15 novembro, 2011

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                                                                 Duane Michals | A Anunciação

Tenho sempre um livro como leitura principal mas nunca deixo de ir debicando outras coisas. Neste momento ando com o Teatro de Sabbath, do Philip Roth, mas passei a manhã de domingo na cama a ler textos gregos reunidos por Maria Helena da Rocha Pereira na Hélade. Textos de autores conhecidos como Homero, Píndaro, Arquíloco ou Anaximandro e de outros menos conhecidos como Calino, Terpandro, Álcman ou Mimnermo.
Entretanto, não pude deixar de comparar o início do romance de Roth com, por exemplo, o início da Ilíada, e no flagrante contraste entre o antigo e o contemporâneo.
O primeiro começa assim: "Ou deixas de foder outras ou está tudo acabado", enquanto a Ilíada, assim: "Canta-me, ó deusa, a cólera funesta de Aquiles,/ filho de Peleu, que causou aos Aqueus sofrimentos sem conta/ e precipitou no Hades muitas almas ilustres/ de heróis, fazendo deles mesmos a presa dos cães/ e de todas aves - cumpriam-se os desígnios de Zeus-/desde  o momento em que se separaram, discordando um do  outro,/ o Atrida, senhor dos homens, e o divino Aquiles."

Poder-se-á dizer que se trata de uma comparação abusiva ou arbitrária uma vez que nem todos os textos antigos e contemporâneos começam assim. Muito bem. Porém, independentemente disso, o início de Roth jamais poderia ser um início antigo ou grego, do mesmo modo que o início da Ilíada não faria sentido num texto moderno. Mas nós julgamos compreender um grego, contrariamente ao que aconteceria com um grego em relação a nós se agora ressuscitasse e lesse o início do Teatro de Sabbath, ainda que com um dicionário de inglês-grego antigo na mão. Também Dante não iria entender Herberto Hélder, Ariosto entender Joyce, nem Shakespeare entender Beckett. E embora hoje qualquer pintor possa compreender Ticiano, de certeza que Ticiano não iria entender Chagall. E embora entendamos perfeitamente a música de Bach, alguém acredita que Bach pudesse entender a música de Stockhausen? Não admitimos a possibilidade de eles nos entenderem mas assumimos claramente o conhecimento deles, tal como um adulto pensa conhecer as crianças, sabendo, porém, que as crianças não têm capacidade para entender os adultos.
Mas será mesmo assim? Não haverá aqui uma ilusão em relação ao conhecimento do passado? Pensamos sempre que conhecemos o que veio antes. Mas, do mesmo modo que, em adultos, há sempre uma distância entre o que pensamos sobre o que pensávamos em crianças e o que efectivamente pensávamos, também na história haverá sempre uma distância entre o que pensamos que outros pensaram e o que eles na verdade pensaram.
Não haverá sempre um fosso entre as consciências antigas e as consciências modernas? Aquela hermenêutica ambição de conhecer melhor um autor passado do que ele se conheceu a si próprio, parece-me despropositada. Nós lemos Homero, ouvimos Bach e vemos Ticiano com os nossos esquemas mentais, não com os esquemas com que eles criaram. Podemos estudar o contexto cultural, social, económico, filosófico, religioso e mais sei lá o quê, mas haverá sempre uma relação fantasmagórica entre duas consciências. A poesia de Homero, a música de Bach e a pintura de Ticiano são, actualmente, criações nossas do século XXI. Nós adoptámo-los. E passaram a ser nossos contemporâneos. Os verdadeiros Homero, Bach e Ticiano ficaram irreversivelmente mortos e esquecidos num irrecuperável passado.