25 setembro, 2011

POSIÇÕES

                                                                 Amadeo Modigliani |Mulher Sentada com Criança

Volto de novo a Os Despojos do Dia e à suprema questão que Stevens, o mordomo, coloca a si mesmo: o que é ser mordomo? Qual a essência de um verdadeiro mordomo? De acordo com a clássica definição da Sociedade Hayes, uma conservadora agência de mordomos que estabelecia rigorosos critérios de admissão, o verdadeiro mordomo apresenta «uma dignidade de harmonia com a sua posição».
Stevens e um outro mordomo, Graham, passavam serões inteiros a tentar descobrir a estrutura dessa dignidade. Achei muito curiosa a opinião de Graham sobre o seu significado: «Esta dignidade» - diz ele - «era algo como a beleza de uma mulher e, portanto, seria inútil tentar analisá-la».
Eu gosto desta visão céptica de Graham. Há coisas que são o que são e não há muito mais que dizer sobre isso. Nomeadamente, sobre os comportamentos morais das pessoas. Podemos, na filosofia, pensar sobre isso e construir teorias, mas o natural instinto das pessoas cumpre bem a sua função. Do mesmo modo que a beleza de uma mulher não carece de uma explicação das suas causas ou razões, também o que é digno ou indigno pode ser entendido intuitivamente. Percebemos muito bem quem é sacana ou patife. Percepcionamos muito bem a “dignidade de harmonia” com o que é ser humano, como a beleza de uma mulher a que se refere Graham.
Muitas vezes, demasiadas explicações só servem para complicar o que é suficientemente óbvio. Compreender é ver. O bem é o bem e o mal é o mal. Basta abrir os olhos para os ver. E compreender a posição de cada um. Há mordomos e mordomos.

13 comentários:

Ana Paula Sena disse...

Há coisas assim: por mais que se expliquem, nunca ficam explicadas...

importa assinalá-lo, como fez.

José Ricardo Costa disse...

E, muitas vezes, explicar é mesmo só mais para implicar...

Hugo da Graça Pereira disse...

As acções, os pensamentos, as omissões serão bons ou maus. As pessoas não são boas nem más, são pessoas.

Anónimo disse...

Caro José Ricardo: se não se recorda do filme atrevo-me ( Yes, I dare!) a recomendar que o reveja. Pois tudo o que está enunciado no livro,q li, está na performance q dão A. Hopkins e Emma Thompson,esta sendo a tentação daquele, e num crescendo dicotómico feminino/ masculino versus ao que é ser mordormo.A subtileza do livro está tb nos olhos destes actores. O sofrimento do mordomo, em reger-se por regras q n permitem devaneios, viver, em suma. Qt ao Javier Marias, tenho a certeza de que este o adoptará se o conhecer. Recomedo-lhe o ultimo dele - Enamoramentos. Original, vindo dele.

José Ricardo Costa disse...

Hugo, hummm, isso parece-me perigoso. As pessoas não são boas nem más? Quem é bom ou mau? Os genes, o Volksgeist, a cultura, a História, a raça? Mesmo uma visão do comportamento humano como se fossem linhas ou planos, não iliba o homem do mal. O mal existe simplesmente porque há pessoas más que poderiam ser boas, o bem existe porque há pessoas boas que poderiam ser más.

Car@ E, mal posso esperar para rever o filme. Mas primeiro tenho que acabar de ler o livro. Uma muito agradável surpresa. E obrigado pela sugestão.

Mar Arável disse...

De facto explcar - por vezes

só por gestos

José Ricardo Costa disse...

Até se costuma dizer que o gesto é tudo.

Hugo da Graça Pereira disse...

Não poderia discordar mais de si José! Repito, as pessoas não são boas nem más.

Repare que é relativamente fácil encontrar consenso quanto à natureza boa ou má de um acto: matar é mau, roubar é mau... Contudo, encontraria sérias dificuldades em definir o bem e o mal de forma a encontrar consenso. Eu não acredito no bem e no mal como valores absolutos. Not even the wisest can see all endings e eu acrescentaria que nem todos os inícios.

Quantos sanguinários ditadores ou mercenários não são homens dedicados à família? E, por mais que isso nos revolte, quantos deles não teríamos de classificar com bons pais? E se há algo de bom nesses homens, se eles fizeram o bem a alguém, como podem encarnar essa definição de maldade absoluta? Não José, as pessoas não são boas nem más, são pessoas; ou seja, são toda uma amálgama de comportamentos, actos e omissões raramente coerente.

Compreenda que esta posição em nada impede que se faça Justiça sobre os homens. Mas a justiça aplica-se, não sobre a natureza boa ou má da pessoa, mas sobre o perpetrador de uma má acção.

