30 outubro, 2011

CLAUSEWITZ REVISITADO

Sheila Radburn Nunes | Escola de Atenas

Estamos lado a lado no quiosque. Eu compro o Público e a senhora compra a revista Lux. Está bem vestida, tem bom aspecto e ar de ter pelo menos o 12ºano ou de ler na praia os romances do José Rodrigues dos Santos em topless.
Quando houver eleições, o voto dela irá valer o mesmo do que o meu, lado a lado na igualitária escuridão da urna. Não, não irei platonicamente queixar-me da democrática perversão que é dar a uma pessoa que lê a Lux em vez do Público, a possibilidade de escolher os destinos da pátria, como se viesse comparar isso com a  perigosa perversão de pedir a um indigente o projecto de uma barragem ou tratamento médico para alguém gravemente doente.
Bem pelo contrário, venho assumir a extrema normalidade desta democrática situação associada aos mais elevados destinos da pátria. No fundo, a política não passa de uma continuação da sociedade por outros meios.

13 comentários:

Ivone Costa disse...

Ah, pois é! A democracia representativa, meu caro, nada a fazer.
O que é que o Rafael pensaria desta Escola de Atenas?

josé manuel chorão disse...

Não sei se concordo com a tua afirmação de que a política não passa de uma continuação da sociedade.
A mim parece-me que a política é o pior da sociedade, a tal ponto que, actualmente, só vai para a política um conjunto de gente corrupta, autênticos criminosos dispostos a roubar quanto puderem para poderem, depois, ir estudar filosofia ou outra coisa qualquer. Favorecem-se os amigos, quando se está no poder, de modo a que eles retribuam quando de lá se sair. Tudo isto é pago pelos contribuintes.Os mesmos que vão deixar de receber subsídios porque o dinheiro já não estica mais.
Os tempos em que homens e mulheres honestos iam para a política para servir o seu povo, são tempos que já lá vão há muito...

José Ricardo Costa disse...

O que é que o Rafael pensaria desta Escola de Atenas? Talvez ficasse entusiasmado e pintasse uma nova versão em que Platão iria surgir de óculos escuros para se proteger do sensível, ao Parménides punha um colete ortopédico no pescoço para poder olhar apenas de frente e ao Heraclito uma bóia em cada braço para não se afogar no rio.

Pois é, meu caro. QED. Mais uma razão para concordares comigo. Se um cientista ainda pode apresentar alguma ou bastante autonomia em relação ao seu eu empírico e psicológico, um político será sempre uma extensão desse eu. Um tempo em que homens e mulheres honestos iam para a política para servir o seu povo? Humm, tirando os grandes ditadores, verdadeiros pais das nações, não estou bem a ver esse tempo.

Fred disse...

Pois, gostei especialmente da parte do topless. Genial mesmo...lol


Um abraço!

José Ricardo Costa disse...

Ai Frederico, Frederico!

Um abraço :)

Fred disse...

Entretanto, já sei quem vai escrever o prefácio do meu futuro livro, será o Professor Zé Ricardo!

Não sei se amanhã trabalha ou se tem ponte, portanto digo-lhe isto: tenha um bom dia de qualquer das formas, já sei que se for dar aulas, muito possivelmente, vai ter um dia menos tranquilo mas pode também ser com mais aventura...lol

Eu por acaso até tenho ponte! É bom para descansar um bocado.

Um abraço!

José Ricardo Costa disse...

Não, Fred, não. Apesar de ser aqui um ponteiro nunca fui de pontes e, por isso, não irei estar parado. Desta vez não teve pontaria.

Venha de lá então esse livro e boa ponte, espero que segura.

Abraço.

jrd disse...

Já nem merece a pena dizer "fiat lux", porque essa, ele(a)s não entendem.

José Ricardo Costa disse...

É o que faz lavar a cabeça com luxívia.

m.a.g. disse...

E que tal abdicarmos desta coisa denominada governo. É que "anarquia" por Anarquia, acho que cada vez mais prefiro o: "Ni dieu, ni maître".

José Ricardo Costa disse...

m.a.g. credo, nem me fale nisso. Mal por mal, antes o governo. Eu cá sou muito "ni dieu, ni maître, ni peuple". Mas le peuple sans maître ainda há-de ser pior do que o marteau sans maître.

Anónimo disse...

Boas :) desta vez não posso concordar consigho. A Política é uma consequência e não uma causa da vida em Sociedade. Aliás surgiu pela necessidade de justiça e equilíbrio social, como sugere John Lock. O problema é que na razão directa da evolução e complexidade das Sociedades Contemporâneas, há também cada vez mais interesses e jogos políticos. Mas não é assim tão mau como se pensa, porque basta vermos os EUA (esse sim país de muitos interesses) e o seu grande crescimento. No entanto, há interesses e jogos políticos. Por outro lado, contestar a democracia e sugerir quer a ditadura quer a anarquia é um suicidio social. Como disse W.Churchill "Democracy is the worst form of government except from all those other forms that have been tried from time to time ". Abraços Bruno :D

José Ricardo Costa disse...

Mas Bruno, eu não disse que a política é uma causa da vida em sociedade, o que eu disse é que a política é uma continuação da sociedade por outros meios. Com as suas qualidades e defeitos.