20 novembro, 2011

MUSEU SEM MUSAS [PARTE III]


                                                                        Thomas Struth

Não sendo pessoa de viajar, não conheço muitos museus. Mas, nos poucos onde entrei, tive a oportunidade de ver quadros de todos os grandes pintores. Leonardo, Rembrandt, Rafael, Bruegel, Caravaggio, Rembrandt, Vermeer, Van Gogh, Monet, Degas ou Picasso. Mantenho o que disse anteriormente: nada ganhei por tê-los visto à minha frente, comparados com as reproduções que já conhecia antes.
Abro apenas uma verdadeira excepção: o Enterro do Conde de Orgaz. Foi até hoje o quadro que mais prazer me deu ver e o único que me fez sentir verdadeiramente o privilégio de estar perante um quadro. Foi a obra de arte que mais tempo demorei a contemplar. Lembro-me vagamente de sentir outras pessoas a chegar, olhar e partir, e eu sem conseguir sair dali como se estivesse colado ao chão e incapaz de ir embora. Não sei dizer quanto tempo estive a olhar para aquilo mas foi certamente muito.
Quando, finalmente, consegui sair, lembro-me de me ter queixado da má iluminação do quadro, muito diferente da que encontramos nos museus (o quadro está numa igreja,  por cima do túmulo da figura principal nele representada). Para além disso, a distância entre nós e ele é bastante significativa, o que dificulta ainda mais a sua apreciação.
Hoje tenho uma certeza: foi precisamente o facto de ter visto o quadro no próprio local para onde foi projectado, um túmulo distante e mal iluminado, que me fez aumentar o fascínio por ele. Não tive qualquer êxtase místico na sua presença. Digo isto porque sei de quem já ficou a tremer quando o viu. Mas ter visto aquela obra-prima, não num asséptico e iluminado zoo como é um museu, mas sobre o próprio cadáver do conde, numa igreja mal iluminada, permitiu juntar o  exacerbado maneirismo do pintor ao tenebrismo da contemplação, um momento único de fruição estética e de elevada densidade psicológica. 
Embora tenha estado na igreja de S. Tomé numa manhã deste século, compreendi muito melhor o que é representar misticamente no século XVI a morte de alguém que viveu no século XIV.  Num museu teria visto apenas um grande obra-prima. Mas seria uma tremenda injustiça reduzir o Enterro do Conde de Orgaz a uma obra-prima. Essas, estão orgulhosamente expostas nessas montras iluminadas chamadas museus. (continua)