20 outubro, 2011

A MINHA MOCHILA



Fiz há dias uma das mais importantes compras da minha vida: uma mochila. Bem sei que dizer isto assim desta maneira parece uma parvoíce. Mas quero lá saber. Quando, há mais de 40 anos, fui para a escola primária, fui de pasta na mão para nunca mais a largar: ciclo, liceu, universidade, 25 anos de docência, sempre de pasta na mão. Agora, pela primeira vez na vida, vou de mochila para a escola. Ora se isto não é importante vou ali e já venho.
Estou a viver o que será para mim um verdadeiro salto antropológico, uma fractura na minha identidade institucional. Tal como no processo de hominização em que houve uma libertação da mão graças ao abandono dos membros superiores para efeitos de locomoção, também eu sinto as minhas mãos libertas. E devo-o à minha mochila nova.
Andar com uma pasta não é a mesma coisa do que andar com uma mochila ao ombro. Uma pasta é uma coisa que se agarra com a mão. Uma mão firme e tensa que, enquanto agarra a pasta, fica reduzida a essa condição. Direi mesmo que uma pasta na mão é muito mais do que uma pasta na mão. É, como um chapéu de chuva, quase uma prótese, uma extensão do nosso corpo da qual a nossa consciência não pode estar dissociada.
A mochila pendurada no ombro é outra coisa. Representa a libertação da mão mas também do corpo e da consciência. A mochila não uma extensão do corpo. Tal como a roupa ou um chapéu na cabeça é um elemento externo, algo que está junto ao corpo mas que não se confunde com o corpo. O que me permite livremente caminhar pela rua, entrar livremente na escola, ir livremente para a sala de aula. E por muito pesada que esteja a minha mochila a sua ordem será sempre a da leveza e nunca a do peso.
É claro que os livros, os papéis e os testes não perdem importância por irem na mochila em vez de irem na pasta. A importância é a mesma. A minha importância é que muda. Sinto-me muito mais importante com uma mochila ao ombro do que com a pasta. A pasta rouba-me importância e quanto mais importante for a pasta menos importante eu sou. Toda a sua força de gravidade arrasta-me para ela, faz a minha existência concentrar-se nela. A pasta prende-me, condiciona os meus gestos, as minhas acções. Quanto mais pesada, mais me subjuga, mais me aliena. Entrar no carro com um chapéu de chuva e uma pasta, ou entrar simplesmente numa porta com uma pasta, não é o mesmo que entrar com uma mochila.  A mochila liberta-me as mãos e, ao libertar as mãos, liberta também a minha consciência.
A pasta é uma espécie de glândula pineal que faz a minha consciência sentir o peso e os limites do meu corpo. A mochila, pelo contrário, tira-me o peso do corpo mas também o peso das formalidades ou o peso de uma institucionalização do meu corpo. Com a mochila regresso à espontaneidade do bom selvagem, ao meu corpo natural, um corpo sem código. Talvez isso explique o facto de, ao caminhar pela rua de mochila ao ombro, sentir-me um pouco o cowboy da Marlboro. Alguém que contempla o horizonte com olhar sonhador em vez de estar preocupado com o peso da mão. Alguém que se desurbanizou, que se libertou do peso da mão associado à vida citadina. Um corpo livre que caminha com uma consciência livre.
De mochila ao ombro não deixo de me sentir professor. Mas sinto-me mais do que simples professor. Eu não sou professor, sou também professor. E isso é bom.

13 comentários:

Anónimo disse...

Zé Ricardo: essa liberdade, compreendem-na as mulheres, com as suas malas a tiracolo; no entanto,os homens conseguem o prodígio de , numa pequena carteira / porta-moedas, carregarem dinheiro , documentos do carro, cartões, etc , etc. E com a dita, "naquele" bolso das calças, caminham indolentes e senhores "Marboro's men", ufanos de si.Têm, há anos, a minha inveja! :)

m.a.g. disse...

mas atenção, é melhor trasportá-la às costas mesmo. Nós as mulheres, eu em particular, carrego nas minhas malas à tira-colo, os meus pecados e os de todo o mundo. Já me valeu uma valente lesão que o ortopedista designou como:
lesão do Manguito Rotador - só podia :). O peso é exercido só de um lado, para além de provocar a médio -prazo problemas na coluna. Logo, se colocarmos a mochila às costas o peso fica equilibrado para ambos os ombros e obriga-nos a uma postura mais correcta, tipo: costas direitas, peito para a frente, joelhos e pés bem alinhados ( quase uma versão Ribeirinho/ Vasco). Santana).
Já agora, as mochilas da Marlboro são bem giras e resistentes e umas mãos livres dão sempre imenso jeito.

José Ricardo Costa disse...

