21 setembro, 2011

O MEU SÉCULO

                                                                                              John Bulmer

Recebi há dias um mail com uma série de fotografias, informando-me quem mo enviou serem fotografias de «um fotógrafo chinês de meados do século passado». Eu olhei para as fotografias e fiquei baralhado pois nada ali fazia lembrar fotografia do século XIX. Só que, de repente, caí em mim: o século passado não é o século XIX mas o século XX. 
Há quase 12 anos que vivo no século XXI. Já tive muito tempo para, automaticamente, pensar no século XX como século passado. Só que o meu século, ainda que vivesse 300 anos, será sempre o século XX, o que faz com que o meu século passado seja sempre o século XIX.
O século XXI é uma casa onde habito há 12 anos e onde já fiz muitas coisas. Aliás, eu hei-de morrer no século XXI e a morte é sempre uma coisa importante na vida de uma pessoa. Mas morrer num século não faz dele o nosso século. O nosso século nunca será aquele em que basta ter uma consciência do tempo que flui à nossa frente mas o século em que o tempo ficou congelado atrás de nós.
Apesar de eu ter nascido quando o século XX já tinha feito 60 anos, o século XX será sempre o meu século. Mesmo a distante I Guerra Mundial é uma guerra do meu século, ao contrário da Guerra  Franco-Prussiana, que é uma guerra do século passado.
Isto não deixa de ser um pouco esquizofrénico. Eu vivo permanentemente no futuro mas será ao passado que pertencerei toda a vida.

12 comentários:

Isabel Pires disse...

Excelente foto que escolheste para ilustrar este post. Um homem, uma bifurcação. O passado e o presente/futuro. O que nos fez, como nos construímos, e a realidade em que vivemos.

José Ricardo Costa disse...

Sem dúvida, é uma fotografia fabulosa. O texto que a acompanha foi só mesmo um pretexto para a publicar.

παναγιώτα disse...

Belíssima fotografia, de facto...

Até eu, que vivei 11 dos meus 22 anos no século XXI, tenho dificuldades em perceber que pertenço nele!
Acho que para mim o tempo ficou congelado lá em 1995, quando comecei a ter conciência do tempo.
E os meus pais terão sempre 32 e 34 anos, como tinham quando na escola dizia isto às outras crianças, toda feliz por ter os pais mais jóvens da turma!

Será tudo uma questão de memória sentimental?

Bom dia, senhor dos Ponteiros Parados!

José Ricardo Costa disse...

Bom dia, Papoila. Sim, penso que é mesmo isso: a consciência do tempo coincide com a construção de uma memória sentimental. É como se se tratasse da construção de uma casa do interior da qual nunca mais saímos. Nós vamos erguendo as paredes e vamos ficando presos dentro delas. O nosso corpo pode, entretanto, sair, mas a nossa consciência fica sempre retida entre paredes.

josé manuel chorão disse...

Como te compreendo. Pertencemos a um século como pertencemos a um ano ou a uma cidade ou a uma casa.
Pertencemos onde nos fizémos, onde fomos felizes. Que felizes podemos sempre sê-lo, até no insípido século 21 (não somos romanos, pois não?). Mas não há felicidade como a primeira vez que a sentimos. Não há casa. Não há século como o 20. Por mais séculos que atravessemos...por mais casas...por mais gente...

Hugo da Graça Pereira disse...

Entendo muito bem a Panagiota. Nascido em '90 não tenho século. Pois ainda me liguei sentimentalmente ao século XX, coisa que ainda não fui bem capaz de fazer ao século XXI. Estou no limbo.

José Manuel Vilhena disse...

...faz-me lembrar um amigo que quando lhe falavam de alguém referindo que seria do seu tempo, dizia sempre que não tinha tempo...
sim,mas também o sec XX é o meu século.
:)

José Ricardo Costa disse...

Josés, se o Hugo ainda está sentimentalmente ligado ao século XX o que não haveremos de dizer nós, cinquentões... :)

Hugo da Graça Pereira disse...

Acredito que a minha ligação não seja da mesma ordem, mas a infância marca qualquer um. E cresci a ouvir os clássicos do século passado de Nat King Cole, a Louis Armstrong, a Beatles... as discussões lá em casa envolviam sempre Clinton, Israel, a CEE...enfim, coisas que hoje já se metamorfosearam em realidades diferentes.
Mas entendo perfeitamente o amigo do José M. Vilhena que diz que não tem tempo...

marteodora disse...

Necessitamos regressar ao passado sempre que perdemos o nosso rumo. E quando digo ao passado, refiro-me concretamente à origem, à nossa formação, aos nossos modelos de valores, aos nossos antepassados. Seja com o intuito de os seguir, seja exactamente pelo contrário.
Seguir rumo ao futuro é, sem dúvida, evidenciar a necessidade de escolhas, ou para um lado ou para outro e é isso que me sugere esta belíssima fotografia.

José Ricardo Costa disse...

Só não concordo quando dizes que necessitamos de regressar ao passado.Simplesmente porque penso que nunca chegamos a sair de lá.

marteodora disse...

Sim, tens razão. É de lá que olhamos a vida.