22 novembro, 2011

A BANHEIRA


Eu e esta fotografia foi amor à primeira vista. Literalmente. Porquê? Bem, o amor à primeira vista não tem necessariamente explicação mas, neste caso, a explicação existe: por tudo. Pelos seus bonitos e elegantes elementos físicos, ou seja, o padrão do sofá, o copo com a flor vermelha sobre a branca textura da parede, ou a combinação de cores dos dois vestidos. Pela beleza simultaneamente seráfica e contemporânea das duas raparigas, uma mais ostensiva, outra mais discreta. Mas sobretudo pela densidade dramática da cena, na qual a ausência de uma das raparigas contrasta fortemente com a inquietação e ansiedade da outra, bem traduzidas na expressão do rosto e num braço cujo movimento e dinamismo mais acentua o alheamento dos outros dois braços repousados.
Eu olho para esta fotografia e, apesar da sua identidade contemporânea flagrantemente denunciada pelo relógio de pulso, muita história da arte me atravessa a cabeça. A sua densidade dramática lembra a de tantos interiores holandeses onde o silêncio e a paz sugeridas não conseguem iludir um mundo de turbulências interiores, inquietações, ansiedades ou subtis jogos psicológicos. O próprio silêncio que  tão facilmente aqui se perscruta é nitidamente holandês. Holandês, como poderia ser o silêncio que envolve suavemente as figuras vagas e distantes da pintura de Hammershoi. A própria inconsciência da rapariga deitada faz-me pensar na inconsciência que isola a mãe de Whistler, pintada por este em 1871. Há ainda qualquer coisa nesta espontânea encenação que me atira para as formalistas, embora ígualmente poéticas, encenações de Lady Clementine Hawarden, Julia Margaret Cameron ou Alice Boughton. Eis pois uma daquelas fotografias que, como tantas fotografias ou quadros, se pode tornar facilmente num objecto de culto.
É por isso que mais fascinante ainda se torna conhecer aqui a história desta fotografia. Um fascínio que aumenta a partir do momento em que penso igualmente na história por detrás da  dramaticamente bela e irreversivelmente ausente Ofélia de John Everet Millais. Elizabeth Siddal foi pintada dentro de uma banheira para oferecer ao pintor o maior realismo possível na construção da cena. Acontece que isto se passou no Inverno e Londres no Inverno não é o Rio de Janeiro. Millais bem tentou ir aquecendo a água mas por dificuldades técnicas um dia arrefeceu de tal modo que a pobre Elizabeth acabou com uma pneumonia. E uma pneumonia no século XIX não era bem a mesma coisa do que uma pneumomia actualmente.
Há, portanto, uma banheira a unir a história de Karen e Lesa e a história de Elizabeth, ainda que por razões bastante diferentes. Duas banheiras reais onde se iniciam duas ficções. Um mundo real do qual, literalmente, emergem dois mundos ideais, cuja imaculda perfeição renega a banheira onde tanto pode estar uma rapariga embriagada por um adolescente desgosto de amor, actualmente uma enfermeira divorciada e que pouco tempo depois desta fotografia cantava numa banda punk, como uma humilde jovem londrina, que adoece gravemente e com um percurso de vida marcado por depressões e dependente da droga.
Neste caso, nem a arte imita a vida, nem é a vida que imita a arte, como dizia Wilde. Não há qualquer imitação. Arte e vida surgem aqui tão distantes uma da outra como a maçã ideal de Platão da maçã que comemos para depois ser digerida no organismo.