Bem, os homens, com as carteiras, como em tudo, preferem a simplicidade à complexidade. O facto de não usarem baton e mais algumas dezenas de misteriosos acessórios também contribuirá para isso.

Obrigado pelo conselho, m.ag. Em teoria sei isso perfeitamente. Mas não é mesma coisa...
A minha mochila não é da Marlboro mas também é bem gira e tem a resistência de um búfalo.

Fred disse...

Pronto, tenho que dizer que este texto vê-se, claramente, que foi escrito com boa disposição, e, de facto, posso dizer que me deixou bem disposto depois de o ler.


Um abraço!

παναγιώτα disse...

Há 3-4 anos, na Universidade, dei com um professor (bem, o meu mais estimado e querido professor, um verdadeiro génio) a andar de mochila às costas. No início estranhei-me. Depois, reparando mais nele, vi como estava livre e leve, com as duas mãos disponíveis.
O conforto da mochila permite-lhe ser mais professor, pensar só no que vai ensinar e não na pasta pesada que leva na mão. Mas é mais professor sem ficar preso neste título...
Então, boa escolha a sua mochila! Με γειά! dizemos em grego quando se compra alguma coisa nova, e significa: Com saúde! (entende-se: que tenha muita saúde para a usar!)

ps: Adoro a "Nugae", belíssimos pensamentos em belíssimos textos. :)

José Ricardo Costa disse...

Boa Fred. Só por ter ficado bem disposto já valeu a pena escrever isto. Um abraço.

Panaghiota, entendeste perfeitamente a minha ideia :) E obrigadinha pelo teu voto de saúde.

P.S. Será caso para dizer que o teu professor não era o génio da lâmpada mas o génio da mochila. Bom fim de semana.

Isabel Pires disse...

Primeiro, sorri.
Pela forma engraçada, alegre, como te referis-te à compra da mochila.
De seguida, fizeste-me recordar as duas pastas de que mais gostei. A primeira, na primária, era beje e tinha uma bordadura e motivos campestres em tons de castanho. Nada vulgar, diga-se. A segunda, quando iniciei a minha actividade profissional, na docência. Esta, recordo-a mais por ser muito agradável ao tacto e, muito provavelmente (embora nunca tenha pensado nisto antes), esteja associada ao peso das formalidades e da institucionalização , não do corpo, mas de uma alteração de vida, resultante da entrada no mundo laboral.
Nunca tive uma mochila e, também, nunca experimentei a sensação de carregar com uma. No entanto, julgo que este meu deficit de experimentação não é impedimento para compreender a libertação que a mochila proporciona em relação à pasta. Comparo-a, no caso das senhoras, à utilização de uma mala de mão ou de uma de ombro. Mesmo que se considere que a primeira é mais harmoniosa do ponto de vista estético, condiciona-nos mais os movimentos do que as de ombro.
Quanto à importância que temos, associada à utilização de determinados materiais que carregamos(roupa, acessórios), e apesar de compreender e não discordar do que dizes, prefiro fixar-me na atitude com quem me cruzo, sobretudo quando é percepcionado um olhar atento ao que o rodeia e quando, ao caminhar, sobressaem disponibilidade e sensibilidade.
Apreciei as considerações que fizeste sobre uma questão que parece tão banal e também da foto que usaste. Fez suspirar tantas raparigas!
E os teus alunos notaram a diferença? Comentaram?

José Ricardo Costa disse...

Em suma, já deu para perceber que a mochila pode estar para um homem como uma mala de ombro para uma senhora. Há uma certa justiça nisto, diga-se. Sim, ouvi um comentário ou outro mas nada de especial.

Madalena Pires disse...

Uma coisa é certa. Diferente, muito diferente, logo interessante nos nossos dias. :)))

jrd disse...

Gostei de ler.
Eu só usei mochila na "recruta" e nunca me senti soldado.

José Ricardo Costa disse...

Pois é, Madalena, temos que fugir um pouquinho dos telejornais...

Olhe, jrd, de certeza que prefiro a minha mochila às mochilas da tropa. Sendo o mocho o símbolo da filosofia, prefiro uma mochila com livros de filosofia.

Ana Paula Sena disse...

Mas que excelente ideia! Deve ser uma espécie de segunda libertação da mão, um avanço significativo para a espécie :)

...fiquei tão entusiasmada - estou a pensar fazer o mesmo.

p.s. - pior que a pasta, só mesmo aquelas malinhas com rodinhas!

José Ricardo Costa disse...

Humm, não sei se estarei a ser influenciado pelo "PS", mas não concordo com o final. Olhe que a roda foi também um grande avanço civilizacional. Neste caso, não liberta a mão mas liberta-nos de grandes pesos quando temos de andar muito tempo a pé.