03 novembro, 2011

COLARINHOS SEM COLEIRA


Ueda Shoji | Auto-retrato com Balão

Hoje de manhã fiquei baralhado quando, depois de vestir o pullover de gola redonda, precisei de compor os colarinhos da camisa. Como sempre, ajeitei-os para dentro do pullover. Só que, como eram maiores do que o habitual, senti-me desconfortável com eles metidos para dentro. Resolvi então fazer o que nunca tinha feito na vida: meter os colarinhos para fora.
Vejo-me ao espelho para avaliar o efeito e tive uma sensação estranha ao ver aqueles enormes colarinhos simetricamente dispostos para fora do pullover. De repente, passaram pela minha cabeça imagens dos anos 60 e 70 povoadas de pessoas humildes com colarinhos enormes para fora das camisolas. Ou as roupas dos lisboetas no dia 25 de Abril de 1974, completamente pirosas para os nossos padrões actuais. Pensei então que seria ridículo sair assim para a rua, pela possível pirosice do efeito e porque estaria a vestir uma coisa fora de moda. Mas, ao mesmo tempo, estava a gostar de me ver assim vestido, até porque os colarinhos brancos da camisa combinavam lindamente com as riscas horizontais castanhas e cor de café com leite do pullover. Foi então assim que saí à rua. Sem me preocupar se estaria ou não a ser piroso, se estaria ou não de acordo com a moda e as convenções do bom gosto. Sem me preocupar se iria ou não ser criticado ou gozado.
Há 5, 10 ou 20 anos atrás eu não teria arriscado. Ter-me-ia lembrado dos lisboetas de 1974 e que agora estamos em 2011. Ter-me-ia recusado a sair à rua, desviando-me das convenções e sem ter a certeza da legitimidade estética da minha roupa. Hoje, porém, não quis saber disso para nada e saí como bem me apeteceu.
Aos 20 e poucos anos tive uma fase marxista. Andava então vestido como achava que devia andar vestido um marxista. Um dia, numa manifestação "Atomkraft, Nein Danke" em frente a uma central nuclear alemã, eu estava rodeado de amigos alternativos, com toda a semiótica a condizer: roupas, barbas, cabelos, calçado artesanal, enfim, esse tipo de coisas. Entretanto é-me apresentado o primo de uma amiga minha que por acaso também ali se encontrava: cabelinho cortado, barbeado, calças de fazenda todas vincadinhas. Em Portugal poderia ser um militante da JSD. Fiquei estupefacto. Como era possível uma pessoa que eu considerava normal vestir-se assim daquela maneira? Eis-me, pois, ali subordinado a códigos rígidos de vestuário, anulando por completo o que será o arbítrio e o gosto individual de cada um.
Hoje ao assumir o risco de sair assim à rua, assumi a minha liberdade de ser quem sou e de esse "eu" ser muito mais do que a minha ideologia, o partido em que voto, a minha sensibilidade filosófica, mas também os padrões impostos pelo gostos presentes.
Senti-me livre ao sair assim para a rua. E foi bom.

19 comentários:

Artes e escritas disse...

Esse seu texto é gratificante porque a sua liberdade está acima dos pensamentos e comentários, das ideologias, uma liberdade bem vinda que enobrece o espírito. Um abraço, Yayá.

Ivone Costa disse...

Colarinhos brancos para fora ainda é coisa que se usa muito ali para os lados do Boulevard Saint Germain, à Paris. :)

José Ricardo Costa disse...

Um atlântico Saravá, Yayá!

Saint Germain? Pois, isso não sei, é sítio onde não vou há quase 40 anos. Eu cá sou mais de ir ali à Nazaré comer uns carapaus ou umas belas sardinhas.

Fred disse...

Assim é que é! Temos que nos ir sempre adaptando às coisas!


Um abraço!

José Ricardo Costa disse...

Ou as coisas adaptarem-se a nós. Um abraço, Fred.

Isabel Pires disse...

Acredito que há 5 anos já terias arriscado, Zé Ricardo!
Há 10 ou 20 não o farias porque provavelmente e como é normal, ainda não te tinhas conseguido libertar do olhar e opinião dos outros sobre questões que apenas têm que ver com o nosso gosto e bem-estar. Ainda te encontravas prisioneiro.
Já uma ou duas vezes me referi aqui a aspectos positivos do envelhecimento. Olha, é mais um.
Este teu texto está muito interessante. A forma como inicias é deliciosa, para depois, pouco a pouco, entrares no terreno da reflexão.

José Ricardo Costa disse...

Pois, compensa-se o reumatismo com a liberdade...

Isabel Pires disse...

Adorei essa do reumatismo!
Julgo que ainda não tenho.:) Suponho que hoje, quem sofre de doenças reumáticas, pode continuar a ter uma boa qualidade de vida. Agora sem liberdade... Fia mais fino.

jrd disse...

