10 outubro, 2011

RISCO DE VIDA


                                                          Man Ray | Marcel Proust no leito de morte

A pessoa que disse «Sendo a prisão uma punição, as pessoas parecem encarar o suicídio como um risco normal» devia ler Epicuro. Risco? Desde quando a morte é um risco? A morte será sempre uma agradável certeza, um espaço de enorme e tranquila segurança.
Devemos conservar a simpática ideia do velho filósofo: se pensamos na morte é porque estamos vivos, se morremos, deixamos de pensar nela, e, assim sendo, nunca chegamos a encontrá-la.
A morte será sempre uma mania e obsessão de gente viva. E estar vivo, isso sim, é que será sempre um enorme risco.

6 comentários:

Ana Paula Sena disse...

Que fotografia extraordinária! Não conhecia.

Bom, eu penso bastante na morte e não acho nada macabro, sinceramente.
Devo é estar muito viva :))

José Ricardo Costa disse...

É estranho associar este rosto morto a uma "recherche du temp vécu", não é?

Também não acho macabro pensar na morte. É mesmo coisa de vivos!

Isabel Pires disse...

Por diversas razões que não interesssa aqui desmontar, essa obsessão de que falas transfiro-a mais para a possibilidade de sofrimento que muitos têm de passar até chegar à morte, por vezes associada a um quadro de dependência que tal pode acarretar. Para mim, vejo "a morte como uma agradável certeza e um espaço de tranquila segurança", quando se verifica de uma forma repentina, sem que o sofrimento e a dependência aconteçam numa escala que comprometa a qualidade de vida.
"Mundo sensível" este, Zé Ricardo! O espectro da nossa finitude enquanto seres autónomos, capazes de levar o da a dia sem necessidade de apoio para as actividades mais elementares, pode ser o que mais assusta aos que dizem temer a morte.

José Ricardo Costa disse...

Neste caso, continua a ser a vida que é um risco e não a morte.

Rita Tormenta disse...

Durante alguns meses, este ano, e por causa de um projecto/evento, tive que conviver com a morte, como ideia.
Foi um mergulho colectivo que gerou tensões, repulsas e outros ataques viscerais.
Pesquisei muito e encontrei coisas muito especiais, no retorno da coisa, o mais importante foi uma consciência reforçada da vida.
Num convento budista, o Mestre pergunta ao aprendiz quantas vezes por dia pensa na morte, o aprendiz responde que por prezar muito a vida não se detém com pensamentos sombrios, o Mestre silencia-se, passados dias volta a fazer a mesma pergunta, desta vez o aprendiz responde que desde a última vez que se encontraram já pensou pelo menos duas vezes na morte, como resposta o Mestre cerra os olhos. No encontro seguinte o Mestre aproxima-se do aprendiz e demanda-lhe a mesma questão, desta feita o aprendiz diz que tem pensado todos os dias, o Mestre suspira e segue em frente. No dia seguinte, voltando a encontrar o aprendiz, volta a repetir-se a pergunta:
- Quantas vezes por dia pensa na morte?
O Aprendiz responde:
- DE cada vez que inspiro.
O Mestre, inspira e sustém a respiração durante algum tempo. depois conclui:
- Agora já prezas a vida ! Cada inalação comprova-te que a vida e a morte se separam por escassos momentos.




http://deoxy.org/watts.htm

José Ricardo Costa disse...

Excelente, Rita.