20 setembro, 2011

A RAPARIGA DO FUNDO

                                                                     Thomas Leuthard

O peso desta fotografia parece estar todo concentrado na rapariga que ocupa o primeiro plano. Esta fotografia é uma rapariga. E uma rapariga sobre quem, à partida, nada haverá para dizer. Um rosto vulgar, nem bonito nem feio, o rosto de típica vizinha do lado, igual ao rosto de tantas vizinhas do lado com quem nos cruzamos nas ruas, no metro, nos supermercados. Sim, tem as tatuagens que lhe dão um certo ar rebelde e menos convencional. Mas nada há na sua expressão, no seu olhar, na sua pose, que exprima rebeldia, um estado mental ou emocional que justifique perder um minuto que seja a falar sobre ela. À partida, a fotografia podia morrer aqui. Uma fotografia vulgaríssima de uma vulgaríssima rapariga.
Só que a fotografia está muito longe de se esgotar na rapariga do primeiro plano. Tão importante como a vulgar rapariga do primeiro plano é o fundo desfocado que lhe confere uma nitidez e “clarividência física”, uma inteligível identidade que transcende a sua individualidade, a sua particularidade. Estivesse ela sem aquele fundo e teríamos apenas uma rapariga. Só que este fundo não é um fundo qualquer. Este fundo é Nova Iorque. Esta rapariga é uma nova-iorquina.
Vamos supor que esta rapariga, em vez de ter Nova Iorque como fundo, estaria à entrada do Pingo Doce da Baixa da Banheira ou do Minipreço de Massamá. Continuaria a ser a mesma rapariga? Continuaríamos a ter a mesma fotografia? Não. Seria outra fotografia completamente diferente. Ou seja, o fundo, aquele fundo desfocado e quase abstracto, salva a rapariga da vulgaridade. Este fundo desvulgariza a rapariga (para um não nova-iorquino, claro), fazendo com que esta fotografia, mais do que uma fotografia sobre uma rapariga, se torne uma fotografia de Nova Iorque.
Uma rapariga de Nova Iorque é uma rapariga de Nova Iorque, uma rapariga de Massamá é uma rapariga de Massamá, como se os lugares em que se vive estivessem entranhados nos códigos genéticos das pessoas. A rapariga de Nova Iorque é uma extensão de Nova Iorque, confunde-se com a cidade, faz parte da cidade como a cidade faz parte dela. E se Nova Iorque é um lugar mais atraente e fascinante do que Massamá, a rapariga de Nova Iorque tornar-se-á naturalmente mais fascinante do que a rapariga de Massamá.
Não deixa de ser injusto. Isoladamente considerada, nada há de fascinante nesta rapariga de Nova Iorque, ao contrário do que se poderia passar com a imaginária rapariga de Massamá. Mas ser fotografada à porta do Minipreço de Massamá será sempre uma fatalidade. O que pode valer uma rapariga à porta do Minipreço de Massamá? A pergunta, feita em abstracto, pode parecer estúpida. É estúpido, e até ofensivo, perguntar se vale mais um ser humano de Nova Iorque ou um ser humano de Massamá. Ninguém pergunta isso. Não há uma bolsa de valores de seres humanos na qual a cotação de cada um sobe ou desce em função do sítio a que se pertence.
Mas não precisamos das perguntas para que as respostas se desenvolvam, espontânea e involuntariamente, na nossa consciência.

13 comentários:

Alice N. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Isabel Pires disse...

Este post fez-me reflectir sobre o sentimento de pertença a um lugar. Julgo que é mais importante do que à partida se possa pensar. Não em termos de cotação, obviamente.
As referências geográficas, as memórias feitas de cores, sons e cheiros, a familiaridade das pessoas com quem nos cruzamos, as pedras que pisamos... Fazem diferença no modo como vivemos o quotidiano. De certa forma, os lugares entranham-se em nós.
Ser estrangeiro no lugar em que se reside tem um preço alto. E ultrapassar essa condição não é fácil.
Desviei-me do assunto, eu sei. :)

jrd disse...

