14 setembro, 2011

TEMPO DOS MAIS NOVOS


Revi há dias o Scarlet Street, (Fritz Lang, 1945). Foi a terceira vez que o vi. Revi-o porque me lembrava de ter gostado bastante dele quando o vi uma segunda vez, há dez ou doze anos. E se na altura o vi foi porque já antes tinha gostado de o ver na televisão, no tempo em que ainda se podiam ver bons clássicos num domingo à tarde.
Desta vez, porém, ao contrário do que aconteceu nas vezes anteriores, a minha apreciação foi muito diferente. Achei a história mal contada, as personagens demasiado afectadas e traídas por uma retórica comportamental demasiado explícita, enfim, um excessivo cuidado pedagógico na expressão do bem e do mal, dando uma atmosfera demasiado artificial à história e à representação dos actores. Senti-me um pouco como se o realizador, adivinhando a indigência mental dos futuros espectadores, tornasse tudo demasiado fácil para se poder entender tudo sem grandes dificuldades.
Acontece, no entanto, que não deixei de sentir prazer a ver o filme. Como explicar? Como explicar o prazer de ver um filme do qual não gostei? Explico do mesmo modo que aqui expliquei a tolerância e compreensão perante os pensamentos ordinários do mais genial homem de todos os tempos. Mas vou agora um pouco mais longe.
Talvez se trate de um processo de infantilização do que ficou para trás. Um actual filme mau é apenas um filme mau. Um antigo filme mau é um objecto histórico cujos defeitos podemos perdoar como se fosse uma criança a quem falta a maturidade do crescimento. Um filme de 1945 é um objecto histórico para o qual olhamos, tomando sempre como referência a sua historicidade. Do mesmo modo que ao olharmos para os disparates de uma criança nunca deixamos de ter consciência de que se trata de uma criança e não de um adulto que já cresceu e a quem, por isso, dificilmente perdoaríamos.
O tempo não é apenas um antídoto que inocula o mal. O tempo leva-nos a olhar para o passado como a se esse passado faltasse a maturidade que associamos sempre ao presente. A um realizador que, no presente, faça um filme cheio de defeitos, não perdoamos. E não perdoamos porque pensamos serem defeitos que se poderiam evitar num tempo de maturidade e crescimento assumido. Mas se Fritz Lang faz um mau filme em 1945, nós olhamos para isso como qualquer coisa que se pode explicar pela infância ou adolescência do cinema. No fundo, trata-se de uma moratória, de um período de espera que damos ao passado, legitimando com isso os seus erros.
Como consolo, resta pensar que um dia olharão para o que nosso presente tem de mau como nós olhamos para o presente dos outros.

4 comentários:

m.a.g. disse...

E o que se aprende com estes clássicos. Devo à minha mãe, entre mil e uma coisas, a minha iniciação cinéfila. Não só nas idas constantes ao cinema (desde os 5 anos)como nas matinés dominicais.
Lembro-me que uma vez, numa cadeira de cultura americana, ter impressionado o professor com os meus conhecimentos sobre a Grande Depressão, Lei seca, etc. É que aprendi mais com Cagney, Edward G. Robinson, Bogart (só para citar alguns) do que em qualquer livro ou manual sobre o tema.

Hugo da Graça Pereira disse...

Perdoe-me a impertinência, mas ao pegar numa temática tão interessante, uma linha de raciocínio que, pessoalmente, considero mais estimulante é (ao invés de contemplar a natureza boa ou má do filme em função de um passado "redentor de pecado") a de indagar se realmente existem bons e maus filmes e se tudo não passam de sensações e percepções que o tempo histórico nos ajuda a colocar em perspectiva. Ou seja, o exactamente o mesmo sob uma perspectiva ligeiramente mais oblíqua.

Mais foi para aqui que a sua mente o levou. E levou muito bem, como de costume. Como acho que já percebeu, achei esta reflexão fascinante. Bem-haja.

José Ricardo Costa disse...

m.a.g., sei bem o que isso é. Tive também essa sorte. O cinema foi a primeira das minhas paixões. A música, a literatura, a pintura vieram depois. É toda uma escola.

Hugo, a carga de trabalhos em que me quer meter! Presumo que se refere ao problema do valor de uma obra de arte, mais concretamente, se se pode aferir objectivamente. Neste caso, no que toca ao cinema. O que eu penso não tem qualquer importância mas estou inclinado para o facto de o valor de uma obra de arte depender do seu efeito, ou seja, uma concepção consequencialista. Pode ser que um dia destes explique porquê.

Hugo da Graça Pereira disse...

Efectivamente José era por aí. A problemática do valor da arte (boa ou má) e a montante disso a da própria definição de arte (o que é ou não arte) é, para mim, um tema apaixonante. Se percebi bem a curta nota que deixou no tema, então devemos ter uma opinião semelhante. Espero que um dia a inspiração o leve para esses lados.