18 novembro, 2011

FELIZ ANOVERSÁRIO

                                                                         Elliott Erwitt

Um dos Spleen de Baudelaire começa com chave de ouro: «J'ai plus de souvenirs que si j'avais mille ans».

Por que razão ler isto no início de um poema invoca naturalmente tristeza e não alegria? Por que razão nos inclinamos para pensar que abrir um poema, tendo a recordação como motivo, remete para sentimentos de melancolia ou atormentado devaneio? Uma pessoa pode ter uma vida cheia de recordações felizes.
A resposta está numa vida que parece ter mil anos. No peso dos mil anos. Uma vida de recordações felizes é uma vida que parece durar pouco. A felicidade faz a vida passar depressa. A tristeza, pelo contrário, torna a vida num longo calvário, num deserto sem princípio nem fim. Sei lá, como se nunca tivéssemos nascido mas sempre vivido. Como já tivéssemos nascido com um longo passado agrilhoado na alma.
Baudelaire gostaria bem mais de ter escrito um verso feliz onde falasse de mil recordações como se tivesse vivido um só ano.