15 outubro, 2011

INTERIOR/EXTERIOR


Regresso a Os Despojos do Dia e, de novo, para pensar na diferença entre o livro e o filme.
Ler o livro é entrar directamente na consciência de quem o "escreve": Stevens, o mordomo e narrador. Temos, assim, acesso aos dados imediatos e mediatos da sua consciência. Consciência de si mas também da sua consciência do mundo. Vemos e pensamos o mundo através da sua consciência, como se esse mundo acabasse de ser criado por Deus e Stevens fosse o seu intérprete. Ora, quem vê o filme jamais alcançará esta relação directa com a sua consciência. Quem lê o livro vê o mordomo por dentro, quem vê o filme vê o mordomo por fora. Pode, através da observação do seu comportamento, compreender a sua consciência. Mas não vê a sua consciência.
Vou dar um exemplo: o pensamento de Stevens logo após Sally lhe dizer que vai ser avó e, por isso, já não regressa a Darlington Hall:

Acho que não respondi imediatamente, pois precisei de alguns momentos para digerir por completo aquelas palavras de Miss Kenton. Além disso, como devem imaginar, as implicações do que dissera eram de natureza a provocar um certo grau de mágoa dentro de mim. Na verdade - por que não hei-de admiti-lo?- naquele momento o meu coração estava a dilacerar-se. Não tardei, porém, a voltar-me para ela e a dizer sorrindo: - Tem muita razão, Mrs. Benn. Como disse, é tarde demais para andar com o relógio para trás.

Com estas palavras penetramos no âmago da consciência de Stevens. Quando fala num «certo grau de mágoa dentro de mim» reconhecemos logo a fleuma, a contenção, o formalismo anímico de Stevens, o mordomo perfeito que não exprime emoções. Mas, depois, fala no seu coração dilacerado. Mas fala de dilaceramento como se dissesse que está na hora do chá. Aqui, o leitor espanta-se: Ah, Stevens tem um coração e, como se isso não bastasse, um coração dilacerado. Ainda assim, o modo como o exprime não deixa de denunciar um certo formalismo e contenção: «Na verdade - por que não hei-de admiti-lo?». Stevens diz isto como se dissesse ao seu patrão: «Deveras, sir, por que não hei-de admiti-lo?». Há um dilaceramento, sim, mas um dilaceramento sublimado que, no filme, jamais se compreenderá. Hopkins é um actor magistral mas nada disto se vê, apenas a reacção de um homem triste e desapontado. Não vemos esta hibridez anímica, este tensão entre contenção e desespero, não vemos uma consciência de si que, num ápice, passa da acidez da laranja à acidez do limão. E o livro está cheio de momentos assim.
Saliento ainda uma passagem onde, graças à mestria do escritor, a compreensão da consciência de Stevens atinge igualmente um nível de grande complexidade. É quando, em Darlington Hall, durante um importante encontro internacional no qual se joga o futuro da Europa (antes da guerra), Stevens, a cumprir as suas funções, é informado de que o seu pai acaba de sentir muito mal:

Servi porto a outro convidado. Houve uma grande explosão de riso atrás de mim, e ouvi o clérigo belga exclamar: "Isso é realmente herético! Positivamente herético!", e depois ele próprio riu, também alto. Senti qualquer coisa tocar-me no cotovelo, voltei-me e encontrei Lord Darlington.
Você está bem, Stevens?
-Estou, sir. Perfeitamente.
- Dá a impressão de estar a chorar.

