04 novembro, 2011

FOCO YOU!

                                                                Otto Steinert | Pedestrian Foot

Achei piada ao Don Delillo dizer que a sua memória funciona a preto e branco (entrevista no Expresso da semana passada). Eu li isto e pus-me a pensar como funciona a minha: se a cores ou a preto e branco.
Coisa engraçada, julgo que nem de uma maneira, nem de outra. Se pensar no meu primeiro dia de escola primária, nos sítios onde jogava à bola, no primeiro beijo, no dia em que cheguei a Lisboa para estudar, na primeira aula que dei, não vejo cores, nem preto e branco. Coisa estranha, logo eu que tenho uma boa memória fotográfica.
Percebo, entretanto, que a minha lógica mnésica se concentra, não numa tensão entre cor e preto e branco mas numa tensão entre focagem e desfocagem. Intuitivamente associamos o preto e branco a um tempo longínquo e a cor a um tempo mais recente, havendo uma gradação cromática em função de uma maior ou menor distância temporal.
No meu caso, porém, o que acontece é sempre uma desfocagem da qual emergem, como bolhas que se dilatam para logo de seguida rebentarem, fugazes e insípidos raios de nitidez, referências físicas e espaciais como pequenos esboços que parecem querer assumir contornos reais mas que rapidamente submergem num fundo desfocado do qual não conseguem fugir. E do qual estão ausentes quaisquer referências cromáticas.
É neste sentido que, no meu caso, a memória se torna mais coisa mental do que física ou visual, uma espécie de fantasmagoria conceptual resultante de uma sincrética fusão de imagem e conceito da qual resulta uma imagética abstracção que rouba toda a vividez e nitidez a um plano sensível outrora real, colorido e superiormente focado.
O que vejo, então, quando vejo o passado? Não vejo cores mas também não vejo formas com contornos reais. Não posso, por isso, fazer sequer uma comparação entre o que se passa  na minha cabeça com as (belíssimas) monocromias grisalhas de Bruegel que podemos ver em Cristo e a Mulher Adúltera ou a Morte da Virgem.



Porque apesar da ausência de cor ou até da ausência do preto e branco, não, obviamente, o preto e branco da fotografia contemporânea mas o preto e branco do chiaroscuro clássico, continuamos ver aqui uma representação realista e "fotográfica" feita de vívidas morfologias. E também não posso fazer uma comparação com o Guernica de Picasso, baseada numa possível comparação com a irrealidade e arbitrariedade morfológica dos objectos humanos e não humanos que o povoam, em clara ruptura com uma representação "fotográfica". Porque há uma nitidez nessa arbitrariedade que nada tem que ver com as formas difusas que vagamente emergem na minha memória. Aquele cavalo não existe empiricamente mas passou a existir inequívoca e vididamente naquele quadro enquanto as imagens da minha memória são uma espécie de espuma que tão depressa se forma como se desvanece.
O que vejo quando vejo o passado acaba, assim, por ser uma mistura de elementos literários e cinematográficos ou fotográficos. Como acontece quando leio um livro e tento visualizar o que estou a ler. Eu leio o meu passado como leio um livro e naturalmente inicio uma reconstrução mnésica feita de imagens que vagamente remetem para os conteúdos literários. De modo que pôr-me a pensar no dia em que cheguei a Lisboa para estudar é como estar a ler num livro que alguém chegou à universidade para estudar. A analogia não é perfeita pois fui eu próprio que estive na universidade e conheço a universidade. Ora, se eu ler num romance "John chegara naquele dia a Harvard para estudar filosofia", o que acontece na minha cabeça ao pensar em Harvard não pode ser o mesmo que se passa ao pensar na Faculdade de Letras de Lisboa.
Ainda assim, a analogia funciona, não tanto com as referências arquitectónicas, urbanas, paisagísticas (centenas ou milhares de vezes vistas) mas com as vivências:  momentos únicos, irrepetíveis e irreversivelmente mortos na vacuidade de um passado morto mas que sobrevive desfocado na minha consciência. E não há óculos para esta miopia.

2 comentários:

Anónimo disse...

Boas :) Queria começar dizendo que também eu tenho memória fotográfica. O que é estranho é que no meu caso, recordo com muito facilidade as formas e as cores dos objectos, das pessoas... É até bastante rel, parece uma dimensão à parte, a dimensão da memória. Recordar momentos passados que existem algures no cérebro, é exigente mas gratificante quando se consegue recordar quase um diálogo por inteiro ou pormenores magníficos. (Sempe me deu jeito nos testes :) ). Mas a memória é individual e pessoal, pelo que estes flashes são mais ou menos intensos e reais, consoante a importância que lhes atribuimos na altura. Abraços Bruno :)

José Ricardo Costa disse...

Pois é, Bruno, dá para ver que as suas pinturas mnésicas são diferentes das minhas. O Bruno é mais fauvé!:) Abraço.