03 outubro, 2011

DOS CONSERVADORES



Num país de gente bárbara como Portugal, a escola jamais deveria deixar de ser (e orgulhar-se por ser) uma instituição conservadora. O grave e irreversível erro da escola portuguesa foi ter querido adaptar-se a um país como Portugal em vez de ter obrigado um país como Portugal a adaptar-se às regras universais da boa educação, decência e civilidade que deveriam ser sagradas dentro de toda a escola, independentemente de ser africana, sul-americana ou europeia, independentemente de ser da Europa do norte ou do sul, independentemente de ser medieval ou do século XXIII.
Os portugueses são pessoas com cabeça, dois braços e duas pernas, como o comum dos mortais. O problema dos portugueses e, consequentemente, de Portugal, é um problema mental. Os portugueses não se sabem organizar, não sabem controlar impulsos, são resistentes às regras, desde a regra da pontualidade à regra de saber estar calado quando é suposto estar calado,  desde a regra de pedir desculpa quando se trata de pedir desculpa, à regra justa de cada um receber aquilo que merece. Há, na escola portuguesa, farsa a mais, ilusão a mais, lixo varrido para baixo do tapete a mais, ruído e desordem a mais.
A escola portuguesa afasta-se cada vez mais do que deverá ser uma verdadeira escola. Portugal, claro, jamais se afastará muito de si próprio.

13 comentários:

Ivone Costa disse...

Uma reunião difícil, I presume?

José Ricardo Costa disse...

Dictum de omni et nullo. As reuniões são apenas uma parte de um todo.

jrd disse...

A escola portuguesa segue o caminho de outras instituições.
Já o país, esse, permanece ao lado dele próprio.

José Ricardo Costa disse...

Se fosse ao lado dele até nem seria mau. O pior é mesmo ficar por baixo dele próprio.

josé manuel chorão disse...

Talvez o melhor fosse acabar com a escola de uma vez por todas. Porque havemos de estar a conspurcar a estupidez pura e genuína dos matarroanos com algumas (poucas, que eles não deixam que sejam mais) noções básicas de civilidade ou, até, de conhecimentos científicos e capacidade de reflexão?
Com o imenso dinheiro que a escola desbarata poder-se-iam construir magníficos estádios de futebol, (pintados, até, com as cores do Brasil, para que os jogadores se sentissem ainda mais em casa) e muitas praças de touros, uma por cada freguesia, para que os hábitos de respeito pelos animais e de elevação espiritual se reforçassem naqueles banhos de sangue e barbárie...
Ahhh, então sim, os portugueses desenvolveriam todas as suas enormes capacidades.
Melhor, melhor mesmo, só com Futre à frente dos destinos de tão ditosa pátria...

José Ricardo Costa disse...

Já vi que, perante a pátria, ainda te ocorrerá dizer "Va te faire Futre".

Anónimo disse...

O sistema de educação português está "beyond repair". Por outras palavras: lixinho e ilusões. Mais nada!
Um abraço,
Victor Pereira da Rosa

JCM disse...

Meu caro, mas a escola portuguesa é efectivamente conservadora. Conserva aquilo que a comunidade é, os seu costumes, hábitos e tradições mais genuínos. Queres melhor conservadorismo? No tempo do Dr. Salazar (por quem não nutro qualquer apreço), antes de chegar Marcello Caetano e Veiga Simão, a escola era revolucionária, tinha a pretensão de tornar os seus alunos em gente, para além de fiel ao regime, civilizada. Civilizar os portugueses não é um acto de conservadorismo, mas uma pretensão revolucionária. Uma miragem que a democracia revelou em toda a sua futilidade.

Abraço,

jcm

José Ricardo Costa disse...

Deveras, caro Vítor, deveras. A propósito, haverá por aí a possibilidade de adoptarem professores portugueses que padeçam de um terrível sentimento de orfandade?

Sim, Jorge, visto desse ponto de vista, tens razão. Bons tempos, esses, em que havia liceus e escolas industriais e comerciais.

Um abraço para os dois.

Rita Tormenta disse...

E lá fui eu hoje, olhar os meus alunos, levando questões na cabeça.
Enquanto repito regras, vou falando sobre sujar o espaço sonoro, distribuo folhas riscadas e peço-lhes que desenhem sobre elas, estratégias de choque para os fazer compreender que o espaço mental também se limpa e cuida,enquanto vou fazendo de má, sargenta, ogre dos pântanos, compreendo que o ruído abafa o vazio.
Defendo uma escola conservadora na forma e revolucionária no conteúdo, e o que temos é precisamente o contrário, a forma aparenta transformação mas o conteúdo é anacrónico e não estimula a divergencia ( divergir não é discordar e sustentar uma alternativa, coisas muito distintas).
Conservemos a cordialidade e revolucionemos as mentes !

José Ricardo Costa disse...

Pois, entendo perfeitamente o que diz e estaria quase tentado a concordar com tudo. Penso, porém, que a divergência só faz sentido depois de um longo de trabalho de convergência. Primeiro deve-se aprender bem o latim, a aritmética e as regras da gramática e então depois divirja-se à vontade.

Rita Tormenta disse...

São coomplementares, não se hostilizam. Quero dizer, as zonas do cérebro a trabalhar são diferentes, pode exercitar-se o pensamento convergente e estimular-se o pensamento divergente, sem entrar em rota de colisão.
Em acordo absoluto quanto às matrizes, mas para responder à expansão acelarada do universo vai ser preciso ter espíritos que se aguentem sob pressão, reorganizando a verdade e as expectativas!

José Ricardo Costa disse...

Pronto, parece que estamos de acordo. Eu também prefiro o pensamento divergente. Apenas um pouco céptico relativamente a ser revolucionário no conteúdo.