A resposta que se desenvolveu espontânea e involuntariamente na minha consciência é linear.
Não pode haver qualquer semelhança entre a rapariga de Nova Iorque e uma rapariga de Massamá, porque em Nova Iorque nem sequer há Minipreço.

José Ricardo Costa disse...

Sim, Alice, é outra leitura, tão legítima como a minha e que eu poderia ter igualmente feito. E tem cuidado quando falares em coisas inúteis. Olha que há coisas que, podendo ser inúteis para alguns, são bem mais necessárias do que se poderá supor.

Isabel, sem dúvida, o lugar a que se pertence é bem mais importante do que à partida se poderá supor. Por isso é que quando o Kennedy disse "Ich bin ein berliner" só podia estar mesmo a brincar. Ainda se fosse um dubliner...

jrd, escreveu a frase do dia. Do melhor!

Rita Tormenta disse...

O espaço dos outros é sempre o nosso não espaço.
Chega-se a uma cidade como a um namoro, primeiro tudo parece promissor e luminoso, até a enfatuação esmorecer e então os limites da cidade transformam-se em barreiras.
A imagem e o texto permaneceram em mim durante o dia de hoje, como aliás acontece com frequência com os textos deste blogue. Enquanto percorri as ruas da Amadora e da Reboleira, perguntei-me se aquela geografia já se tinha entranhado na minha pele, saí da escola e desci a rua, paralela ao aqueduto, até à estação de combóios, vi algumas raparigas dali, e depois pensei que talvez ninguém fossse dali, talvez apenas ali estivessem, como um momento sem raíz nem futuro. Ali cheira a cachupa e a moamba, as mulheres negras de trajes tradicionais africanos, aguardam os filhos pequenos à porta da escola, falam-se muitos tons de português, ecoam ritmos e temperos de outras paragens. Ninguém é de suburbia, ainda que ali tenha nascido e por ali vá vivendo.
O sentimento por Nova Iorque é muito diferente, é uma pertença desejada, por vezes ambicionada e fruto de luta e empenho.
A rapariga das tatuagens, está em Nova Iorque mas o seu olhar demonstra que vive em Newark, aguarda o autocarro para regressar a casa, não a casa desejada mas a casa real.
Apesar do determinismo do texto me deixar alarmada, acerca da geografia impressa no meu ADN, obrigado!

CF disse...

:) Sorrisos. Muito bom este poste.

José Ricardo Costa disse...

Rita, o determinismo não tem que necessariamente alarmar. Por acaso viverá angustiada por não poder decidir respirar ou não respirar por pulmões?

CF, obrigado.

Hugo da Graça Pereira disse...

Engraçadíssimo este post. Quando deparei com a imagem, fiquei um pouco a contemplar e pensei no quão deslocada e isolada me parecia a rapariga. A foto transmitiu-me uma sensação de não-pertença, de não estarem (rapariga e Nova Iorque) em fase (como se diz na física). Qual não foi o meu espanto ao perceber que a reflexão do José o levou na direcção oposta...

A "prova provada" que vemos com a mente e não com os olhos.

José Ricardo Costa disse...

Mas o mais engraçado ainda é que a sua leitura é perfeitamente possível. Perante uma mesma imagem podemos construir dois discursos completamente diferentes.

Hugo da Graça Pereira disse...

E resta-nos a eterna questão: a existir, o que é a verdade?

José Ricardo Costa disse...

Ui...

Rita Tormenta disse...

alarme e angústia sãocoiss diferentes, o alarme é um gatilho, despoleta pensamentos, reacções, a angústia é bloqueadora e aniquilante. Mas de facto, a minha condição cigana, leva-me a olhar a geografia como acidente.

José Ricardo Costa disse...

Não sei, não. Provavelmente será feita de várias geografias em lugar de uma geografia.