26 setembro, 2011

PAPISMO


Uma aluna minha foi a Madrid para ver o papa. Dizia-me ela que foi de manhã cedo para a praça de Cibeles a fim de apanhar um bom lugar para o ver... ao fim da tarde. Horas e horas sob um Sol escaldante, em pé, para melhor ver o Papa no alto do seu imperial púlpito madrileno.
Eu não sou cristão, muito menos papista. Não tenho, por isso, que me pronunciar. Mas penso que um verdadeiro cristão ganharia bem mais se ficasse sossegadinho em casa a ler e a reflectir sobre o Evangelho do que estando horas e horas em pé, sob um sol escaldante, para ouvir um imperador de sapatinhos vermelhos dizer umas palavras de circunstância.

15 comentários:

josé manuel chorão disse...

O bom senso anda caríssimo, a pagar a taxa máxima de IVA, ainda por cima. Talvez seja por isso que muita gente abdica de o usar.
Um dia, essa rapariga poderá deixar o seu cérebro aos herdeiros, como herança. Decerto valerá bom dinheiro, praticamente novo, sem qualquer uso que se veja...

Hugo da Graça Pereira disse...

A racionalidade que procura está, parece-me, inevitavelmente ausente dos fenómenos de massas, católicos ou outros...

José Ricardo Costa disse...

Não concordo contigo. Considero muito pouco cristã a idolatria papal. Aliás, muito pouco de cristão haverá no papismo. Mas a rapariga é livre de o fazer e, por outro lado, enquanto está muito longe de se reduzir a esse aspecto. Todos nós temos direito às nossas pequenas e demasiado humanas fraquezas.

Hugo, longe de mim procurar qualquer racionalidade. Não vejo qualquer racionalidade na leitura do Evangelho. Penso, simplesmente, que existem irracionalidades bem piores do que outras.

O Puma disse...

... e assim...

até don Policarpo
se calava

Hugo da Graça Pereira disse...

"muito pouco de cristão haverá no papismo"

Ora aí está uma verdade que a muitos custa a digerir...

José Ricardo Costa disse...

Puma, o Don Policarpo é bom homem. Eu gosto dele e penso que vozes como a dele fazem falta. O facto de ser papista e ser cúmplice de uma instituição que muito contribui para destruir ou perverter o cristianismo, não é suficiente para macular o seu valor e dignidade enquanto homem.

Isabel Pires disse...

Também sou de opinião de que um cristão não é mais verdadeiro por ter este tipo de comportamento que, para o próprio, até pode não ser sacrifício.
Julgo que neste caso, como em tantos outros, devemo-nos esforçar por usar de bastante relativismo no que concerne à análise das vontades e interesses dos outros. Por exemplo, será muito diferente efectuar centenas de quilómetros para assistir a um evento em que um amigo intervém, mesmo nós sabendo que isso não faz de nós mais amigos? Ou, até, aqueles casos em que decidimos fazer uma viagem longa para conhecer determinado lugar devido a uma particularidade?
Na minha opinião, o importante é que cada um actue de acordo com os seus interesses e valores, desde que tal não colida com os dos demais, e assim caminhe no sentido da sua felicidade.

m.a.g. disse...

Quando me lembro do tempo que me fizeram perder em horas de catequese a absorver conceitos duvidosos, fico com urticária. Esta igreja é um embuste legitimado. A adulteração completa da mensagem de Jesus que: nunca seleccionou audiências e muito menos privilegiou poderosos - bem pelo contrário; também não vestia sotainas debruadas a ouro, nem sapatinhos de luxo; não obrigava nenhuma cidade a estabelecer medidas de segurança para sua protecção nem a parar para lhe prestar reverência. Jesus era ético e excessivo não era um vendilhão do templo nem um intelectual de salão.

José Ricardo Costa disse...

Mas cada um faz aquilo que quer. Eu apenas questionei se tal idolatria papal está de acordo com o espírito do cristianismo.

m.a.g., completamente de acordo. Faço das suas as minhas palavras.

JCM disse...

Sou cada vez mais papista. Mas além disso, fico espantado com as afirmações que se fazem sobre Jesus. Aquilo que se sabe, se é que se sabe alguma coisa, resulta de uns textos de origem incerta, para não dizer duvidosa. Ah, também há a tradição, aquela que liga os membros da cúria romana aos apóstolos, entre eles a Pedro, o Papa I. Mas essa é secreta, é transmitida de boca a orelha, geração a geração. Como se pode dizer que Cristo nada tem a ver com o papismo? Não terá sido o papismo que inventou o cristianismo? Essa distinção não faz sentido, como não faz sentido distinguir luteranismo de cristianismo. O luteranismo recriou o cristianismo de outra maneira. Só isso.

