13 novembro, 2011

DURA CELA

Clarence White | Manhã

«Julgamos que os anjos não são as únicas criaturas racionais e intelectuais que devem ser tidas por felizes. Quem é que, de facto, ousaria negar que os primeiros homens no paraíso tenham sido felizes antes do pecado embora estivessem incertos da duração da sua felicidade ou da sua eternidade?» Santo Agostinho, A Cidade de Deus, vol. II, Livro XI, cap. XII, pag. 1017, Fundação Calouste Gulbenkian

Volto a S. Agostinho, uma das minhas velhas paixões, apesar de se enganar bastante. Ou talvez, quem sabe, precisamente por se enganar bastante.
S. Agostinho entende bem melhor a psicologia dos anjos do que a psicologia humana. O que até se entende, sendo os anjos, por definição, criaturas bem mais simples do que os seres humanos. Isso explicará o facto de S. Agostinho não entender que, para um ser humano, a incerteza sobre a duração da felicidade nada tem que ver com a possibilidade de ser feliz. É precisamente o contrário. A certeza sobre o tempo que dura é que é condição necessária para se ser feliz. Saber que depois da manhã vem sempre a tarde, que antecede sempre a noite escura que vem para nos abraçar e na qual depois ficamos presos como numa cela sem janelas.