07 novembro, 2011

SILÊNCIO, QUE SE ACABOU DE OUVIR A MÚSICA



Ando há vários dias a ouvir um cd com peças de Prokofiev para piano, correspondentes a 10 faixas. É composto por três sonatas, um estudo e uma tocata. Como é hábito, meto-o a tocar a oiço tudo de seguida até ao fim.
Por que razão o oiço assim desta maneira? Simples: porque foi assim que alguém o produziu. Um produtor decide juntar num cd várias composições que, depois de comprado, irei ouvir do princípio ao fim. Mas será esta a melhor maneira de ouvir música? Já tenho feito esta pergunta a mim mesmo com outros cd's (por exemplo, a integral das sonatas de Beethoven, que tenho numa caixa com oito cd's), perguntas essas cuja legitimidade irei tentar justificar.
O compositor senta-se ao piano para compor uma sonata. Quando a compõe, só aquela sonata existe, não há passado nem futuro. Uma sonata com autonomia relativamente ao resto da sua obra, tendo a sua própria respiração e atmosfera. Duas sonatas são como dois filmes ou dois romances, havendo entre elas uma descontinuidade, uma distância temporal e psicológica. Ambas dependem da mesma pulsão criadora do compositor mas a composição de uma sonata enquanto projecção estética de um processo mental complexo é completamente diferente da composição de outra sonata. Muitas vezes compostas com anos de distância e reflectindo fases bastante diferentes na vida do compositor.
No entanto, nós colocamos o cd e ouvimos em cascata uma sequência de composições como se fizessem  parte de uma sequência. Ora, ouvindo o disco de seguida, estamos a concentrar numa unidade temporal várias composições sem ligação, sem continuidade. Significa isto que o tempo da audição não tem qualquer relação com o tempo da criação, sendo, por isso, uma audição artificial.
Não devemos confundir a sequência de diferentes sonatas com a sequência dos diferentes andamentos de uma sonata. Estes andamentos, momentos distintos de uma mesma composição, formam, sim, uma unidade formal, um todo coerente que pede uma audição imediata e una. Ou seja, uma unidade e continuidade na audição que neste caso coincide com a unidade e continuidade da composição. Uma unidade que já não existe quando ouvimos continuamente no mesmo disco duas, três, quatro sonatas distintas.
Como deveríamos então ouvir música? Esta pergunta tem dois pressupostos: por um lado como deveríamos ouvir música de maneira a tirarmos verdadeiramente partido dela. Por outro lado, como deveríamos ouvir música de modo a respeitar o trabalho criador do compositor. Eis então a resposta: ouvindo apenas uma composição de cada vez. Por exemplo, meter o disco no leitor, ouvir a sonata nº3 e parar. Mas parar mesmo. Ou então ouvir de novo. Depois, muito mais tarde, com a cabeça limpa da nº3, ouvir então a nº4.
Ouvir a sonata nº3 e logo depois ouvir a sonata nº4, para logo de seguida ouvir a sonata nº5,  é como numa refeição ter três copos com três vinhos diferentes, bebendo o segundo depois de acabar de beber o primeiro, bebendo o terceiro depois de acabar de beber o segundo. Pode-se beber assim, é verdade, do mesmo modo que se pode ouvir música assim. Mas não é a mesma coisa.
A música é feita de sons e silêncios. Não apenas na estrutura da própria música mas também no fim de cada música que foi composta. E o silêncio que emerge no fim de cada música no momento da sua criação deverá  ser igualmente respeitado no fim de cada audição.