27 novembro, 2011

MUSEU SEM MUSAS [PARTE IV]


                                                                   Thomas Struth

Não foi uma, nem duas, nem três. Foram já muitas as vezes que ouvi pessoas se queixarem de estarem em frente da Mona Lisa sem conseguirem perceber o que tem aquilo de tão especial. Pessoas excitadas, ansiosas, nervosas por, finalmente, se encontrarem frente a frente, não com um quadro, mas com o quadro dos quadros, com "o quadro". Mas que depois de esperarem na fila saem com uma sensação de estranheza por nada terem visto de especial. O que é engraçado é o facto de eu só ouvir isto com a Mona Lisa e não, por exemplo, com as Meninas, uma Ronda da Noite, um Vermeer, Van Gogh ou Picasso. Porquê?
Porque a Mona Lisa está, para um turista, no mesmo plano da torre Eiffel, da ponte de Londres, da torre de Pisa, da fontana di Trevi ou da ponte Carlos. Um turista em Paris vai ver o Louvre como vai ver o Sacré Coeur, o Moulin Rouge ou qualquer outro ponto turístico da cidade. Ok, mas por que razão ninguém fica desiludido com um ponto turístico mas fica com a Mona Lisa? Porque os pontos turísticos são apenas belezas materiais que se apreciam fisicamente (com os olhos, estando o corpo presente) enquanto à volta da Mona Lisa existe toda uma mitologia que supostamente a eleva acima do profano, possuindo uma aura que está ausente de um simples ponto turístico. Quem vai ver a Mona Lisa vai ver um rosto que já viu dezenas de vezes, esperando, porém, que, ao vê-lo lá, no próprio santuário que o guarda, se dê uma espécie de hierofania. A hierofania, no entanto, não ocorre e a pessoa sai de lá com a sensação de que se limitou a ver o que sempre viu sem  nada ter acontecido. Ainda por cima é  pequenino, dizem as pessoas, frustadas, aumentando ainda mais a desilusão.
Eu não quero negar à obra de arte a aura de que fala Benjamin. O que eu quero dizer é que essa aura não está ao alcance das hordas turísticas que pagam bilhete para entrarem nesses armazéns museológicos no interior dos quais tentam elevar o espírito que andou perdido pelos armazéns comerciais e turísticos. Ir ao Louvre será assim uma espécie de missa turística onde o espírito repousa no meio da azáfama das férias. Uma pessoa vai ver a Mona Lisa levada pela mesma sensação e esperança com que um muçulmano se prepara para ir a Meca.
A grande diferença é que um muçulmano não anda com máquina fotográfica ao pescoço, acredita no que vai ver e sabe o que vai ver. O nosso turista, pelo contrário, não acredita em nada mas pensa que o sagrado se pode enfiar pelos seus olhos dentro só pelo facto de pagar um bilhete para olhar para ele. Não pode. Como diria um medieval: para compreender temos que primeiro acreditar.