27 setembro, 2011

MELANCOLIA


                                                          Heinrich Kuhn | Mulher ao Espelho

Há dias, o meu filho ouviu alguém dizer que a pessoa X é muito caprichosa, perguntando-me então o que significava isso. Eu lá lhe expliquei. Mas, depois, pus-me a pensar se teria explicado bem, tentando clarificar para mim mesmo o que será mesmo uma pessoa caprichosa e se a minha explicação seria correcta. 
Como é que, algures no passado, eu fiquei a saber o que é uma pessoa caprichosa? Eu nunca devo ter perguntado a alguém o que é uma pessoa caprichosa. Não me lembro de alguma ter ido ao dicionário ver o seu significado. Como sei, (ou julgo saber) o que é uma pessoa caprichosa? Como posso ter a certeza de saber o que significa?
Nós não adquirimos a noção de "caprichoso" como adquirimos a noção de mesa, cadeira, praia, mar, óculos, azul, amarelo, flor ou malmequer. Não sabemos o que é "caprichoso" por alguém ter ostensivamente apontado o dedo para qualquer coisa de caprichoso. Ou por associarmos a palavra a uma coisa caprichosa. Ou por termos consultado o seu significado num dicionário. Trata-se, pois, ao contrário de todos aqueles conceitos, de um processo mentalmente muito mais arbitrário, em que podemos livremente construir uma ideia a seu respeito.
Um caso, para mim, ainda mais misterioso, tem que ver com a melancolia. Eu sempre julgei saber o que é a melencolia. Se leio a palavra "melancolia" ou se oiço alguém dizer que "X está melancólico", julgo entender o seu significado. Mas será que sei mesmo? Será que o que eu penso ser melancolia coincide com o que as outras pessoas pensam ser melancolia? Se alguém me disser que se sente melancólico, será que iremos coincidir mentalmente no seu seu significado? Saberei exactamente o que me está a dizer?
Eu sempre julgei saber o que é a melancolia mas, na verdade, nunca parei para pensar no que é, efectivamente, a melancolia.  Ou para consultar um dicionário ou enciclopédia. Desta vez, porém, parei mesmo para pensar e sem recorrer a qualquer consulta. Digamos que é a minha noção de "melancolia" em estado puro, o que emerge espontaneamente na minha cabeça sempre que penso na melancolia.
A melancolia é uma derivação da tristeza, uma sub-espécie de tristeza. Qual é então a diferença entre tristeza e melancolia? Para já, enquanto sentimentos, enquantos estados mentais que provocam uma determinada sensação física, parecem-me iguais. É como as noções de "azul" e de "cor". Quando eu vejo a cor azul à minha frente, tanto posso pensar que estou a ver uma "cor" como pensar que estou a ver "azul". Mas são diferentes. Todo o azul é cor mas nem toda a cor é azul. Mas a experiência mental que eu tenho perante uma folha azul é a mesma, quer pense em "cor", quer pense em "azul". Olhando para a folha, eu não consigo pensar em "cor" sem pensar em "azul", não consigo pensar em "azul" sem pensar em "cor". O que se passa entre a tristeza e a melancolia, parece-me ser uma coisa do mesmo género. A melancolia está para a tristeza como o azul está para a cor.
A experiência mental, repito, será a mesma, mas existe uma diferença. A melancolia será uma tristeza sem causa, uma tristeza imotivada. Quando digo que não tem causa, refiro-me a uma causa particular associada a factos empíricos concretos (chumbar num exame, perder uma pessoa amada, não ter dinheiro, bater com o carro, acabar as férias) ou factos mentais concretos (um complexo de inferioridade, um sentimento de culpa). Não me parece que se fique melancólico por isso. Fica-se, sim, triste por causa disso. Melancolia será outra coisa. 
Melancolia parece-me ser  uma sensação interior de esvaziamento, de afastamento de si próprio, um inesperado estranhamento por sermos o que somos ou por, também inesperadamente, darmos connosco inseridos num mundo que, por momentos, nos parece estranho.
No nosso estado normal, estejamos alegres ou tristes, temos uma forte consciência de nós e do mundo. Sabemos quem somos, em que mundo vivemos, que profissão temos, o nosso número de contribuinte, o nosso estado civil, onde iremos passar as férias. Por vezes, porém, parece que tudo isso fica desfocado. Olhamos para dentro e tudo fica desfocado. Olhamos para fora e tudo fica desfocado.
Eu acho pindérico recorrermos a palavras estrangeiras para comunicarmos com os outros. Mas, por vezes, parece-me difícil evitar. Eu preciso de uma palavra para traduzir isto e só me vêm à cabeça duas palavras não portuguesas: dépaysement e heimatlosigkeit. Ambas, à letra, significam um sentimento de perda de pertença a uma pátria, a um país. Eu posso tentar traduzir através de desenraizamento, despatriamento e outras palavras do género, mas não é bem a mesma coisa. Mas pronto, a ideia é essa.
Nós acordamos e, sobretudo se estiver uma chuvinha miudinha e um fresquinho que têm tanto de confortável como de desconfortável, ou folhas no chão embaladas suavemente pelo vento, ficamos com aquela sensação de que vamos morrer e que nada faz sentido perante o absurdo da morte. Vemo-nos ao espelho e deixamos de ver o engenheiro, o professor, o canalizador, o homem casado ou solteiro, o pai ou filho ou irmão, o português, o espanhol ou o sueco, para passarmos apenas a ver o peso da nossa finitude. Tornamo-nos, de repente, fantasmas, num mundo ele próprio também fantasmagórico. Olhamos para dentro e olhamos para fora, e há uma leveza cujo peso nos esmaga.
Não é um esmagamento como a depressão ou a angústia. É um esmagamento indolor, como se fôssemos esmagados pelo nevoeiro, pela neblina, como se fôssemos paradoxalmente esmagados pelo que não tem qualquer peso. Estamos vivos, mas sabemos que viemos do nada e que para o nada vamos e que nada disto parece ter sentido. Andamos assim umas horas, nalguns casos, dias, mas depois passa. Eis, para mim, o que é a melancolia.
Agora vou ver o que os dicionários têm para me dizer. 

