28 setembro, 2011

MUNDOS PARALELOS


                                                                        Bill Brandt

Volto mais uma vez a  Os Despojos do Dia, mais concretamente, a Stevens, o mordomo.
O seu novo patrão, o novo proprietário de Darlington Hall, tenta convencer Stevens, há anos ali fechado, a passar uns dias de férias. Eis o que Stevens nos conta a esse respeito:

«Não era a primeira vez que o meu patrão aludia ao assunto. Para ser franco, creio que se trata de uma coisa que o preocupa genuinamente. Naquela ocasião, ali empoleirado na escada, veio-me à ideia responder que nós, os da nossa profissão, embora não víssemos muito o país, no sentido de viajarmos pela província e visitarmos os lugares pitorescos, "víamos", de facto, mais da Inglaterra do que a maioria das pessoas, em virtude de estarmos empregados em casas onde reuniam senhoras e cavalheiros da mais elevada condição da nossa terra. Mas, claro, não poderia dar uma resposta destas a Mr Farraday sem enveredar por aquilo que corria o risco de parecer um discurso presunçoso. Contentei-me, pois, com dizer, simplesmente:
-Tive a honra de ver o melhor da Inglaterra ao longo dos anos, sir, no interior destas mesmas paredes».

Esta passagem lembrou-me o seguinte: o que é a realidade? Um homem vive, durante anos, fechado numa enorme mansão em pleno countryside inglês. Vive, portanto, de costas voltadas para a realidade, não conhece a realidade. Mas do mesmo modo que ele não conhece a realidade fora da mansão, grande parte de Inglaterra não conhece a Inglaterra que habita no interior de uma mansão.  Por  que  razão há-de ser a Inglaterra de uma aldeia ou cidade mais real do que a Inglaterra do interior de uma mansão?
Sobre pessoas que vivem em ambientes elitistas, o comum dos mortais tem o hábito de pensar e dizer que não conhecem a verdadeira realidade. Ou seja, é habitual pensar que quanto mais baixo, feio e degradado for o meio social, mais "real" ele será. Mas por que razão um horrível subúrbio há-de ser mais real do que um palácio? Por que razão a taberna de uma aldeia há-de ser mais real do que o quarto de um estudante forrado com livros? Por que razão um bailarico de aldeia há-de ser mais real do que uma ópera no S. Carlos?
A resposta de Stevens é, por isso, magnífica. Não saiu de casa durante anos nem precisou de o fazer. Ele, no fundo, nunca chegou a viver fechado. Ninguém vive fechado. Cada um vive abertamente no seu próprio mundo. E não há mundos que sejam mais mundos do que outros, não existem diferentes níveis de realidade.

11 comentários:

Alice N. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
José Ricardo Costa disse...

Alice, concordo absolutamente com tudo o que o dizes.É evidente que, se ficarmos circunscritos à nossa ilha, não podemos afirmar que conhecemos as outras ilhas. Se uma pessoa conhecer apenas a sua ilha jamais poderá dizer que conhece a realidade (no sentido global que lhe atribuis, e bem.
Mas o meu problema é mais de natureza ontológica. Não se trata tanto de saber quem conhece melhor a realidade, ou o que é conhecer a realidade, mas se existem diferentes níveis de realidade.
Quando eu andava na faculdade a estudar filosofia, alguém que trabalhava e conhecia bem a realidade económica e social do país, disse-me que eu não conhecia a verdadeira realidade. Que vivia num aquário chamado faculdade e rodeado de entidades virtuais chamadas livros. Ora, de facto, quem anda numa faculdade e vive rodeado de livros não pode conhecer bem uma fábrica e as máquinas que lá se encontram. Mas por que razão a fábrica há-de ser mais real do que a universidade e as máquinas hão-de ser mais reais do que os livros? O estudante não conhece a fábrica mas também é verdade que o operário não conhece a faculdade.
Sempre me pareceu que o senso comum atribiu um grau superior de realidade a contextos com os quais esse senso comum está mais envolvido. O que me parece um tremendo disparate. É por isso que eu gosto da resposta do mordomo. O seu contexto é elitista, apenas acessível a uma minoria? Sim. Há uma Inglaterra inacessível ao homem comum inglês no interior daquelas mansões? Sim. Mas não deixa de ser real só porque o homem comum não a conhece. A realidade é o que é e não pode estar dependente do maior ou menor conhecimento que sobre ela se tem.
Creio que no post não fui suficientemente explícito, por isso agradeço-te esta oportunidade de poder explicar melhor o meu ponto de vista ;)

Rita Tormenta disse...

