26 outubro, 2011

NO OUVIDO ERA O VERBO


                                                Peter Loewy [a partir de um quadro de Gustav Klimt]

Soube que  numa universidade portuguesa se lecciona uma cadeira de arte contemporânea cuja primeira parte é dedicada à música, estudando-se compositores como Steve Reich, Luciano Berio ou Michael Nyman. Muito bem. Quer dizer, muito bem se descontarmos um pormenor: em nenhuma das aulas se ouviu qualquer excerto de uma qualquer obra de um desses compositores, nem os alunos foram orientados para a sua audição. As aulas consistiram apenas em explicações teóricas sobre a música, expostas através do inevitável e salvífico powerpoint. Horas e horas de teoria sobre música sem o professor ter alguma vez dado a ouvir a música sobre a qual teorizava.
Quando soube deste modo de explicar a música aos alunos fui invadido por uma extrema perplexidade. Pensei: como é possível entender música sem ouvir música? Como é possível compreender a música de Nyman, Berio ou Reich sem nunca a ter ouvido? O que é isso de poder dissertar sobre sons sem nunca ter chegado a ouvi-los? Confesso que achei absolutamente inacreditável. Mas há em mim sempre um lado construtivo que tende a descobrir a normalidade de todas as coisas.
Ora, se virmos bem, é quase sempre isso que acontece quando pensamos seja no que for. O que sabemos nós quando estudamos História? Que significa saber que aconteceu X ou Y há 300 anos? Que se passa exactamente na nossa cabeça quando nos explicam uma batalha ou uma crise social ocorrida há 600 anos ou na Grécia Antiga? Conceitos e muita informação empírica, mas pensar e reduzir o conhecimento a conceitos e informação empírica resulta sempre numa desfocagem da verdadeira realidade. E quem diz História diz outra coisa qualquer. Realço a História apenas pelo poder desfocador do elemento temporal que inevitavelmente nos afasta da realidade.
Daí eu achar que podemos também abordar a música exclusivamente através de conceitos, teorias e definições. Na verdade, não é bem a mesma coisa. Mas é isso que mais estamos habituados a fazer com tudo: conceptualizar, teorizar, definir, catalogar, reduzir a realidade a quadros mentais abstractos. A realidade está mesmo à nossa frente. Mas nós muitas vezes não a vemos do mesmo modo que aqueles alunos, possivelmente acreditando que saberão tudo a respeito da música de Berio, Reich ou Nyman, nunca chegaram e muito provavelmente nunca chegarão a ouvi-la.

9 comentários:

Anónimo disse...

Boas :) excelente maneira de dizer que o ensino em portugal está ultrapassado. A Escola de Hoje está na mesma. Tirando os quadros interactivos ou a desmistificação das GRANDES POTENCIALIDADES do power-point. Ainda assim, com tal Revolução Tecnológica, a Escola está ultrapassada. Por várias razões. Para já a escola está mais direccionada para a forma do que para o conteúdo, incentivando o "Marranço" e ensinando em teoria e com definições clássicas mais que ultrapassadas, aquilo que deve ser dado em aulas práticas ou simples explicações sobre o tema. Assim, uma aluno pode ter boa nota, até um 20, se decorar a teoriazinha toda, sem que isso signifique que perceba alguma coisa do tema ou da disciplina. Em Economia por exemplo, há sempre grandes notões, porque grande parte dos alunos estudam (eu prefiro marram) as palavrinhas e as virgulazinhas todas do livrinho, sem perceberem nada do que escreveram, mas tendo a consciência que estão certos e que sabem economia. Esses, coitados, dão-me pena. São uns ignorantes que não percebem nada da nada mas que ainda assim têm lá o 20 na pauta. O estudo intensivo da teoria é, atrevo-me a dizer, bastante inútil se não for complementado com uma grande dose de conhecimentos práticos. Porque a teoria não permite perceber ou compreender, mas ajuda a licenciar licenciador e a doutorar doutores. Assim, cabe aos professores e ao Ministério da Educação alterar este estilo de "aprendizagem". Se continaur assim, a escola não server para aprender, mas sim para decorar e esquecer no dia a seguir ao teste... Nem a escola evoluí nem o país (que precisa realmente de pessoas que percebam de economia) vai para a frente... dá que pensar. Cumprimentos Bruno :D

Anónimo disse...

E a filosofia, como é ela ensinada? Não é por conceitos? mas percebi a pertinência.
Devo dizer que frequentei há muitos anos, um curso livre de Música , com o Antº Vitorino de Almeida, que no seu tom coloquial e, p um auditório, e não pequena sala, nos contava Hist. da Música, "faits-divers" sobre a mesma e ouvíamos excertos q ele, ou nós , ou todos, comentávamos. Não sendo a minha área, aprendi imenso.
Qt ao curso de que o Zé Ricardo fala, então a "cidadania" ( LOL!)de alunos e pais dos ditos, não os leva a constestar tal método de ensino????Muitas das criaturas até devem ser filhos de professores, claro.
Atentamente, e sibilina como o vento que por cá faz hoje,
E.

José Ricardo Costa disse...

De acordo, Bruno. A aprendizagem só faz sentido se for significativa para quem aprende. E na Economia ainda fará mais. Transformar a Economia numa amálgama de conceitos e de vírgulas pode ter efeitos catastróficos para todos nós.

E, mas a Filosofia não é uma ciência empírica. Diz o Simon Blackburn que o filósofo é um engenheiro conceptual e faz sentido.
Contestar a universidade? Mas alguém contesta a universidade? Os piores professores que tive na vida foram universitários, alguns deles, verdadeiras aberrações. Mas só se contesta e avalia da universidade para baixo. Enfim. Cumprimentos.

παναγιώτα disse...

No Politécnico, no curso de arquitectura, já assisti a muitas aulas de história de arte sem imágens, ou com poucas imagens. Como se pode falar de arte clássica sem ver as estátuas, ainda não percebi. Também assisti a apresentações de projectos estudantis onde se descrevem (por palavras) elementos que não existem nos desenhos, nem nas maquetas. Falando faz-se arquitectura?
Penso que adquirimos uma mania de transformar tudo em palavras e listas. Só que assim perdemos uma série de maneiras que tínhamos para sentir e perceber o mundo.

(Este blogue sempre me deixa muitos pensamentos, agradeço-lhe muito!)

José Ricardo Costa disse...

Pois é, desde que o teu Heraclito falou na necessidade de escutar o Logos, que não temos feito outra coisa. E o Logos transformou-se em tagarelice :)

Obrigado, Panaghiota.

João Delicado sj disse...

Também na Teologia. Infelizmente, também na Teologia.

José Ricardo Costa disse...

Ui, João, a Teologia!

paulo,sj disse...

Zé Ricardo, faço aquele silêncio (sem que seja o 4'33), diante deste post...

Pensar que, como o João, estudo Teologia. Seja em Roma, como ele, seja em Madrid, como eu, é Teologia (e faço das dele, minhas palavras... Até porque falamos muito destas coisas!)

Ainda hoje comentava com um professor que estamos um pouco "desencarnados", que a riqueza do estudo teológico pode-se perder num ghetto afastado do mundo real e concreto!

Abraço!! :)

José Ricardo Costa disse...

Pois é, Paulo, cá para mim é um estudo ainda demasiado marcado pelo espírito bizantino dos primeiros concílios, nos quais se discutia o mais improvável.