José Ricardo Costa disse...

Hugo, fico-me apenas pela segunda parte do seu desafiante comentário. Dizer "O João é estudante" não implica que o João esteja sempre a estudar. Dizer que "O homem é um ser que dorme" não significa que, para se ser humano, se esteja sempre a dormir. O homem é um ser que dorme ainda que esteja acordado. Ora, dizer que Hitler é mau não implica que Hitler esteja sempre a fazer maldades ao longo das 24 horas de um dia ou dos 30 dias do mês. Hitler não é mau quando beija as crianças, quando afaga os seus cães, quando é simpático com Eva Braun. Sim, tem razão, não há seres humanos que sejam exclusivamente maus. Mas isso não impede de considerar certos actos maus ou de pensar no mal como elemento relevante no carácter moral de certos seres humanos. Um homem que mata por capricho é mau, ainda que a seguir ofereça um ramo de flores à sua mãe.

Hugo da Graça Pereira disse...

Caro José, você vai puxando por mim...e eu que adoro estas conversas.

A caracterização de alguém como bom ou mau é sui generis. Estudar ou dormir são "estados" que não se equiparam a ser bom ou mau. Quando você diz que alguém é bom ou mau define-lhe a natureza, não lhe caracteriza o estado. Querendo ou não, põem-lhe um rótulo. E quando se parte para a análise dessa pessoa tudo o resto virá manchado e enviesado por essa perspectiva.

Eu entendo a sua escolha de Hitler, que aliás vem na sequência da minha ilustração com ditadores. Mas esse uso de uma preposição ab absurdo esconde boa parte da questão. Senão lhe causa hesitações classificar Hitler como mau, pense antes nos seus amigos, na sua porteira, na senhora do café, na pessoa regular e banal. Consegue afirmar que elas são boas ou más pessoas? Elas têm boas e más atitudes conforme a circunstância (numa linha próxima da ideia do Ortega y Gasset: yo soy yo y mi circunstancia), mas afigura-se-lhe como possível cristalizar a essência da natureza dessas pessoas na definição de boa ou má pessoa?

As pessoas são apenas pessoas, com todas as suas inconsistências e paradoxos, que nem elas sabem explicar. Julgue-se a pessoa pelos actos que comete e que, esses sim, podemos avaliar como bons ou maus. Procurar julgar alguém com base numa definição absoluta de carácter afastar-nos-á irremediavelmente da verdade dessa pessoa e das suas acções.

José Ricardo Costa disse...

Pois, se o meu caro gosta destas conversas, a mim, para além de gostar delas, ainda me pagam para as ter.

Se me disser que a santidade não é a condição natural do ser humano mas antes a imperfeição, completamente de acordo. O que não significa reduzir o ser humano à sua imperfeição. A doença é uma marca da nossa imperfeição (adoecemos, sofremos, morremos) mas um doente é muito mais do que um doente. Um diabético, para além de diabético, pode ser engenheiro, adepto do Benfica, poeta, jogador de matraquilhos. Ora, levando isto para um plano moral, levar-me-á a pensar que também não podemos reduzir ninguém ao mal absoluto ou ao bem absoluto. Ninguém é absolutamente bom ou mau. Isto não impede, porém, que o mal não seja mais predominante numas pessoas do que noutras. Eu poderei fazer as minhas pequenas maldades. Mas, apesar disso, não mereço ser comparado ao Hitler. Ele é pior do que eu. Eu nunca matei ninguém. A senhora do café, por muito que possa ser afectada pela perfídia, não pode ser comparada ao Hitler. Prejudicar ostensivamente a nora ou trair uma amiga não pode ser comparado ao acto de provocar uma guerra ou de dizimar ostensivamente milhões de pessoas.
Eu entendo perfeitamente o que quer dizer. No plano dos princípios até pode ter razão. Porém, num plano pragmático pode ser perigoso, conduzindo ao relativismo e a uma ausência de critérios morais.

Hugo da Graça Pereira disse...

Apenas para finalizar, eu também entendi desde o início que a sua principal reticência em toda a questão seria o relativismo que, à partida, levaria a "uma ausência de critérios morais." Contudo não acredito ser uma posição em nada incompatível com um forte eixo moral ou com a aplicação da justiça nele alicerçado, como tive oportunidade de deixar entrever acima.

Mas esta seria uma questão que, irremediavelmente, nos poderia prender durante horas... Fica o meu obrigado por mais uma (pelo menos para mim) interessante troca de ideias.

José Ricardo Costa disse...

Eu é que agradeço, Hugo. O prazer foi todo meu, mande sempre.