15 novembro, 2011

EUFEMISMO


                                                                      Robert Doisneau

Tenho uma daquelas turmas que estão para uma escola como os ratos estão para um navio, leccionando-lhes uma disciplina que, dias antes da primeira aula, eu nem sabia que existia.
Ontem, decidi armar-me em intelectual e começar a falar da facilidade com que actualmente nos deslocamos para sítios distantes graças à existência de rápidos meios de transporte. Um aluno, revelando ainda alguns vestígios de vida inteligente, afirmou que era possível dar a volta ao mundo em 80 dias dentro de um balão. Eu, maravilhado com o que ouvia, perplexo com a descoberta de não ser o único intelectual no porão, disse: "Ah, mas isso é um livro!". E ele: "Não é nada um livro, é um filme, um filme que já passou na televisão".
Há dias vi um documentário sobre a Nouvelle Vague, centrado nas relações entre Godard e Truffaut, no qual é citado Fritz Lang, um dos heróis dos jovens realizadores franceses. Dizia o realizador de Almas Perversas  que o cinema é uma arte feita especialmente para jovens.
No momento em que ouvi isto, comecei a pensar sobre a diferença entre o cinema e a pintura ou a literatura e a recepção de cada uma delas em função da idade das pessoas. Porém, depois da conversa com o meu aluno, fui obrigado a alterar radicalmente o contexto e sentido da frase.
Julgo entender o que queria dizer Fritz Lang. Mas, neste momento, julgo entender também o profundo sentido eufemístico da frase. A juventude não pode ser apenas vista como um estado etário. É também um estado mental, digamos assim.