14 outubro, 2011

LER E VER



Acabei de ver, pouco depois de ter lido o livro, Os Despojos do Dia, filme realizado por James Ivory.
Muito rapidamente: 1. O filme é excelente, sob todos os aspectos em que um filme o pode ser. 2. Não trai o livro, quer dizer, a tradução do livro para um plano cinematográfico é exemplar. Vê-se o filme e percebe-se que tudo bate certo em relação ao livro. Posto isto, gostaria agora de pensar um pouco sobre a diferente relação que mantemos entre um livro e um filme e a minha sensação de estranheza (pouco inquietante) depois de o ver.
A nossa relação com um filme nunca será a mesma que mantemos com um livro. Um livro é um objecto com o qual temos uma relação pessoal durante dias, semanas ou meses, consoante o seu tamanho e o tempo de que dispomos para ler. Precisei apenas de dias para ler Os Despojos do Dia mas de semanas para ler o Quixote e de meses para ler o Guerra e Paz.
Ainda que se trate apenas de alguns dias, desenvolve-se entre livro e leitor uma relação íntima, privada, próxima, que não existe quando se trata de um filme, por muito que dele se goste. Um livro é um objecto que nos acompanha durante dias, que possuímos nas mãos, que precisa de ser agarrado, aberto, tocado, folheado, marcado e, finalmente, fechado. E quando temos o livro na mão apenas nós o podemos ler. Seja num sofá, na cama, no comboio, num banco de jardim, num café, o tipo de relação física que se estabelece entre mim e o livro obriga a uma relação pessoal marcada pela exclusividade. A pessoa que a meu lado, no metro, espreita para o livro que estou a ler entra num território privado. Como se estivesse a querer observar a minha consciência. Enquanto leio o livro, o seu conteúdo é o conteúdo da minha consciência. Se eu leio no livro «Gostava tanto daquela vista dos quartos do 2ºandar, sobranceando o relvado e com as colinas visíveis ao longe!» e a pessoa que vai a meu lado no metro ler esta passagem, ela está a entrar directamente na minha consciência sem que eu tivesse feito nada para o permitir e assumir.
Depois, o livro exige esforço, dedicação, duração, muitas vezes até, resistência. Lemos um pouco dele antes de adormecer, por vezes ao acordar, antes de jantar, depois de jantar, na sala de espera do consultório, no metro ou autocarro. Criamos com ele uma relação familiar, uma rotina diária. Entra nos nossos circuitos quotidianos, como as refeições, o duche matinal, o trabalho, pontinhos que marcam a diluição da nossa consciência no tempo.
Com um filme, por muito que gostemos dele, não se desenvolve esta relação. Sentamo-nos para o ver, estamos ali 120 minutos e vamos embora. Não existe a rotina do livro, a sua fiel companhia ao longo dos dias. O filme não entra na cama, no sofá, no banco do jardim. Não vemos um pouco do filme ao acordar e mais um pouco antes de adormecer. E ver, neste caso, não é o mesmo que ler. Não há a lentidão da leitura, o mastigar das frases digeridas na nossa consciência. Não há o voltar atrás para reler o que não foi suficientemente digerido. Ver passar uma sucessão de imagens à nossa frente está para a leitura como a fast food está para um assado no forno que exige a nossa permanente e cuidada dedicação ao longo de horas na cozinha.
A esmagadora maioria das pessoas que vê o filme não leu o livro. Ora, se eu estiver a ver o filme ao lado de uma delas, sinto-me um pouco traído. Eu não estou a ver o filme que ela está a ver. Estamos ambos, é verdade, a ver o filme precisamente durante os mesmos 129 minutos. Mas os meus 129 minutos não são os 129 minutos dela. Eu estive dias e dias com aquelas personagens, acordei com elas, adormeci com elas, enquanto eu agarrava o livro elas eram só minhas. Penetrei directamente nas suas consciências sem ter que passar pela sua tradução em imagens. Mas chegamos ali, vemos o filme e ambos vamos embora, com a noção de que partilhámos igualitariamente a mesma realidade. Mas não é verdade. A outra pessoa, praticamente, nada fez, limitou-se a sentar-se, abrir os olhos, ver o filme e ir embora.
Deve ser um pouco isto que acontece quando o aristocrata olha para o novo-rico. Juro que não fiquei com complexos aristocráticos depois de ver o filme. Sou um plebeu português com vagas ideias socialistas e jamais teria paciência para formalidades aristocráticas. Mas a diferença entre ler um livro e ver um filme é um pouco como a diferença entre um aristocrata e um plebeu ou novo-rico. Ler o livro implica uma educação, uma aprendizagem, um esforço, uma concentração, enfim, toda uma formalidade que está ausente no acto de ver um filme. Para ler um livro é preciso inteligência, perspicácia, esprit de finesse. Para ver um filme basta comprar bilhete ou sentar-se no sofá em frente à televisão e não ser cego.
Eis, pois, a minha sensação de estranheza depois de ver um filme do qual gostei bastante.