O que nós temos na Cúria é a continuação do império romano, do senado, por outro meios. Será legítimo? Claro que é, pois foi o cristianismo papista e romano que, perante a queda do império e a desagregação da vida social, forneceu as estruturas que permitiram encontrar novas formas de organização política e um princípio de racionalidade. Cometeu crimes? Bastantes, mas não mais que outras potestades que duraram bem menos. A política não é um lugar para santos.

Relativamente a Bento XVI, acho-o uma das personagens mais interessantes do nosso tempo, senão mesmo a mais interessante. E não é por tocar Mozart, por discutir filosofia com o ateu Habermas ou por ser um teólogo hábil e profundo. Não. Porque é das poucas personagens que percebe que se o cristianismo for erradicado da Europa, a liberdade (uma criação do cristianismo) vai com ele também. E também sabe que há muitas probabilidades de o cristianismo ser erradicado da Europa.

Para mim, uma matriz romana e um princípio de liberdade cristão são essenciais. Quero lá saber que o papa use sapatinhos vermelhos ou ande de sotaina. E como as massas são sempre idolátricas de qualquer coisa, prefiro que o sejam do Bento XVI do que de outras coisas ou outras personagens bem mais tenebrosas. No meu tempo, éramos, muitos de nós, do Enver Hodja ou do Mao, do Che ou do Estaline, etc. Seriam mais recomendáveis?

José Ricardo Costa disse...

Completamente de acordo a respeito da importância histórica do catolicismo. Mas trata-se de uma avaliação meramente empírica. Nós somos o que somos porque, factualmente, foi o catolicismo que forneceu um princípio de racionalidade. Mas se não tivesse sido o catolicismo teria sido outra coisa qualquer. A democracia, por exemplo, não é uma conquista cristã. É uma conquista grega. A índia é uma democracia e não é cristã. O Japão é uma democracia e não é cristão. A busca da racionalidade é uma predisposição humana e universal como a matemática, não é uma característica cristã.
E não acredito que a única alternativa a uma Europa cristã seja o caos. Eu sou ateu como tu e não vejo uma sociedade constituída por nós dois como sendo pior do que uma sociedade constituída por dois católicos. Provavelmente será melhor. A Holanda será talvez o país menos religioso do mundo e não vejo que tenhamos que lhes dar lições de liberdade, tolerância e, como agora se diz, cidadania.
O cardeal Ratzinger não discuto. É chefe de uma instituição da qual não faço parte. Se os papistas gostam do homem que façam bom proveito. Já agora, sendo tu cada vez mais papista, espero bem que não venhas a ser mais papista do que o papa.

paulo,sj disse...

Caro JRC,

Eu também lá estive (ou melhor, estive cá, já que continuo em Madrid em estudos de Teologia), na JMJ. Também passei muito calor e muitas vezes pensei na questão da possível racionalidade do que estava a fazer...

Considero racional ir ao encontro de alguém que têm a responsabilidade perante uma realidade à qual se pertence de livre vontade, neste caso à Igreja Católica. Quanto ao resto tenho receio de fazer julgamentos. Sou muito prudente em relação a isso... Isto não invalida que não se faça uma avaliação sobre estes mega-eventos, o seu sentido, ou não, dentro da Igreja e do seu propósito.

É longo para copiar para comentário, por isso deixo uma pequena reflexão que fiz aquando da última visita de Bento XVI a Portugal.
http://oinsecto.blogspot.com/2010/05/ainda-no-rescaldo-da-visita-papal.html

Voltando à JMJ. Houve momentos que senti uma grande inquietação com alguns “gritos de júbilo” que se ouviam. Até que ponto isto não é uma “papolatria”? E sim, o cristianismo não convida a uma “papolaria” e não me parece que Bento XVI goste muito de tal situação. No final da JMJ, por parte do próprio Papa foi colocada a questão sobre se seria de fomentar nas JMJ grandes multidões.

