02 outubro, 2011

ESPECTROS


Há muito que tenho guardado este auto-retrato de Edward Weston. Gosto da sua atmosfera volátil, fantasmagórica, evanescente, espectral. Do seu ar de papel velho que, minado pela humidade, a todo o momento se pode esfarelar nas mãos.



Entretanto, vou dar com este retrato de Dorothea Lange, feito por Edward Weston. Apesar da maior solidez e densidade da imagem, da maior resistência da sua textura visual, há também aqui uma sugestão de distância e frialdade espectral, uma presença física da morte, apesar da beleza e jovialidade de uma Dorothea ainda jovem.
Quando dou com este belo retrato, a minha atormentada cabeça esboça logo uns devaneios ultra-românticos, uma narrativa feita de amor e de morte entre dois espectros. Um espectro que faz emergir um outro espectro através da sua câmara fotográfica. Pronto, uma coisa assim mesmo bonita e literária.
Só que, de repente, dou com um erro absolutamente estúpido. A primeira fotografia não, é afinal, um auto-retrato de Edward Weston mas de Edward Streichen. Não sei como, confundi os dois Edward, ficando assim o meu devaneio romântico irremediavelmente dilacerado.
Lendo agora de novo a frase por baixo da segunda fotografia, ver-se-á que fiz batota, chamando Weston a Streichen, tendo já a consciência de que se trata de uma falsidade. Todavia, eu podia agora fazer-me parvo ou inocente, não assumindo a confusão entre os dois Edward, e manter a intenção de levar a minha ideia avante. Chegava aqui e dizia que o primeiro Edward era mesmo Edward Weston. Com um pouquinho de sorte podia ser que ninguém desse pelo erro, e pronto, eu ficaria safo.
Seria, claro, de uma grande insensatez a perversidade se o fizesse. Trata-se, porém, de um mecanismo perfeitamente comum em pessoas ou regimes políticos em que se pretende fazer sobrepor certas ideias falsas, ilusórias e mentirosas à própria realidade. Situações clássicas em que a história e a verdade dos factos são claramente falseadas para que os nossos ideais, utopias ou projectos politicamente excêntricos possam vingar num mundo que não foi feito para eles.
Ideais, utopias e projectos que nascem como espectros, vivem como espectros e morrem para sempre como espectros. Mas que têm o terrível efeito de deixarem sempre milhões de inocentes espectros pelo caminho.

2 comentários:

addiragram disse...

Certíssimo!

José Ricardo Costa disse...

Tenho andado a treinar a pontaria :)