Esta passagem faz-me lembrar a velha anedota behaviorista: "um casal de psicólogos behavioristas acaba de fazer amor. Ele vira-se para ela e diz: -Amor, foi bom para ti, como é que foi para mim?" Mas não nos precipitemos. Literariamente, não há aqui qualquer concessão ao behaviorismo, como explicarei adiante.
Na consciência de Stevens, enquanto percepção de si, aparentemente não se passa nada. Diz que serve porto. Conta o que ouviu, lembra a sensação de lhe tocarem no cotovelo. Nada mais. Como se não tivesse coração e o seu dispositivo emocional fosse uma folha em branco. Será graças a um olhar exterior que Stevens ganha consciência do seu verdadeiro estado. E nós conseguimos ver a sua consciência a não ver nada. Para além disso, somos tão surpreendidos quanto Stevens quando lhe perguntam se se sente bem. A nossa surpresa coincide absolutamente com a sua surpresa e somos informados do seu estado anímico ao mesmo tempo que ele. Como se leitor e personagem fosse um só. Entretanto, mais tarde, ao recordar esse dia, afirma: «Apesar das suas tristes associações, sempre que recordo agora aquela noite, verifico que o faço com uma grande sensação de triunfo». Nenhum realizador do mundo conseguiria transmitir isto.
Anos depois, acontece precisamente o mesmo, noutro momento dramático. É quando, logo depois de saber que Sally vai embora para casar, Cardinal vem junto a si para conversar. Stevens descreve a sua conversa com a mesma naturalidade com que diria estar a limpar as pratas, não vemos qualquer turbulência na sua consciência. Só a intervenção de Cardinal nos informa do seu verdadeiro estado quando lhe pergunta:
- Ouça, está a sentir-se bem?
- Perfeitamente bem, obrigado, sir - respondi, a rir um pouco.
-Não está indisposto?
- Um pouco fatigado talvez, mas estou perfeitamente bem, obrigado sir.

Não se trata, porém, insisto, de uma concessão behaviorista mas precisamente do contrário. Ainda que, aparentemente, tenhamos aqui um conhecimento de Stevens graças apenas a um olhar exterior, não é o que verdadeiramente acontece quando lemos. O que lemos é uma consciência do choque entre o interior e o exterior. Graças à voz de Cardinal tomamos, é verdade, consciência do estado exterior de Stevens, do seu comportamento, porém, isso vai acentuar ainda mais a complexidade do seu estado interior e da sua personalidade. Graças a Cardinal sabemos como Stevens está por fora. Mas é precisamente ao sermos surpreendidos pelo conhecimento do seu estado exterior, que irá ser ainda mais conseguida a fusão entre leitor e a consciência da personagem.  E o romance explora de um modo magistral a consciência de Stevens. Neste sentido, trata-se de uma perspectiva profundamente anti-positivista, anti-behaviorista, anti-mecanicista, revelando toda a complexidade do mundo interior. 
Quando vemos o filme não é isto que acontece. Estamos, enquanto observadores, condenados a um plano puramente exterior, reduzidos a caçar apenas as suas expressões, os seus gestos, os seus passos, as suas palavras, mas palavras sem consciência. Quem vê o filme está no plano da fisiognomonia, a tentativa de decifrar os estados psicológicos através da análise, do estudo do rosto. Quem vê o filme encontra-se na mesma posição de Charcot quando, no seu hospital, e através da análise de sequências fotográficas dos rostos dos doentes, tentava conhecer os seus padrões psicológicos. Nada disso, porém, tem que ver com uma visão directa da consciência e o mesmo se passa com quem vê o filme. A consciência de Stevens, e no fundo é sempre dela que se trata, fica só mesmo reservada para os privilegiados que lêem o livro.

2 comentários:

Madalena Pires disse...

Tenho seguido o seu blogue com interesse crescente desde que cheguei até ele atraves do "Delito de Opinião". As suas analises, nas diversas vertentes, são espantosas. Este livro será umas das minhas próximas leituras de tal forma me cativou. Tentarei fazer o mesmo percurso, ou seja ver o filme depois de ler o livro. :)
Noto que, ultimamente, tem publicado pouca coisa no que toca à pintura. As suas análises neste domínio sao fabulosas!

José Ricardo Costa disse...

Acredite que fico muito contente por saber que, através de referências que aqui invoco, proporciono a outras pessoas boas experiências que eu previamente tive. Também devo isso a outras pessoas e será esta rede infinita que convém explorar para podermos aprender uns com os outros. Sim, e leia o livro que vale a pena. Obrigado pelas suas simpáticas, ainda que excessivas, palavras.