16 novembro, 2011

MUSEU SEM MUSAS [PARTE I]

                                                                        Thomas Struth

Vamos lá ver o seguinte. Eu gosto de ir a museus ver pintura. Se vou a um sítio e por lá existe um museu que valha a pena, faço questão de passar por lá. Nas duas vezes que estive em Amarante fui ver os quadros de Amadeo; passar por Viseu implica passar pelo Grão Vasco; nunca fui ao Porto sem ir a Serralves e na última vez fui ao Soares dos Reis; ainda há pouco tempo estive em Lisboa e fui ver a (excelente) exposição de naturezas-mortas na Gulbenkian; e também não há muito tempo gostei bastante de visitar o museu de Évora onde nunca tinha calhado ir.
Tenho, contudo, uma relação estranha com museus. Não sei explicar bem. Gosto de ir ao museu mas, depois, quando por lá ando, sinto sempre um certo desconforto no modo como vou vendo os quadros, como me coloco perante eles. Como disse, não sei explicar bem mas, ainda assim, vou tentar.
O que eu vou dizer será, para muitos, uma tremenda barbaridade, uma aberração da pior espécie, um crime de lesa-pintura. Aqui vai: eu prefiro ver a reprodução de um quadro num livro que vou folheando no meu sofá ou deitado na cama, ou até no monitor do computador, do que ver o próprio quadro no museu. Pronto, tenho dito.
Eu entro num museu e tenho dezenas, centenas ou milhares de quadros para ver em série. Como se estivessem numa linha de produção. Quadros oriundos de espaços e tempos completamente diferentes, motivações completamente diferentes, psicologias completamente diferentes, objectivos completamente diferentes. No entanto, entro no museu, e ainda que possam estar dispostos racionalmente, ei-los ali todos juntos como num armazém.
Está a ver a última cena do Citizen Kane, aquele armazém onde estão acumulados os milhares de objectos pertencentes ao magnata? Pois é assim que eu me sinto sempre que entro num museu. Por detrás daquela intocável e insuspeita racionalidade e cientificidade museológica, vejo um mundo caótico feito de objectos distintos, heterogéneos, feitos de essências diferentes. Depois, é andar para a frente: ora agora vejo um, ora agora vejo outro, vejamos o que vem a seguir e o que mais virá depois. 
Imagino um  enorme salão com dezenas de animais embalsamados provenientes de habitats completamente diferentes. Olho para a direita e vejo um urso polar, olho para a esquerda e vejo um crocodilo. Continuo a andar. Olho para a direita e vejo um tigre, olho para a esquerda e vejo uma catatua. E assim sucessivamente. Entretanto, olho para o espaço envolvente e o que vejo? Imaculadas paredes brancas condensando, num mesmo espaço neutro e asséptico, animais sem vida e sem qualquer ligação entre as suas naturezas. E eu, no espaço de um minuto, passo de A para B, de B para C, de C para D. Com os quadros passa-se exactamente a mesma coisa: entro numa sala e dou com vinte quadros. Entro noutra sala e venham mais vinte. Quadros que, na sua origem, nada têm que ver entre si mas que surgem ali juntos como se tivessem sido pintados para estarem ao lado uns dos outros.
Depois, há outro aspecto que me incomoda, relacionado com a natureza institucional e formal do museu. Pensemos no percurso do quadro desde o genésico momento criador do artista na solidão do atelier até à sua colocação na asséptica parede do museu por funcionários de luvas brancas. A partir do momento em que o quadro é colocado nesta parede, parede que funciona como montra iluminada de uma loja de produtos luxuosos, sofre um processo de palaciana institucionalização que anula a pureza original da sua "demoníaca" criação.
Qual a relação entre a génese do quadro na fáustica "obscuridade" do atelier do pintor e a sua exibicionista e embalsamada presença nesse verdadeiro zoo artístico que é o museu? Eu Imagino Van Gogh a pintar um quadro. Mas imagino mesmo. Vejo as suas mãos, o seu rosto, as suas expressões. Consigo mesmo entrar na sua cabeça e assisitir aos turbilhões mentais que a povoam. Mas vejo depois esse quadro embalsamado no museu com uma placazinha informativa ao lado, e não consigo ver ali o quadro que Van Gogh pintou numa manhã de Verão depois de tomar o pequeno-almoço. Pronto, não consigo. Não pode ser o mesmo quadro. Eu sinto-me dentro do iluminado, asseado e asséptico museu a olhar para o quadro de Van Gogh como me sinto numa repartição de finanças, num banco ou na sede da EDP.
Depois, para agravar, há toda uma série de factores que me incomodam: toda aquela gente à minha volta, o tempo que tenho para lá estar, as pernas e os olhos que começam a doer depois de ver os primeiros 50 quadros.
Daí gostar mais de ver a reprodução do quadro de Van Gogh no sossego da minha cama ou sofá. Silêncio.  Repouso. Só eu e o quadro. A minha consciência ao encontro da consciência do pintor, liberta de qualquer espaço e de qualquer tempo. Tenho o quadro na minha mão como se fosse meu. O facto de ser um monumental quadro de Rubens miniaturizado nalguns cêntimetros de papel não me incomoda. Paradoxalmente, ainda o torma mais íntimo. Deixa de impressionar, é verdade, não me esmaga como no museu, mas sinto que o vejo melhor assim. Como se a sua miniaturização o tornasse maior. Acredite se quiser: eu já vi quadros enormes em museus, tendo acabado por vê-los melhor num livro ou no meu computador.
Também é verdade que no livro não estou a ver o quadro no local próprio para onde foi projectado. Aquele quadro foi feito para uma parede e não para ser reproduzido num livro. Mas o museu também não é o local para onde foi projectado, não é o seu habitat natural. Os pintores não pintam quadros para serem embalsamados em museus. Os pintores pintam porque gostam de pintar ou pintam porque encomendaram os quadros para uma sala, um escritório, uma cozinha ou entrada de uma casa. E pelo menos no livro posso agarrá-lo com as mãos. No museu nem sequer me deixam encostar-lhe o nariz. [continua]