24 setembro, 2011

PAISAGENS MORAIS


Há uma parte espantosa de Os Despojos do Dia, em que Stevens, o mordomo de Darlington Hall, faz uma analogia entre a paisagem inglesa e a essência do que é ser mordomo. Ao sair pela primeira vez de Darlington Hall para um passeio, depois de anos e anos fechado na enorme mansão, Stevens constata que o que realmente o impressionou no primeiro dia de viagem

«não foi a catedral de Salisbury, nem qualquer das outras encantadoras vistas da cidade, mas sim o maravilhoso panorama dos ondulados campos ingleses que esta manhã me foi dado admirar».

E continua: «Na verdade, tenho visto em enciclopédias e no National Geographic Magazine fotografias empolgantes de vistas e vários cantos do Globo, grandiosos desfiladeiros e cataratas, montanhas agrestemente belas. Nunca tive, evidentemente, o privilégio de ver essas coisas em primeira mão, o que não me impede, no entanto, de arriscar, com alguma confiança, a opinião de que a paisagem inglesa, no que tem de melhor- como a que vi esta manhã-, possui uma característica, desconhecida nas paisagens de outras nações, por mais superficialmente dramáticas, que a distingue, aos olhos de qualquer obsrvador objectivo, como a mais profundamente satisfatória do mundo, e acho que o termo que porventura melhor a define é "grandeza". O que é precisamente essa grandeza? Onde, ou em quê, reside ela precisamente? Tenho plena consciência de que seria precisa uma cabeça muito mais sábia do que a minha para responder a semelhante pergunta, mas, se fosse obrigado a arriscar uma hipótese, diria que é a própria falta de dramatismo ou espectacularidade óbvios que coloca a beleza da nossa terra num lugar à parte. O que é pertinente é a serenidade dessa beleza, a sua impressão de comedimento. É como se a terra soubesse da sua própria beleza, da sua própria grandeza, e não sentisse necessidade alguma de a alardear. Em comparação, as variedades de vistas oferecidas em lugares de África e da América, apesar de indubitavelmente muito emocionantes, pareceriam, estou certo, ao observador objectivo inferiores por causa da sua indecorosa ostentação».

E logo a seguir: «Toda esta questão é muito semelhante à que foi alvo de muitos debates na nossa profissão ao longo dos anos: o que é um "grande" mordomo

A partir daqui o livro acompanha a fascinante reflexão sobre a essência do que é ser mordomo. Stevens toma o seu pai como referência, também ele mordomo: a sua discrição,  a sua serenidade, a sua fleuma, a sua capacidade para controlar tudo à sua volta como se o fizesse de olhos fechados e com pezinhos de lã, a capacidade para cumprir bem as suas funções sem estar obcecado com os louvores e a glória. O pai de Stevens não deslumbrava pela sua grandiosidade como acontece com a catedral de Salisbury. O  pai de Stevens era admirado por uma inquestionável normalidade na qual não se pensa porque está naturalmente no lugar certo.
As cataratas do Niagara ou a altitude dos Himalaias impressionam, podem ser sublimes, mas rapidamente cansam, não dando vontade de lá viver. Muito melhor será um longo prado verde, regado por uma chuvinha suave e apaziguadora, por onde vacas e carneiros deambulam tranquilamente para nos darem o queijo, a manteiga e o leite da nossa felicidade.
Uma  lição.

8 comentários:

jrd disse...

Uma lição. Sem esquecer os bombons do Ambrósio.

josé manuel chorão disse...

Até te digo mais: essa serena tranquilidade, essa grandeza que sabe que o é e, portanto, não precisa de se colocar em bicos de pés para se mostrar, está na paisagem inglesa, decerto; estará, admito-o, nas qualidades de um bom mordomo; e está, sem dúvida, no teu Blogue.

José Ricardo Costa disse...

Por acaso, jrd, agora apetecia-me algo.

You are undoubtedly right, Sir!(esta foi para ti, meu)

Alice N. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Sigo quase diariamente o seu blog. Pela qualidade da escrita, da auto-ironia, de uma espécie de monólogo de si-para-si-para-nós. O javier Marias, que , por certo, conhecerá, lembra-me a sua escrita e vice-versa. Isto é um elogio. E " Os despojos do Dia" é um dos meus filmes, um dos meus " hopkins". Já poucos se recordam.
E.

José Ricardo Costa disse...

Sim, Alice, concordo perfeitamente. Há uma continuidade entre a figura da leiteira e a paisagem que, neste caso, é inglesa mas que poderia ser francesa ou holandesa. A paisagem rural europeia, marcada por uma enorme simplicidade visual mas sendo ao mesmo tempo nessa paisagem que se encontra o sustento, a fonte de de toda a existência.

Car@ E, que simpáticas palavras mas, por favor, não ofenda o Javier Marias. Felizmente lembro-me mal do filme, o que facilita bastante a minha leitura do livro. O livro é excelente.

Rita Tormenta disse...

A paisagem, a geografia, o ADN e o silencioso crescer da erva.

As cataratas do Niagara não dão sustento a ninguém, mas sem o dramatismo da ravina, a planície é apenas monótona.
Cada paisagem tem o seu lugar na narrativa, como num axioma actancial, uns são adjuvantes, outros oponentes, e a tensão gerada é essencial.

José Ricardo Costa disse...

Sem dúvida, Rita. Nada contra a montanha arrebatadora do Caspar David Friederich. Trata-se apenas de pensar a paisagem inglesa como símbolo moral. O Kant, na Crítica da Faculdade de Julgar faz um exercício desse género ao estabelecer uma relação entre o belo e o bem.