26 novembro, 2011

BLOW UP

                                                                      Bill Brandt

Hoje de manhã aconteceu-me uma coisa curiosa quando estava ao telefone com uma amiga que vive em Atenas. Bateram-lhe à porta, ela pede-me para eu esperar um pouco mas como o telefone era portátil leva-o consigo. Eu fico então na minha sala a acompanhar uma sequência de sons que me chegam do outro extremo da Europa: uma porta que se abre, uma voz que fala uma língua ininteligível, a voz da minha amiga no mesmo registo ininteligível, passos, vozes, o barulho de uma gaveta, continuação das vozes numa língua ininteligível, novo barulho de gaveta, continuação das vozes, passos misturados com vozes, uma porta a fechar. E eu aqui, em Torres Novas, como numa auditiva janela indiscreta com binóculos nos ouvidos, a acompanhar todo o processo.
Se esta sequência de sons captada telefonicamente viesse de uma  casa na minha terra, eu não estaria agora com esta conversa. Ouvimos muitas vezes sons familiares deste tipo vindos de outros apartamentos e nem ligamos, tal é a sua quotidiana evidência e realismo. Uma gaveta a abrir e fechar é igual em qualquer parte do universo e pouca coisa no mundo será tão pouco estimulante como o som de uma gaveta.
No caso deste telefonema, porém, não posso evitar um sentimento de perplexidade ao ouvir os sons quotidianos de uma casa no outro extremo da Europa, anulando toda a espacialidade e rugosidade física do mundo real, substituídas por uma espécie de pureza ou céu virtual; anulando a distância real entre mim e alguém que está em Atenas, distância feita de milhares de km, de diferentes e grandes países, de diferentes climas, de diferentes paisagens. O mundo real deixa de existir, havendo apenas diferentes pontos do universo coincidindo numa mesma dimensão, que já não é bidimensional ou tridimensional, ou nem sequer dimensional, mas etérea.
Eu nunca fui à Grécia. Conheço a Grécia de algumas fotografias de monumentos, ilhas, aldeias pitorescas pintadas de branco e azul, paisagens bonitas: imagens, postais ilustrados, estereótipos visuais. O estranho, neste caso, foi eu sair de repente da Grécia dos postais ilustrados, das ilhas, dos monumentos para consumo turístico e, sem sair da minha sala, entrar numa sala cujos sons, apesar da sua extrema familiaridade, não deixam de ser abstractos pois são de um país que não existe. Não existe? Sim, claro, não existe para mim. Para mim, a Grécia "real” é a Grécia turística que vê toda a gente que nunca foi à Grécia ou que vêem as pessoas que vão à Grécia para continuarem a verem lá o que já antes vêem as pessoas que nunca foram à Grécia.
O que não deixa de ser paradoxal. Quanto mais "real" e colado à realidade for o som num país distante (uma porta que se abre, uma gaveta que se fecha, passos, vozes), mais abstracto ele será, pois mais se afasta das imagens mentais que formamos de um país, as que se tornam verdadeiramente familiares para nós (apesar de nunca as termos visto) e alimentam a nossa consciência: a Acrópole, as casas brancas e azuis nas ilhas, os anfiteatros. E não há nada de mais real do que os sons de uma doméstica sala grega, tal como a sala de uma casa portuguesa, sueca ou russa.
Por razões familiares e de amizade, em tempos longínquos acabei por passar férias em cidades como Paris, Hannover, Bremen ou Hamburgo, onde tinha uma rotina diária: estava em casa, conhecia os vizinhos, ia ao pão e ao café da esquina. Quando estamos deste modo numa cidade, passamos a ver a verdadeira cidade, a cidade real. Sem máquina fotográfica, sem instinto de turista, sem mapa e guias na mão e no bolso a morada do hotel para podermos regressar ao fim do dia.
A primeira vez que saí de Portugal foi para ir a Badajoz. Era ainda criança e lembro-me de pensar que iria entrar noutro planeta. Imaginava tudo diferente do que até então conhecera. Ora, a coisa mais estranha quando lá cheguei foi achar tudo aquilo demasiado normal: pessoas normais, casas normais, carros normais, lojas normais. Vim desiludido.
Uma desilusão que haveria de me marcar toda a vida. Eu não tenho especial apetência por viajar, porém, de vez em quando gosto de sair para arejar um pouco, sobretudo em Portugal, onde há sítios de que gosto bastante. Mas é muito raro vir de algum sítio sem uma sensação de desilusão, principalmente no estrangeiro. É verdade que é com alguma relativa indiferença e tédio que olho para monumentos, casas bonitas e isso. Pergunto sempre a mim por que raio hei-de estar a olhar para o que já estou farto de ver em fotografias. Quando vi o Big Ben e a ponte de Londres a minha reacção foi: "Ok, podemos ir embora?", como se estivesse a olhar pela centésima vez para a mesma fotografia. É por isso também que não me passa pela cabeça ir a cidades como Praga, Veneza ou Nova Iorque, só para ver o que já vi em inúmeras fotografias ou filmes. Nas poucas vezes que estive no estrangeiro, limitei-me a ver o que já tinha visto, ficando sempre com a sensação de que estou sempre no mesmo sítio. Pode parecer uma parvoíce e uma deficiência minha, que assumo, mas não consigo que seja de outra maneira.
O som longínquo de uma vulgar gaveta a abrir-se e fechar-se na sala de um apartamento de Atenas, apesar da sua radical vulgaridade, soou-me mais fantástico do que chegar em frente à Acrópole e olhar para aqueles pedregulhos absolutamente iguais aos das fotografias.