01 novembro, 2011

O PROFESSOR PARDAL


Gosto muito destes rostos de John Herschel, fotografados por Julia Margaret Cameron. Foram estes olhos alucinados que viram o hipossulfito de sódio funcionar como fixador da fotografia, foi com esta expressão de génio exilado que se preparou o terreno para a impressão com sais de ouro e sais de platina, dando origem ao milagre da fotografia.
Tal como acontece em relação a Charles Darwin nas suas domésticas experiências com percebes enquanto a família espera por ele para almoçar, não é difícil imaginá-lo a realizar as suas experiências num fáustico e sombrio anexo lá de casa.
Gosto desta visão romântica do cientista solitário que chafurda na intimidade química da natureza como um poeta na voluptuosa intimidade da linguagem, contrastando com a imagem actual da ciência que surge cada vez mais como um processo colectivo, realizado em assépticos e iluminados laboratórios saídos de um filme de Tati. A essência do cientista é a mesma desde Tales de Mileto, do mesmo modo que as escravas trácias também pouco mudaram. Mas o tempo encarregou-se de ir retirando ao cientista a sua aura xamânica, a fragilidade de um exilado do mundo mas que sabe mais desse mundo num dedo do que as escravas trácias na imensidão capilar das suas pujantes cabeleiras. 
Nas Aventuras dos Cinco, o tio Alberto era um mistério dentro dos próprios mistérios da pequenada, vivendo oculto e fechado no seu impenetrável reino muito longe deste mundo. Alberto? Alberto lembra-me aquele famoso alemão distraído e de cabelos desgrenhados que tratou do espaço e do tempo como Cézanne tratava das formas no seu atelier, apagando com uma esponja as monótonas evidências do olhar comum.
Estamos, pois, muito longe do cientista-funcionário, do cientista engravatado rodeado de assistentes, gravitando por corredores institucionais. O romantismo está, na verdade, muito longe. Restam as fotografias que o próprio Herschel ajudou a criar para nos podermos melhor lembrar dele.

3 comentários:

sonia disse...

Bela homenagem, ótimo texto!

Anónimo disse...

Boas :) Pois é. Na altura dos grandes cientistas dos séculos XVIII, XIX e início do século XX, a ciência era encarada como um mistério, como um indecifrável enigma. Os leigos nunca percebiam as teorias científicas ou as descobertas nem, em grande parte, a sua utilidade. Não deixam de ter razão. Para que servia no século XVIII saber que existia gravidade? Nada mudava na vida das pessoas com muitas descobertas cientificas. Por isso o proprio cientista era encarado como um louco, um individuo anti-social, fechado no seu canto a estudar as "inutilidades". Até porque não devemos esquecer que durante séculos os cientistas foram perseguidos pela Igreja de forma brutal. Actulamente já são encarados de outra forma. De uma forma positica, de Homens e Mulheres capazes de mudar o Mundo com as suas curas para as doenças ou para a descoberta de 1001 coisas que realmente mudam o dia-a-dia das pessoas. E então consagrou-se que o cinetista pode e deve trabalhar em condições dignas com o máxiimo de ajuda e de apoios possíveis. Finalmente as pessoas edscobriram que a ciência está ao serviço da humanidade. No século XVIII (século das luzes para uns, da ignorância para os outros 90%) as pessoas simplesmente não compreendiam o valor da ciência. Felizmente a Sociedade evoluiu (nem sempre de modo positivo claro) de tal modo que até há comissões de ética para controlar o poder da ciência. Mas isso, é outro assunto. Abraços :D Bruno

José Ricardo Costa disse...

Obrigado, Sónia.

Claro, Bruno, completamente de acordo. E olhe que nada tenho contra esse estatuto contemporâneo do cientista. Trata-se apenas de um devaneio romântico da minha parte.