A realidade mede-se através da intensidade do estímulo olfactivo e auditivo, claro que o o ruído abafa a melodia, por isso chamamos realidade ao lado escuro da coisa, como se a beleza fosse apenas uma ilusão.
Discordo da ideia de não fechamento, muitas pessoas não se deixam contaminar, como se as ideias alheias pudessem trazer doenças, aliás muitas pessoas habitam solilóquios, mesmo que exibam diálogos.
Não sei se o bailarico da aldeia será mais real do que a ópera no São Carlos, sei que Brueghel emana mais odor do que Mary Stenveson Cassat.

José Ricardo Costa disse...

Ai Rita, não me fale em Bruegel, que toca no meu ponto fraco! Mesmo assim não me convence e eu até nem sou muito casmurro.
Pode dizer que o cheiro da sardinha assada é mais intenso do que o de uma vichyssoise (isto foi uma piada política). Mas o cheiro a suor de um camponês de Bruegel não é mais intenso do que o do Chanel nº5. Será pior mas pior não significa mais intenso.
Em relação à contaminação também discordo. Um aquário pode ser um aquário mas "é" um aquário do mesmo modo que um bairro onde há mistura de culturas e de classes sociais´"é" um bairro onde há mistura de culturas e de classes sociais. Não há diferentes níveis de ser. Tudo "é". A ausência de mistura e de contaminação não retira ser, não existe falta de legitimidade ontológica.

josé manuel chorão disse...

E por que carga de água há-de um ser humano normal de querer conhecer o mundo que o rodeia, se não se conhece satisfatoriamente a si mesmo?
Para quê conhecer lugares, gentes do mundo? Tudo isso é tão decepcionante. Prefiro mil vezes um bom livro.É muito mais real.

Rita Tormenta disse...

Aceito, aceito que tudo "é" e que hierarquizar as realidades é um exerc´cio perigoso e subjectivo.
Assustam-me as Campânulas, de vidro, ou de cristal, sejam belas ou horrendas, gosto sobretudo dos caminhos entre os mundos, dos percursos, gosto de olhar, sempre de fora, para as sardinhadas e para as óperas.
"All the world's a stage,
And all the men and women merely players:
They have their exits and their entrances;
And one man in his time plays many parts (...)"
As you like it - W. S.
Mas não resisto a uma provocação : experimente ir a uma sardinhada, com um toque de YSL ( O Chanel nº 5 é feminino) e no final, ou no dia seguinte, cheire a roupa e observe qual deles se sobrepôs ao outro!

José Ricardo Costa disse...

Zé, não se conhecer a si mesmo não é motivo para não conhecer o mundo. Nem o conhecer o mundo será impedimento para se conhecer a si mesmo. São processos autónomos. Até se pode dar o caso de querer conhecer o mundo para melhor se conhecer a si mesmo. Há sítios onde gostei de estar porque me ajudaram a perceber coisas sobre mim próprio.

Rita, YSL com cheiro a sardinha? Mais vale dizer que não me grama. Não mereço tal sorte. Pronto, dispenso o YSL e fico só com o cheiro das sardinhas.

Rita Tormenta disse...

Sou mesmo um falhanço diplomático ...
Só queria marcar o meu ponto de vista, propondo um exercício prático.
Não era uma agressão.

José Ricardo Costa disse...

Essa agora, Rita. Um bom fim de semana para si!

Anónimo disse...

Precisamente uma das cenas que fica na memória, no filme, esta que menciona. Nunca me esqueci do olhar do A. Hopkins a responder, e de como fiquei a pensar q ele teria razão... vejo, pelo nº de posts q aqui lhe dedica, que está "bewithched" pelo livro. Veja o filme, zé ricardo, veja-o. Cumprimentos. E.

José Ricardo Costa disse...

De certeza que verei, E. Obrigado pela sugestão.