24 novembro, 2011

A MÃO E O ESPÍRITO

                                                                John Huston | O Morto [fotograma]

Nos anos 70, era eu um garoto, Mário Soares passou por Torres Novas e calhou ter-lhe apertado a mão. Ele era então ministro dos Negócios Estrangeiros e, dias antes, e tinha-o visto no telejornal a apertar a mão a Henry Kissinger em Washington. Lembro-me de ter pensado na altura que  tinha acabado de apertar a mão ao homem que tinha apertado a mão a Henry Kissinger, o político mais poderoso do mundo. Foi a minha versão barthesiana de estar a ver os olhos que viram o imperador, só que, desta vez, com uma sugestão muito mais física e realista do que a de Barthes, mais virtual e ilusória.
Este episódio faz-me pensar na ilusão de um contacto com outro ser humano cuja essência é puramente virtual. O meu aperto de mão a Mário Soares foi real. O aperto de mão de Soares e Kissinger foi real. Mas eu não tive qualquer contacto directo com a mão de Kissinger. Alimentei a sugestão, comprazi-me com a sugestão mas não passou disso mesmo: uma sugestão. Eu nunca cheguei a ver Kissinger, nunca respirei o seu oxigénio, nunca lhe apertei a mão.
O espaço contemporâneo está inundado de relações virtuais, de amizades virtuais, cumplicidades virtuais, amores e ódios virtuais. Há pessoas que se amam e odeiam sem nunca se chegarem a ter visto. Amizades que se fazem e desfazem sem nunca se chegarem a ter visto. Parece-me evidente que não passa tudo de uma ilusão construída a partir de elementos distantes e fugazes.
Mas eu gosto de complicar as coisas e é isso que irei fazer: até que ponto serão virtuais não apenas as relações que acabo de referir mas todas as relações? Até que ponto o conhecimento do outro não é facilmente iludido pela aparente objectividade de uma presença física? Como se o corpo ou  uma simples mão pudessem significar alguma coisa. É verdade que um corpo é muito mais do que a sua ausência. Mas que raio é um corpo? Que raio será uma mão? Não será o corpo também um falacioso núcleo da identidade do outro? O que há nessa identidade que nós jamais chegaremos a ver, por muitos olhares, abraços, beijos ou sexo que exista com os seus íntimos fluidos orgânicos misturados na objectividade e pura materialidade de uma penetração física? O que há nessa identidade que nem o próprio consegue ver quanto mais os outros, completamente impermeável a quaisquer invasões das consciências alheias?
A mão, essa amálgama de pele, ossos, tendões, músculos, gordura, veias, sangue, está toda aí para a observarmos, agarrarmos ou sermos agarrados por ela. O espírito, esse, será sempre uma brisa invisível que tanta vezes nos arrefece à sua passagem e sem nunca deixar rasto.