma vez se ter projectado no amor de Claude por Camille ou de Egon por Edith. De certeza absoluta que não assistiu aos neuróticos amores de Woody Allen nem poderá desconfiar do que pode ter uma noite de Verão que ver com comédias sexuais. De certeza absoluta que não saberá falar de maneira a poder exprimir por palavras o que sente pela mulher. Aliás, de certeza absoluta que, pela educação que teve, jamais ousaria exprimir sem resistência o que sente pela mulher, essas coisas efeminadas que um homem jamais se atreveria a dizer na barbearia ou na taberna. De certeza absoluta que não sabe o que é um blogue e, por isso, jamais poderia usar um blogue para insinuar, ainda que disfarçada e pudicamente, o que sente pela mulher.
É por isso que eu dedico este post a este homem. Ele seria incapaz de o fazer, mas eu faço-o por ele. Aquele homem, nada sabendo dizer do amor, nada sabendo de psicanálise, de filosofia, de antropologia, de literatura, de mitologia, sabendo apenas de batatas, de couves e de nabiças, sabe tudo o que é preciso saber sobre o amor. Aquele homem é um animal. Perfeito.