17 novembro, 2011

MUSEU SEM MUSAS [PARTE II]


 Thomas Struth

Insisto: gosto de ir a museus e não deixo de passar neles sempre que é possível e o interesse se justifica. Mas entro no museu com o mesmo espírito de quem passeia por um jardim durante o intervalo do almoço. Nunca entrei num museu com espírito de peregrino em busca de um local sagrado ou para alimentar qualquer relação idolátrica com um pintor ou quadro, nem nunca entrei com espírito de expedição científica com o objectivo de analisar os quadros de carne e osso.
Com uma ou outra excepção, num museu, nada descubro num quadro que que não tivesse já descoberto antes nem sinto ou deixo de sentir um prazer que já sentisse ou deixasse de sentir antes. Até porque não tenho a preocupação de conhecer o quadro real, não condicionado pela impressão no papel ou pelas difererentes versões digitais.
Eu gosto muito do Baloiço. Já o vi, na net ou em livros, mais claro e mais escuro, mais esverdeado, azulado ou acinzentado. E com vários tons de verde ou de azul. Acontece que já fui propositadamente ao local onde está para o ver e se me perguntarem hoje quais são as suas verdadeiras cores e tonalidades, não sei responder. E não sei responder porque nem sequer as vi. Vi o quadro mas não reparei nas cores. Limitei-me a ver o quadro que já tinha visto sem encontrar nada que não tivesse já previamente visto. Pronto, gostei de o ver mas não ganhei nada em ver o quadro real.
Ora bem, sem querer ser exemplo para ninguém, isto tem que ver com a minha maneira de me relacionar com a pintura. Eu não sou propriamente um esteta, nem tenho paciência para apreciações técnicas. Sou demasiado preguiçoso para isso e, pior ainda, demasiado distraído e esquecido para memorizar pormenores técnicos. Eu já li várias vezes as diferenças técnicas entre os pintores de  Veneza e de Florença. Li várias vezes mas continuo sem saber pois esqueço-me sempre. E esqueço-me pois não é essa a minha maneira de ver pintura embora reconheça o seu valor e importância.
O que vejo quando vejo um quadro? O que procuro num quadro? Procuro fundamentalmente um sentido narrativo ou a expressão visual de uma ideia complexa. Gosto de procurar num quadro o que possa haver nele que me obrigue a pensar, a reorganizar a minha subjectividade e a tornar mais aguda a minha percepção do mundo. E gosto do lado aberto da obra. Não apenas do que lá está mas também do que é apenas sugerido ou do que pode lá ser posto por mim.
Se é mais azulado ou esverdeado, é-me absolutamente indiferente. É claro que há pintores de cujas cores gosto muito. Mas tanto as aprecio na net ou num livro como em frente ao próprio quadro. Se eu vejo as árvores de Fragonard mais escuras num livro, não vejo que seja um especial benefício vê-las depois mais claras no próprio museu. Eu não vou ao museu para ver a cor das árvores. A bem dizer, eu não vou ao museu para ver nada de especial.
Vou apenas dar um passeio que me pode saber tão bem como estar numa esplanada a conversar com alguém ou a ler o jornal. (continua)