9 comentários:

Rita Tormenta disse...

Por coisas e estradas, decidi largar quase tudo o que tinha ( objectos, coisas, não pessoas) preservei os meus livros, o Miguel argumentou com os dispositivos digitais para leitura, mas eu conservei-me imutável, os meus livros vêm comigo.
Tentei explicar que tinha uma relação sensual com cada um dos meus livros, que cada um narrava mais histórias do que as inicialmente projectadas pelo autor.
Desde que os tirei dos caixotes sinto-me em casa !

m.a.g. disse...

é um exercício de purificação de facto, tanto a obra como o filme.
Este também:
http://www.youtube.com/watch?v=lNeq7Dakv_k&NR=1

José Ricardo Costa disse...

Entendo-a perfeitamente, Rita. Cá para mim, fez muito bem.

m.a.g., conheço a história mas nem li nem vi. Se calhar é imperdoável mas ainda não calhou. Obrigado por lembrar e sugerir.

Mar Arável disse...

Na verdade

Anónimo disse...

Permita-me: o seu comentário ao filme é uma piscadela de olho conivente “et pour cause”. Ainda bem que reconhece a excelência do filme que, reitero, deve-se sobretudo ao soberbo Hopkins. E sim, aquela cena que ilustra o post, é uma das que melhor define o que é a retracção em que todos vivemos, arriscar, ou não, viver, ou fazer por viver.
Se lemos o livro em primeiro lugar e, porque andamos com as personagens atrás, por todo o lado , lança-nos nessa desconfiança face ao filme, à estranheza de que fala. De repente, só me lembro de “ As Horas”, que li duas vezes, e cujo filme acho que é da mesma respiração , tendo eu feito o favor a mim mesma de esquecer o “miscasting” q foi a N. Kidman a fazer de V. Woolf, ( sim, ganhou o Óscar , so what?!).
Zé Ricardo, obrigado por “me”/ “nos” ouvir deste lado, e seguir indicações e palpites. Leve um sorriso cúmplice para fim-de-semana. E.

José Ricardo Costa disse...

Mar Arável, nem eu seria pessoa para mentir :)

Pois é, E, também li as Horas e gostei bastante. O filme, pelo contrário, foi uma desilusão. Estenderia o "mis" da Nicole Kidman a todo o filme. Mas concordo consigo a respeito do Hopkins. É como aqueles passes do Messi que são meio-golo. Neste caso, é meio-filme. Bom fds.

josé manuel chorão disse...

Um filme é uma espécie de fast-food para gente não-pensante. Gente que vê com os olhos e mais nada.
Um livro é para gourmets do intelecto. Gente que vê muito mais longe do que aquilo que os olhos vêem.
Digas o que disseres, para mim os filmes traem sempre os livros, decepcionam-me sempre.

Anónimo disse...

Já agora, outro filme fabuloso, também com o Hopkins, e sobre a vida de um escritor. Excelente.
"Shadowlands" - Drama with Anthony Hopkins, Debra Winger.Based on a play written by the step son of CS Lewis.

http://www.youtube.com/watch?v=NLKS0XGRYi8http://

Based on a play written by the step son of CS Lewis.

José Ricardo Costa disse...

JMC, concordo parcialmente contigo. Concordo com a ideia de o livro decepcionar sempre. Concordo com a ideia fast food. Não concordo, porém, com a ideia de o filme ser fast food para gente não pensante. O filme tem um valor próprio, tem autonomia relativamente ao livro. Neste caso, eu li o livro mas também gostei de ver o filme e teria sempre gostado (ou gostado mais) mesmo sem ler o livro. Poderás ter razão se falares de pessoas que não lêem mas que apenas papam filmes.

Obrigado pela sugestão do filme. Também não vi. É esmagador o peso das coisas que não vemos.