23 setembro, 2011

NARCISISMO MATINAL


Há tempos, numa entrevista, António Lobo Antunes falava da dificuldade que muitas pessoas têm, de manhã, em enfrentar o espelho com o rosto ainda deformado pelo sono. E deu o exemplo do pai que, paradoxalmente, tirava os óculos para fazer a barba, evitando assim ver nitidamente o rosto, apenas o branco do creme de barbear.
Podemos ser levados a ver um anti-Narciso em todo aquele que recusa ver o seu rosto no espelho matinal. Narciso é precisamente aquele que adora contemplar-se, alheando-se da contemplação de todos os outros rostos. Mas é exactamente o contrário. Recusar-se a enfrentar o seu próprio rosto continua a ser um acto narcisista. Só recusa ver o seu rosto quem quer muito vê-lo mas sabe que não vai encontrar o rosto que desejaria ver.

7 comentários:

Fred disse...

Simplesmente espetacular esta conclusão!

Não há mais nada a dizer!


Um abraço!

José Ricardo Costa disse...

Fiquemos então assim.

Grande abraço, Fred.

josé manuel chorão disse...

E o escritor?
O escritor, em vez de ver o próprio rosto, esquece-se de si mesmo e inventa outros rostos, que vivem situações imaginárias em lugares que só existem no papel em que escreve conversas que nunca aconteceram.
Será narcisista ou anti-narcisista?

José Ricardo Costa disse...

Anti-narcisista. Por muito projectivas que possam ser as personagens (e não têm que ser projecções), há, por parte do escritor, uma pulsão para contemplar os rostos dos outros. Embora escrever seja um exercício solitário, o escritor movimenta-se claramente na direcção dos outros. O escritor sai do espelho para contemplar os rostos das suas personagens.

Isabel Pires disse...

Concordo com a tua abordagem sobre o narcisismo.
Há uns dias, num ponto turístico onde muitos querem ficar registados no álbum da viagens, ouvi uma senhora pedir ao companheiro para que não a fotografasse muito de perto para que não se notassem as rugas.
Ainda em relação às fotos, que creio ser uma questão semelhante à de querer/não querer ver-se no espelho, tenho constatado que à medida que a idade avança, muitos recusam fotografar-se e quando olham para os seus retratos, quer os mais antigos quer os recentes, são mais criticos na análise do que ficou registado.
O estigma do envelhecimento, a associação entre beleza e juventude.
Quanto à rapariga da foto - mais uma vez, Zé Ricardo, fizeste uma óptima selecção - não parece ter motivos para recear olhar-se no espelho. :)

jrd disse...

Em matéria de espelhos, vou mais pelo "retrovisor", porque me permite perceber onde estão os outros.
Quanto aos "outros" espelhos, há sempre o perigo de nos convidarem a pôr veneno numa maçã.

José Ricardo Costa disse...

Pois, as rugas nas senhoras são uma coisa complicada.

Por isso, jrd, é que é bom fazer como a Alice e pensar no outro lado do espelho. De gente má já está o mundo suficientemente cheio.