A quantidade impressiona. Negativa ou positivamente impressiona. Se estão “meia dúzia de gatos pingados” é uma coisa, se se chega aos milhares ou milhões é outra. Junto com outras características: idade, nacionalidade, etc. Não me parece que fosse um encontro de milhares de pessoas irracionais, sem sentido do que estavam a fazer, como que absorvidos por uma cegueira de seguimento de um ídolo. Sei que em muitos casos houve uma preparação do sentido de Igreja, de serviço, de perceber que o encontro seria uma ponte para o futuro. Não me considero ingénuo a ponto de achar que a partir de agora 1,5 milhão de pessoas mudaram radicalmente a sua vida, sendo o exemplo do serviço e gratuidade diante dos outros. No entanto, por conhecimento pessoal, sei de algumas que se sentiram impelidas a pensar no seu tempo futuro, precisamente porque passaram horas à espera de um momento ou acontecimento.

Parece-me que, mais do que a reflexão vista de fora, tudo muda quando se passa pela experiência da situação, levando a ter uma nova visão sobre o assunto e respectiva avaliação.

Um Abraço!

JCM disse...

Se não fosse catolicismo, nós não seríamos o que somos. É uma constatação empírica, mas no caso da História, só há constatações empíricas, mas essas têm um valor de verdade superior ao da lei da gravidade de Newton. O acontecido é irremediável. Não falei em democracia, mas em liberdade. A questão do livre-arbítrio. Mas mesmo na democracia há que relativizar as tuas afirmações. Foram potências cristãs (Inglaterra e EUA) que “exportaram”, ou impuseram, a democracia para o Japão e a Índia. E a democracia liberal pouco tem a ver com a democracia grega.

A democracia liberal está intimamente ligada ao cristianismo, tanto nos EUA como na Europa. O cristianismo reformado era tendencialmente democratizante, e as guerras religiosas acabaram por impor uma espécie de “entente” entre partes que acabou no parlamentarismo.

Dizes, com displicência, se não fosse o cristianismo seria outra coisa a dar um princípio de racionalidade. É verdade, mas nenhuma outra coisa conduziu aos regimes de liberdade. Os cristãos, papistas e antipapistas, mataram-se durante décadas, mas acabaram sentados nos parlamentos. Os muçulmanos, shiitas e sunitas, matam-se há 13 ou 14 séculos, e não há maneira de se sentarem lado a lado no parlamento. Talvez prefiras esse princípio de racionalidade.

Quanto a ser mais papista que o papa, quase o seria se tivesse o dom da infalibilidade, mas como não o tenho…

José Ricardo Costa disse...

Claro, Jorge, as tuas constatações empíricas batem certo. Não se trata de discutir o indiscutível. É como no futebol, uma equipa ganha porque marcou mais golos do que a outra. O cristianismo marcou os seus golos e, graças a isso, ganhámos alguns jogos aos sunitas e shiitas. Eu não pus em causa o valor do cristianismo embora não esteja seguro de existir uma relação causa-efeito ou imediata entre o cristianismo e algumas das nossas principais conquistas. Parece-me que, inúmeras vezes, a Europa se tornou no que é, não por causa do cristianismo mas apesar de cristianismo.
Divirjo na ideia de uma ausência de alternativa entre o cristianismo e o caos. Se S. Paulo tivesse morrido afogado depois da estrada de Damasco nós não teríamos sido cristãos e isso não teria feito da Europa uma pintura de Bosch ou algumas de Bruegel. E divirjo também na idolatria papal. Mas isso também é uma questão estética, de gosto, e gostos não se discutem. Acho mesmo aquelas rendinhas, sainhas, folhozinhos e sapatinhos coisa de mau gosto. Mas pronto, se ele é papa deverá ter igualmente um gosto infalível e fico então reduzido à minha insignificância. Errado estarei eu, frágil e indigente ateu.

Paulo, meu caro, agradeço a sua tolerância e compreensão face aos meus furiosos acessos anti-papistas. Eu não sou a favor da religião nem contra a religião. Aliás, já falei publicamente a esse respeito numa palestra sobre tolerância religiosa, assumindo que a tolerãncia deve ser extensiva a quem é religioso e a quem não o é. Nem sequer se trata de tolerãncia mas de natural respeito pela pluralidade. O meu problema com o papa, ou com o papismo, é mesmo um problema de contrastes entre a verdadeira natureza evangélica do cristianismo e o romano institucionalismo católico. Quanto ao que diz sobre a experiência espiritual de muitos neste tipo de encontros, entendo perfeitamente. De qualquer modo, nos registos protestantes, a ausência de um césar papal, não retira espiritualidade e uma verdade experiência cristã aos seus fiéis. Diria mesmo que será precisamente o contrário.

José Ricardo Costa disse...

Ups, Paulo, um abraço!