Depois de trinta anos de gravata (com riscas diagonais)fiquei farto e agora só uso, praticamente, camisas sem colarinho. ;)

José Ricardo Costa disse...

É mesmo caso para dizer: nem colarinhos nem coleira.

Anónimo disse...

Boas :) Tenho de expressar o meu desapontamento para consigo José Ricardo. Desde que ando a ler este blog, fiquei com a impressão que o Zé era diferente dos outros, na medida em que não se interessasse por padrões sociais ou modas, essas sim, pirosas. Quando soube que era professor de psicologia e filosofia esta minha crença ainda se acentoou mais. Qualquer das maneiras, para mim não acho nada de extraordinário, porque eu prórpio não ligo ao que os outros dizem ou ao que possam pensar de mim. Embora eu saiba que o Homem é influenciado pelo Meio, e que já nasce inserido numa Sociedade, toda ela cheia de normas e padrões sociais inquestionáveis, eu não vivo para os outros. A vida é minha, e desde que não interfira com a Liberdade Individual de cada um, penso que estou no direito de fazer e escolher o que me der na real-gana. Nunca tive umas all-stars como foi moda há uns anos, nem umas botas da Timbarland há 2. Nunca tive nem senti necessidade de ter Hi5, nem mais recentemente facebook. A minha roupa não é de marca nem a vou comprar à Zara. Na minha maneira de olhar as coisas, uma pessoa só consegue ser feliz, ou pelo menos ter momentos (breves) de felicidade, se não ligar ao que os outros pensam ou podem pensar. Estar preso na sombra dos padrões sociais e das normas há muito adoptadas não permite a ninguém ser feliz. Uma vez que a nossa liberdade fica ainda mais condicionada com o pensamento do Outro, ou com a preocupação individual do pensamento do Outro. Porque raio é que temos de aceitar (quase obrigados) tudo o que a Sociedade idealiza? Durante séculos o Homem lutou pela Liberdade, e agora que a temos, fazemos de nós próprios presos ou escravos do pensamento alheio. PLEASE!! Abraços Bruno :)

José Ricardo Costa disse...

Completamente de acordo, excepto em duas coisas. Em primeiro lugar, eu não teria essa visão tão romântica dos professores de filosofia. Em segundo lugar, também não vejo mal nenhum em ter umas botas da Timberland se a pessoa gostar delas e tiver dinheiro para as comprar. Compras as botas porque se gosta delas está longe de significar uma submissão à didatura da moda ou dos outros. Abraço.

Anónimo disse...

O problema é que já ninguem usa as botas da Timberland. Então já não gostam delas? Ou já não se usam? Eu apostava na 2a. Na altura em que surgiram o people comprou dizendo para eles próprios que gostavam das botas. Mas quando se deixou de usar as Timberland, pura das coincidências, o gosto pelas Botas tambem acabou... O Zé sabe perfeitamente que é verdade que foi um dos muitos fenómenos de modas e ondas temporárias... Bruno

José Ricardo Costa disse...

Sim, claro, mas sempre foi assim. Ainda há-de vir o dia em que veremos de novo todos os homens de bigode e peúgas brancas...

Anónimo disse...

Ah pois mas não só neste aspecto. Penso que Portugal daqui a alguns anitos, vai voltar a cultivar a horta!!! O que vai representar não só um retrocesso da evolução (que paradoxo) como da mentalidade. Mas será que é assim tão mau voltar a cultivar a horta? Fica a questão no ar :D Bruno

José Ricardo Costa disse...

Neste caso será certamente uma avanço. Juro que não estou a brincar mas penso que o futuro de Portugal poderia passar de novo pelo feudalismo. Enfim, um feudalismo moderno, adaptado ao século XXI.

Anónimo disse...

Compreendo perfeitamente a comparação. A Agricultura foi negligenciada durante anos, sendo mais que óbvio, uma enorme fonte de riqueza. Juro que também não estou a brincar, mas Salazar foi até agora o único a ver o potencial do país na agricultura e o único a ter o país com as contas direitas. Por alguma razão fomos durante muitos anos o país com mais Barras de Ouro no Mundo. Actualmente somos o 6º. Grande parte desse ouro que sobra veio da agricultura. É bom ter alguém que partilhe da opinião do Rural Moderno. Abraços Bruno :)

CCF disse...

Belo texto. Senti o mesmo a primeira vez que pintei as unhas, pois durante muito tempo escolhi viver num meio onde esse tipo de futilidade era muito criticado. Vigiei-me até à exaustão, até poder fazer livremente as minhas escolhas fora de qualquer padrão. E agora é tao bom!
~CC~

José Ricardo Costa disse...

Obrigado, ~CC~. E longa vida para as suas livres unhas.