02 novembro, 2011

MEMENTO MORI [I]


Ontem, não me ocorreu invocar o dia de Todos os Santos. Já  ao simbolismo do presente dia não consigo resistir.
É que por muito que pensemos nos santos e queiramos imitá-los, à santidade muito poucos haverão de chegar. Já todos aqueles a quem o dia de hoje é dedicado serão sempre modelos e  referências que um dia, mais cedo ou mais tarde, copiaremos sem qualquer esforço.

9 comentários:

José Ferreira Borges disse...

Excelente observação!

Anónimo disse...

Se tivermos tido sorte, os que partiram, terão sido os que nos amaram incondicionalemente. lembrá-los no dia-a-dia, todos os dias, é manter a memória, e permanecem vivos. Assim, de simples.
Atentamente,
E.

José Ricardo Costa disse...

Muito óbvia observação, José.

De acordo, E. E digo-lhe mais, é bom guardar os nossos mortos para os nossos dias. Um dia para todos os mortos como para todos os santos, parece-me excessiva promiscuidade. Mas pronto.

maria disse...

e porque não, fazer "dois em um"?

maria disse...

ah, não tinha lido a resposta ao E. Concordo com ela. (não pela questão da promiscuidade)

Isabel Pires disse...

Primeiro a foto, que não me deixou indiferente. Muito bonita, mesmo!
Concordo com o que dizes, sobretudo quando explicas nos comentários que "é bom guardar os nossos mortos para os nossos dias". É nesse sossego, mesmo que feito de desassossegos, que os nossos devem ser lembrados.
Este post fez-me pensar como lidamos com a morte nas diferentes fases da vida.
Com cinco anos comecei a perder familiares próximos. Nessa altura morria-se em casa, muitas vezes após um tempo arrastado de sofrimento que não passava despercebido a uma criança. Por isso, pela diferença de idades (achava-os muito velhinhos) e pela inocência que não tem margem para filtros, vi essas mortes com muita naturalidade. Sabia que as brincadeiras e as gargalhadas não voltariam a acontecer em conjunto, mas não me sentia triste. Os costumes da época encarregaram-se de me colocar peso nos ombros. A obrigação de vestir preto, as etapas do luto carregado e do luto aliviado, a faixa escura que prendia com um alfinete à manga da minha blusa, a proibição de ouvir rádio e de ir brincar com os amigos. Como foram várias mortes em intervalos curtos, lembro-me de viver muito tempo num cenário pesado. Julgo que por isso criei uma espécie de repulsa pela cor preta, o que me impediu de a usar durante muitos anos.
Mais tarde, na juventude, novas perdas. Nessa altura existiram lágrimas. Maior dificuldade de aceitação da morte, acompanhada de total negação dos sinais exteriores do luto impostos em criança.
Agora, na idade adulta, esta negação permanece. As lágrimas são difíceis. Há como que uma vontade de recolhimento que permita guardar quem nos tocou. A morte não é encarada com tanta naturalidade como em criança, nem com tanta revolta como na juventude. É outro patamar, em que se procura a serenidade.

José Ricardo Costa disse...

Sim, Maria, claro. A referência à promiscuidade não é para ser levada a sério.

Sim, Isabel, é mesmo isso: serenidade. Uma coisa muito grega (bem diferente das coisas gregas actuais...)

Anónimo disse...

Eu estava prestes a comentar o post quando me lembrei de um poema que tinha lido há muito tempo do meu amigo Fernando Pessoa, penso que expressa muito do que penso sobre este assunto.

"Depois a trágica retirada para o jazigo ou Cova,
E depois o princípio de morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste,
Quando faz anos que morreste;

Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram.
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti." - Poesia de Álvaro de Campos.

Gostaria de acrescentar que a ideia do luto é para mim absurda. O preto é apenas uma cor que não expressa absolutmente nada. É usada para que os outros não falem do facto de "não usarmos preto" quando um familiar próximo morre. Essa prática é mais para agradar aos outros ou a nós próprio se tivermos sido devidamente influenciados, do que para expressar a dor e o sofrimento interior. Porque esse, se for verdadeiro, só a nós nos diz respeito. Abraços Bruno :)

José Ricardo Costa disse...

Concordo inteiramente, Bruno. E obrigado pelo poema.