13 setembro, 2011

OUVE, VAMOS VER A ESCOLA

                                                                                 Milton Avery | Bridge to the Sea

Se há coisa com a qual não me conformo é com o início da escola em Setembro. Estou mesmo convencido que foi uma das piores decisões políticas das últimas décadas, uma mancha na  nossa democracia, uma soez concessão às modernices europeias como as maçãs calibradas ou os coffee breaks em vez de intervalos.
Ao contrário do que se passa em países frios e chuvosos onde o Verão não passa de um ridículo fim-de-semana prolongado, Portugal tinha uma Trindade meteorológica que eu julgava intocável: Julho-Agosto-Setembro. Julho-Agosto-Setembro, um triângulo mágico e poético feito de Verão, de praia, de férias. Fazia-se praia durante todo o mês de Setembro como hoje se faz em Julho ou Agosto. Vínha-se da praia no fim de Setembro ainda com tempo para descansar até ao começo das aulas a 7 de Outubro, para então aprender o que se aprende hoje.
Só que o Setembro está para esses países como o Outubro para nós. Para eles, o Setembro liga com Outubro. Para nós, Setembro liga com Agosto. O que fizeram connosco foi ter metido a escola pelo Verão adentro (ou o Verão pela escola adentro) como se o Setembro pedisse Outubro. Uma aberração.
A escola devia começar quando os dias começam a escurecer, a ficar mais pequenos, a arrefecer, a pedir um agasalho.Ou seja, durante o nosso Outubro, que é para nós o Setembro dos outros.  Nós não temos a culpa de viver no sul da Europa onde faz calor em Setembro como em Agosto. E meter os jovens portugueses dentro de uma sala de aula em Setembro é tão ridículo como meter uma arara num fiorde norueguês. As coisas são o que são e não o que nós, por decreto, impomos que sejam. Neste caso, uma espécie de acordo ortográfico mas feito de meteorologia: tudo trocado e sem benefício que se veja.
A verdadeira lógica das coisas está toda em Vítor Espadinha, que canta assim em Recordar é Viver:

Foi em Setembro que te conheci
Trazias nos olhos a luz de Maio,
Nas mãos o calor de Agosto e um sorriso
Um sorriso tão grande que não cabia no tempo
Ouve, vamos ver o mar...

E mais à frente, continua, com voz melancólica:

Foi em Novembro que partiste
Levavas nos olhos as chuvas de Março
E nas mãos o mês frio de Janeiro

Está aqui tudo. Tudo. Setembro é primo de Maio e irmão de Agosto. Setembro, com o seu sol, a sua luz e o seu calor ainda pede beijos com sabor a mar, gelados, canções parvas de Verão, amores enterrados na areia. Nada de coisas que peçam escola, salas de aula, afias, marcadores, réguas, esquadros, manuais, toques de tolerância, bocejos hipopotâmicos às 8 e 30 da manhã nas aulas de matemática, geografia e filosofia. Em suma, coisas que jamais serão boas mas que se suportam bem melhor nos dias de frio e de chuva, com as lareiras a prepararem-se para fumegar e as castanhas para serem assadas sobre um chão alcaltifado de folhas tristes e amareladas. Como na canção de Espadinha, tudo coisas boas para os meses de Novembro, Março e Janeiro, mais feitos para o estudo da trigonometria e dos tempos dos verbos. E é tão triste ver os pais com os filhos a comprarem material escolar em Setembro quando deviam estar a descansar. É tão estúpido como cantar fado numa praia às 11 da manhã perante uma multidão de banhistas seminus e cheirando a protector solar.
Na escola, o calor de Junho ainda se suporta pois sabemos que é para a despedida. É como estar com dois litros de água na bexiga antes de fazer uma ecografia renal. É horrível mas é por pouco tempo. Está-se na escola mas com a cabeça já na praia, nas lagoas e nas piscinas. Ora, começar em Setembro, com o calor de Junho, é uma aberração. É começar com o espírito de quem está a acabar. Vira tudo ao contrário, interfere nos ritmos biológicos dos portugueses e em vez de serem 15 dias de avanço acabam por ser 15 dias de atraso. Dantes, os estudantes portugueses começavam a 7 de Outubro com a consciência de que não havendo mais praia e Verão, a escola era mesmo uma fatalidade que se aceitava pacificamente. Hoje, os estudantes já começam cansados, indolentes, vencidos pelo calor. ´
Para mim, se quisermos compreender melhor o insucesso escolar talvez não fosse má ideia começarmos por aqui. No Público de ontem vinha uma interessante frase de Vítor Hugo: “Aquele que abre a porta de uma escola fecha uma prisão.” Claro, Vítor Hugo viveu em França, no século XIX, não fazia ideia do que poderia ser uma escola portuguesa em Setembro.

9 comentários:

josé manuel chorão disse...

Estás mesmo deprimido.
Quando começas a citar Vitor Espadinha é de recear o pior.
Eu não vejo a coisa assim; para mim, Setembro é um fantástico mês: acaba-se a treta do calor, começa o Outono (que maravilha), já vai havendo umas chuvadazitas...
Na escola, é altura de caras novas, alunos fresquinhos, cheios de ilusões, de vontade de aprender coisas novas (a seguir a esta divagação as aulas começam e as desilusões sucedem-se...).
Por mim, acabava-se com a chatice do Verão. Nós precisamos é de trabalhar e aprender. Senão, qualquer dia, vemo-nos gregos...

José Ricardo Costa disse...

Só vens dar-me rzaão. Em Setembro não acaba a treta do calor. A treta do calor acaba em Outubro. E o calor só é mais treta em Setembro porque se está fechado numa escola em vez de estar numa praia ou à sombra de uma árvore.
Dantes estavas menos tempo na escola mas aprendias mais. Não é por começarem em Setembro que os garotos irão saber mais e melhor.

Ega disse...

Belíssima reflexão, ainda para mais porque tem estado um calor dos diabos por estes dias (mau para a escola e para tudo aquilo que implique esforço, como trabalhar num escritório por exemplo).

Mas eu gostava era do tempo da faculdade. Aí eu só começava a ir às aulas em Novembro.

Fred disse...

Pois. realmente. estar ali tudo a suar e a pensar numa esplanada na praia, não faz muito sentido começar em Setembro as aulas.


Um abraço!

José Ricardo Costa disse...

Ega, longe de mim querer fazê-lo sofrer mas fique sabendo que no ano em que fui para a universidade as aulas só começaram em Janeiro. Sim, tem razão, um escritório também pede frio. Mas, vá lá, hoje já não se usam as mangas de alpaca, que sempre deviam aquecer alguma coisa.

Fred, um abraço.

Anónimo disse...

Onde é que eu hoje já vi referir o 7 de Outubro como o início (in illo tempore) das "hostilidades"?...

abrº
jl

José Ricardo Costa disse...

Um monárquico diria que as hostilidades começam a 5 de Outubro... :)

Rita Tormenta disse...

http://youtu.be/Z0ymGIwdD4A

Por vezes é muito saboroso poder começar, quer dizer que se tem uma coisa para começar!
Este Setembro foi sobejamente ansiado!

José Ricardo Costa disse...

Começar? Pois claro. Mas cada começo tem o seu momento certo.