10 comentários:

Isabel Pires disse...

Reflexão muito interessante, Zé Ricardo!
Considero um exercício muito bem conseguido, que vou recordar quando utilizar ou ouvir a palavra "melancolia".
Ficou aqui uma pontinha de curiosidade sobre a explicação que deste ao teu filho sobre o conceito de pessoa caprichosa. ;)

José Ricardo Costa disse...

Obrigado. Mas, enfim, vale o que vale.

Artes e escritas disse...

Uma pessoa caprichosa, pelos lados de cá, tem dois significados distintos. O primeiro de alguém que cuida com esmero e dedicação dos seus pertences, o segundo, talvez em sentido figurado, é aquela pessoa que usa de ardis para conseguir o que quer, como se o objeto dos seus desejos fosse um brinquedo e de onde vem a expressão: "ela quer por capricho", não por vontade ou necessidade. Depois se cansa e dispensa o que consegue. Um abraço, Yayá.

José Ricardo Costa disse...

Caprichoso, por cá, pode também estar relacionado com uma tendência para sobrevalorizar aspectos fúteis ou supérfluos que estão muitas vezes na origem de conflitos desnecessários. O segundo sentido, por cá, será o mais habitual.

Saravá, Yayá.

παναγιώτα disse...

«É um esmagamento indolor, como se fôssemos esmagados pelo nevoeiro, pela neblina, como se fôssemos paradoxalmente esmagados pelo que não tem qualquer peso.»
Para mim, é isso mesmo o que atribui à melancolia um sentido especial de tranquilidade e calma. Abrigados nela é que olhamos para o mundo, como se não fizéssemos parte dele. Acho que muitas vezes precisamos deste olhar distante.

José Ricardo Costa disse...

E, panagiota, não deixa de ser engraçado como uma frase escrita num português cuja semântica não é linear, pode ser tão bem entendida por alguém que escreve com umas letras tão esquisitos :)

παναγιώτα disse...

Penso que frases como esta sentem-se antes de serem conscientemente entendidas. Como se passa com o sifnificado de "melancolia"... :)

Fred disse...

Excelente definição de melancolia!

Mas, agora, tenho alguma curiosidade em saber a "sua" definição de paixão.

Um abraço!

José Ricardo Costa disse...

Fred, mete-me em cada alhada. Paixão? Bem, paixão é um estado patológico que altera o estado mental e emocional dos seres humanos perante a presença de um outro,levando-os a um estado de hipnose e suspensão da razão. Ok, mas é caso para dizer: uma bela patologia. Boas hipnoses, Fred!

Abraço.

Fred disse...

Ok, obrigado e desculpe lá a alhada...lol


Um abraço!