19 outubro, 2011

CRISE? QUE CRISE?


                                                                  Citizen Kane [fotograma]

Assumo aqui perante todos que não estou em crise e não entendo por que razão tanta gente se diz afectada por ela. Obviamente que não estou a pensar  em pessoas que estão no desemprego, que têm salários miseráveis ou que, por esta ou aquela razão pessoal, passaram a viver com maiores dificuldades. Pessoas, essas sim, que estão em crise, tal como eu estaria em idênticas situações.
Agora não estou em crise porque: nunca senti a necessidade de ir fazer praia a Cuba ou ao Brasil quando tenho excelentes praias aqui tão perto;  nunca senti a necessidade de comprar um carro que fizesse mais do que simplesmente me levar de um sítio para o outro; nunca senti a necessidade de comprar roupa estupidamente cara; nunca senti necessidade de ter uma casa acima das minhas necessidades e possibilidades; nunca senti a necessidade de tomar o pequeno-almoço no café; nunca senti a necessidade de frequentar restaurantes de luxo; nunca senti a necessidade de gastar dinheiro de um modo caprichoso; nunca senti a necessidade de levar os meus filhos à Eurodisney; nunca senti a necessidade de comprar uma cozinha Miele, televisões que impressionam ou telemóveis que parecem feitos para astronautas.
Há muito tempo que não sou aumentado, tiraram-me 100 euros no ordenado, não irei receber subsídio de Natal. Mas isso não me impede de continuar a fazer as coisas que mais gosto de fazer e das quais sinto mais falta. Porque não preciso de dinheiro para as fazer, ou, se preciso, não é nada que não possa suportar. Continuo e irei continuar, por isso, a fazer a vida que levava. A maior parte das pessoas que eu conheço também não está em crise. Tem apenas pavor da normalidade.

8 comentários:

Anónimo disse...

uma "boutade d'un enfant terrible", e que tem a sua pertinência.Seja. No entanto, e sendo o Zé Ricardo professor, diga-me o que faz um outro, que gaste 7 euros por dia em portagens de scut pois mora a 70 Km da escola onde está efectivo... e dali não sai, por mais que tenha tentado; que não tem dia livre e horário compatível ( porque misto) para ter boleia de outros colegas; que tem dois miúdos pequenos (que não estão no privado) com os gastos inerentes; e que gasta mais em gasóleo,de um carro antigo e do qual não se queixa. Mais : vive numa cidade, e tem de deslocar-se para outra cidade. Onde a qualidade vida, nomeadamente a nível de preços, é superior. Por ex. um café aí, é sempre, mas sempre mais barato, do que o sítio mais recôndido das duas cidades referidas. E nunca foi a Cuba e lugares equivalentes.
E não, não estou a falar de mim, como egoisticamente toda a gente gosta de se servir de exemplo. Todavia é um caso, de muitos, que conheço.
Cumprimentos, E.

José Ricardo Costa disse...

Claro, sem dúvida que essa pessoa passará dificuldades. Não ponho isso em causa. E peço que releia o que comecei por escrever, invocando pessoas que, por razões pessoais (doença, divórcio, filhos com problemas, etc) vivem com bastantes dificuldades. Salvaguardo isso no que escrevi. Escrevi este post a pensar apenas numa crise artificial, artificialmente pensada por quem está habituado a viver de acordo com necessidades artificiais. Cumprimentos.

Felipa disse...

Concordo consigo, eu também não estou em crise e as pessoas que conheço e que estão nessa situação são as que sempre se acharam mais do que eu por fazerem coisas que eu nunca fiz (as mesmas de que você também nunca teve necessidade) e que agora têm medo de terem de viver como eu sempre vivi.

José Ricardo Costa disse...

Pois, terão mesmo que se habituar. E como nós somos animais de hábitos, certamente que não irá ser difícil.

Anónimo disse...

Permita-me:
Partigiani - Há que ouvir de novo.

http://www.youtube.com/watch?v=tU6t-CmF8l4&feature=player_embedded#at=27

BELLA CIAO Partigiani

Una mattina mi son svegliato
O bella ciao, bella ciao, bella ciao ciao ciao
Una mattina mi son svegliato
Eo ho trovato l'invasor

O partigiano porta mi via
O bella ciao, bella ciao, bella ciao ciao ciao
O partigiano porta mi via
Che mi sento di morir
se io muoio da partigiano
O bella ciao, bella ciao, bella ciao ciao ciao
E se io muoio da partigiano
Tu mi devi seppellir

Mi seppellire lassù in montagna
O bella ciao, bella ciao, bella ciao ciao ciao
Mi seppellire lassù in montagna
Sotto l'ombra di un bel fiore

gle genti che passeranno
O bella ciao, bella ciao, bella ciao ciao ciao
E le genti che passeranno
Mi diranno: "Che bel fior"

È questo il fiore del partigiano
O bella ciao, bella ciao, bella ciao ciao ciao
È questo il fiore del partigiano
Morto per la libertà

José Ricardo Costa disse...

E gosto muito desta versão, parece um filme do Kusturica. Obrigado.

Anónimo disse...

boas :) Há muito tempo que ando a ler este blog. Acho que é um projecto simplesmente único. E conseguiu promover discussões para lá do interessante. Quiz agora sair da casca e expressar a minha opinião. Aquilo que ando a dizer há anos, e que só agora a maioria das pessoas se começa a aperceber (sim porque a crise ainda n viu o fundo do tacho). É insustentável viver acima das nossas possibilidades só para mostrar que temos ou podemos ser ou fazer o mesmo que os outros, os ricos, fazem. Conheci e infelizmente ainda conhecço, familias pobres, com subsidio de desemprego (ou será de inserção?) que todos os dias vão tomar o pequeno-almoço ao café:um galão e uma tosta mista. Lindíssimo. Depois no início de cada mês recebem ajuda da Cáritas local... Infelizmente o nosso país foi-se habituando a mostrar que, a parecer que, em vez de se limitar a Ser... A culpa não é só dos políticos que nos (des)governam, mas também da retrógada mentalidade das pessoas (as tais...) que não sabem distinguir o necessário do acessório, ou então até sabem, mas preferem mostrar... fico feliz quando cá venho, porque vejo que este país ainda tem gente culta :D abraços Bruno

José Ricardo Costa disse...

Concordo completamente consigo, Bruno. Apareça sempre, ainda que para discordar.Um abraço.