22 outubro, 2011

DA DA DA



"A operacionalização de uma diferenciação consistente para um sucesso menos ofensivamente diferente, em termos de escola e currículo, consiste em reconstruir a estrutura organizativa do trabalho de ensinar e aprender, tomando a diversidade como referente da organização e não como desvio a uma norma tornada insignificativa na escola de hoje". Maria do Céu Roldão, Gestão do Currículo e Avaliação de Competências

Uma das principais motivações do movimento Dadá foi despojar a obra de arte da sua importância.

Tristan Tzara: “Os homens inteligentes são hoje a regra. Aquilo que nos falta são os idiotas. O dadá está a aplicar todas as suas energias para instituir a idiotice em toda a parte”.

Hans Richter: “Nós queríamos criar um novo tipo de ser humano, livre da tirania da razão, da banalidade e do passado. O nosso princípio básico era ultrajar a opinião pública”.

Artaud, ligado ao movimento surrealista, não andava longe: “Muito mais do que membros activos, precisamos de membros perturbados”.

As frases de Tzara e Artaud são divertidas e modernas. Mas vou realçar a de Richter. Parte da ideia de que o passado, pelo simples facto de o ser, é mau. Sobretudo, se for um passado burguês e transmitido ao longo de gerações. Enfim, a tal banalidade que confrange os revolucionários que tanto gostam de guilhotinar as convenções. Mas temos de entender o seguinte: a pintura de Leonardo, Rafael, Ticiano, Bruegel, Velasquez, dos holandeses ou dos impressionistas, não é melhor por ter sobrevivido ao longo de séculos. Sobreviveu e resistiu a modas efémeras precisamente por ser a melhor.
Ora o que se passa com a pintura passa-se com tudo. Uma pessoa normal olha para o passado e para a tradição e consegue encontrar certas virtudes. É por isso que é uma pessoa normal. Mas há sempre um conjunto de desvairados dadaístas com horror ao passado e com uma doentia febre de inovação. Olham para o futuro com a paixão com que um suicida olha para o abismo. E, ao olharem para trás, onde outros continuam a ver uma bela paisagem, cuidada por diferentes gerações, eles vêem uma mancha sem significado, fruto de uma miopia modernizadora.
Esta conversa dá para muitas coisas. Neste momento, porém, estou a pensar em todos aqueles cientistas da educação e políticos que vão destruindo um património cultural e científico que enriqueceu inúmeras gerações de todas as classes sociais.
Mas há quem prefira passar um bigode e uma barbicha por cima de tudo isso, a mesma maldade que Duchamp fez à Mona Lisa. A pérola escrita em eduquês que se lê no início, língua tão apreciada por dementes cientistas da educação, alguns políticos fascinados com a modernidade e, pior do que tudo isso, muitos professores, é disso um bom exemplo.
É este tipo de gente que está a dar cabo da escola pública. E tão grave como ver um bigode e uma barbicha a borrar séculos de sabedoria é ver a escola pública transformada no urinol de Duchamp.

5 comentários:

Rita Tormenta disse...

Marinetti, demasiado Marinetti, muitos se convenceram estar no último promontório dos séculos, demasiados iludiram-se perante a vertigem da velocidade, na crença de que o tempo e espaço já tinham morrido, e o passado era apenas um peso que se interpunha entre o individuo e o as misteriosas portas do futuro.
O esforço para destruir Museus, bibliotecas, academia tem sido continuado e talvez a ideia de herança civilizacional se encontre numa agonia incomparável.
A arte nunca foi tão efémera, nem a escola.

João Delicado sj disse...

A citação do início - de tão repugnante - quase me privava de ler (mais) uma reflexão iluminadora deste blogue!

Quanto à tradição e aos valores que ela comporta, concordo: a tradição não é boa porque é antiga; a tradição é antiga porque é boa.

Abraço!

José Ricardo Costa disse...

Sabe, Rita, o problema não está em inovar. É bom inovar.A história é feita de inovação. O problema está em confundir inovação e destruição. E no caso da escola isso é gritante. O problema é que há pessoas pagas para pensar e escreverem livros e que depois precisam de aplicar as suas luminosas reflexões. Os resultados têm sido catastróficos. Só quem está lá dentro pode saber.

Grande abraço, João. E ai, o latinzinho faz tanta falta :)

josé manuel chorão disse...

O problema da educação não é que os ideólogos do eduquês a estejam a destruir. O problema, a meu ver, é que já a destruíram há muito tempo.
O P"S" foi uma praga arrasadora e destruidora da educação no nosso país.
Se houvesse alguém verdadeiramente interessado em reconstruir a educação, neste pobre país, tal iria demorar algumas gerações, iria ser um trabalho de fundo, de tão mal está, actualmente, a educação.
Mas ninguém parece interessado em fazer um esforço sério, um trabalho que vá para além das aparências e das próximas eleições.
O que estamos a fazer ao futuro dos nossos filhos?

José Ricardo Costa disse...

E sabes? Vejo o Nuno Crato demasiado calado para o meu gosto. Para quem falava tanto...