04 outubro, 2011

EDUCAÇÃO PARA A ESTUPIDEZ

                                                             Giancarlo Vitali | A Cauda do Arminho

Nunca vi alguém gozar com o analfabetismo e a ignorância dos velhos trabalhadores rurais que nunca foram à escola. Havia mesmo uma certa compreensão e solidariedade com aqueles que, por limitações económicas e sociais, não tiveram oportunidade de a frequentar. Pessoas que não sabiam ler, escrever, falar inglês, literatura e matemática mas que eram respeitadas pela sua sabedoria prática e pelos seus valores e dignidade.
Também antigamente ninguém gozava com as análises ridículas dos jogadores de futebol e treinadores antes e depois dos jogos, com os seus erros gramaticais, com o discurso vazio de quem não tem nada para dizer mas que é obrigado a falar como se dissesse a coisa mais importante do mundo. Porquê? Porque os jogadores e treinadores não falavam. Limitavam-se a jogar e a treinar.
O que aconteceu entretanto? Tiraram os jogadores do relvado para lhes espetar microfones à frente da cara, obrigando a falar pessoas que nada têm para dizer, acerca de coisas sobre as quais nada há para dizer. O que pode responder um treinador ou jogador a quem perguntam, antes de um jogo, qual o seu estado de espírito? Se espera ganhar? Se respeita o adversário? Obrigar um treinador ou jogador a falar sobre o que nada há para dizer, é obrigá-los a serem estúpidos. Noutros tempos, os jogadores e treinadores não eram estúpidos porque faziam o que era suposto fazer e sabiam fazer: jogar e treinar. Empurrar sistematicamente um jogador ou treinador para uma conferência de imprensa para falar como se fosse um político, um economista ou um historiador, é obrigar a ser estúpido quem não o é. As pessoas são estúpidas ou deixam de ser estúpidas em função de um contexto em que estão integradas. Cristiano Ronaldo é genial com uma bola nos pés e ninguém põe em causa a sua inteligência futebolística. Mas sentar Cristiano Ronaldo numa mesa igual à mesa de um colóquio científico e perguntar-lhe com o ar mais sério do mundo se espera vencer o próximo jogo, é fazer dele um homem estúpido apesar de não o ser.
Ora, é precisamente isto que se passa hoje com muitos alunos que frequantam as escolas portuguesas. Há muitos alunos que não deviam lá estar mas a trabalhar honradamente em fábricas, oficinas ou salões de cabeleireira. Ou, a estarem na escola, deveriam ser os naturais herdeiros de muitos pais que também lá andaram em cursos de electricistas ou serralheiros mecânicos ou das suas mães que aprenderam lavores femininos. Um rapaz de 14 anos a trabalhar numa oficina não é estúpido. Mas fechar rapazes de 14 anos numa sala de aula a aprenderem o que não querem aprender ou não são capazes de aprender, obrigando toda a gente a ter consciência disso, significa obrigá-los a serem estúpidos.
O problema é que há gente neste país com licenciaturas, mestrados e doutoramentos que é mais estúpida do que esses jovens que não querem ou conseguem aprender. Gente estúpida que, para agravar ainda mais a coisa, tem poder político e técnico para forçar a realidade a adaptar-se à sua estúpida ideologia, aos seus estúpidos devaneios e à sua estúpida resistência ao sentido da realidade.
Um jovem trabalhador é um jovem dignificado e respeitado. Trabalhar e gostar de trabalhar é motivo de honra e orgulho. Tirá-lo do seu lugar natural para o exilar numa sala de aula na qual os professores fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem significa assassinar a sua personalidade, a sua educação, assassinar os valores que não chegará a ter e assassinar uma geração que cresce completamente desorientada, entregue apenas a si própria.

12 comentários:

Ega disse...

Que acidez que para aqui vai meu caro José Ricardo.

Mas também reconheço que é a acidez natural provocada a quem constata a triste realidade do nosso sistema de ensino.

José Ricardo Costa disse...

Acidez, respeitável Ega? Leu, certamente, "O Processo". Imagine-se agora a exercer advocacia no meio daquilo e, depois, escrever sobre o assunto. Acha que fui suficientemente claro?

Anónimo disse...

A escola que devia ser um direito, transformaram-na numa obrigação. Só porque não há empregos é que os nossos políticos transformam o ensino cada vez mais e mais obrigatório.
EB

José Ricardo Costa disse...

Claro, EB, que isso é um factor importante. Concordo. Mas também há muita ideologia que se pretende impor, sendo apresentada como ciência para melhor se poder vender. E misturar um romantismo serôdio com tecnologia behaviorista dá uma mistura complicada.

Alice N. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
josé manuel chorão disse...

Tens toda a razão. Claro.
Estamos, nas escolas, a ajudar a destruir uma geração, através da nivelação de pessoas que nunca deviam ser niveladas.
É o resultado de 3 décadas de desgoverno socialista, de teses imbecis, que nivelam por baixo, que estupidificam, que trabalham exclusivamente para a estatística.
Portugal é um país de aparências. É o maldito modo de ser português, uma praga cultural que nos persegue desde os primeiros tempos; vale mais parecer do que ser.
O P"S" deu cabo deste país, em termos educacionais (e não só, claro); não sei se alguma vez seremos capazes de ultrapassar tamanha desertificação...
Falo por mim, que estou velho e cansado: já não me sinto capaz de semear jardins na terra que o P"S" poluiu, tornou estéril. Desacreditei.
Se este fosse um país civilizado, os responsáveis pelos desgovernos das últimas décadas estariam presos.
Portugal é, agora, uma equação insolúvel.

José Ricardo Costa disse...

Alice, o comentário já vai longo mas muito mais terias para dizer sobre certas aberrações que há anos se passam à tua volta. Fala-se agora muito na criminalização de actos políticos considerados danosos. Existe também muito psicólogo, sociólogo, cientista da educação que deveriam sofrer elevadas penas de prisão para proteger as crianças e jovens dos seus desvarios.

Zé, tens razão com o PS mas não te esqueças do PSD. Falo destes porque foram os que destruiram efectivamente o tecido educativo por serem poder há muitos anos. Mas se fosse o PC ou o BE não seria melhor. Há um discurso igualitário, paternalista e supostamente moderno que é transversal, não é de esquerda, nem de direita. Estamos mesmo condenados.

josé manuel chorão disse...

É claro que o PSD tem culpas e não são pequenas. E tambem não tenho dúvidas que o PCP ou o BE não fariam melhor. Falei do P"S" porque, se fizeres as contas, foi, de longe, o partido que mais anos destruiu a educação em Portugal.
E agora, o que fazer?
Será demasiado estúpido defender que devia estudar quem mostrasse vontade e capacidade para estudar?
E quem mostrasse capacidade para nada fazer iria fazer nada para o raio que o parta e deixaria as escolas para quem desejasse estudar?
Isto parece-te demasiado estúpido? A mim parece-me bom senso.
Desculpa a extensão do comentário, mas sabes o que me angustia verdadeiramente? Não são os energúmenos que arrastam os pés pela escola; são os jovens inteligentes, que gostavam de aprender, de estudar a sério e não o conseguem fazer.
Estaremos condenados a continuar a ser a anedota da Europa?

José Ricardo Costa disse...

Meu caro, as tuas angústias são as minhas angústias. E, sim, acho que estamos mesmo condenados a ser a anedota da Europa. Felizmente temos boas praias, o bacalhau à lagareiro e as castanhas assadas com água-pé que a Europa não tem.

Fred disse...

Pois é, actualmente um dos grandes problemas do ensino, é mesmo esse, a chamada estupidificação, não querem aprender nem lhes interessa.

As pessoas andam para lá algumas a não fazer nada, ou contrariadas e depois tornam-se estúpidas pois o seu interesse é zero.

Para mim, podia-se fazer o seguinte: quem quisesse estar lá de boa vontade para realmente aprender estava, já os restantes seria opcional. O ensino é um direito não é nenhuma obrigação.

As pessoas não mudam, continuam a ser sempre como são. Podem ser licenciadas mas continuam sempre com o mesmo tipo de pensamento.

E depois ainda temos outro problema, que é as pessoas preferirem boa vida a trabalharem, se estão a receber para não fazerem nada é óbvio que não querem trabalhar.


Um abraço!

José Ricardo Costa disse...

Diagnóstico certeiro, Fred, mesmo na mouche.

Um abraço.

Fred disse...

Esta geração está prestes a passar de à rasca para estupidificada...lol


Um abraço!