06 setembro, 2011

MARY CASSATT | IN THE LOGE


A mulher vê atentamente a ópera, sendo atentamente vista a ver a ópera por um homem que, por olhar para ela, não vê a ópera. A atenção de ambos, traduzida nos binóculos sobrepostos aos olhos, é o único elemento comum entre eles.
As lentes dos binóculos, sobrepondo-se ao olho nu, anulam os mecanismos naturais e espontâneos da visão, concentrando todo o olhar num único ponto da realidade. Para a mulher, o palco. Para o homem, a mulher que vê o palco. Uma dissonância óptica que torna a sua relação com o mundo completamente diferente. Pois enquanto a mulher vê o mundo, o homem já não olha para o mundo mas apenas para a mulher a ver o mundo.
Poder-se-á objectar: a mulher vista pelo homem é tão real e parte do mundo como a ópera no palco. Sim, é verdade. A mulher não é uma sombra, uma entidade virtual. Em rigor, direi mesmo que a mulher acaba até por ser mais real do que os actores e os cenários do palco. A mulher é absolutamente real, está ali como é, enquanto no palco é tudo artificial, um faz-de-conta. Neste sentido, o homem, olhando para a mulher, olha mais para a verdadeira realidade do que a mulher que olha para uma falsa realidade.
Pois, só que eles estão numa ópera. Uma ópera onde se vai para ver ópera e obter prazer com isso. A coisa assim muda de figura. Temos dois mundos completamente diferentes, com diferentes valores e graus de importância: a mulher sente prazer perante a ópera, num espaço próprio para ver ópera; o homem, por sua vez, não vê a ópera, sentindo prazer ao ver a mulher a sentir prazer perante a ópera.
Parece, neste sentido, que a mulher sentirá um prazer superior ao do homem, um prazer mais adequado à essência do lugar. Mas podemos de novo objectar: o prazer do homem, vendo a mulher, é tão genuíno e legítimo como o prazer da mulher ao ver a ópera. É verdade, e não ponho isso em causa. Prazer é prazer. O prazer de comer um gelado nada tem que ver com o prazer de ouvir um quarteto de Schubert, mas ambos são genuínos e legítimos prazeres. E não quero negar ao homem o direito de reduzir o seu prazer ao prazer de ver uma mulher que sente prazer em ver uma ópera. O prazer, para mim, enquanto questão política, é absolutamente pacífico: trata-se da liberdade de cada um para sentir o prazer que mais lhe interessa, desde que não prejudique os prazeres dos outros.
Portanto, o que se passa neste quadro apresentado por Mary Cassat, não merece grande reflexão. Aceito perfeitamente uma mulher que vai à ópera para ver o espectáculo, assim como um homem que vai à ópera para ver uma mulher a ver o espectáculo. Decorre do facto neutro de existirem mulheres que gostam de ópera e homens que não gostam de ópera.
Mas também não consigo deixar de olhar para este quadro e ver nele uma perfeita tradução do que se passa no mundo das revistas sociais, da televisão e, de certo modo, no Facebook. O que vemos nas revistas sociais? Pessoas que se divertem em festas, aniversários, casamentos, luas de mel e baptizados. Que se divertem em discotecas, na praia, nas suas piscinas. Que se exibem, felizes e orgulhosos, sentados nas suas bonitas salas. Ora, o que vemos depois nas pessoas que compram as revistas sociais? Pessoas que compram as revistas para verem os outros a divertirem-se.
É também isso que se passa muitas vezes perante um aparelho de televisão com certo tipo de programas. Programas em que há pessoas que jogam, que se divertem, que debatem, etc. Eles vivem a vida, jogam, divertem-se, discutem, conversam, enquanto os outros limitam-se a vê-los jogar, divertir, discutir, conversar. Neste caso, como nas revistas e no Facebook, tratar-se-á do mesmo contexto que encontramos no quadro de Mary Cassatt? Não me parece. Apesar do voyeurismo do homem, eles encontram-se no mesmo plano de realidade. O mundo é o mesmo apesar dos pontos focados serem distintos. Já no caso das revistas sociais, da televisão e do Facebook, trata-se de voyeurismo puro e duro, havendo uma separação clara entre a luminosidade de um mundo natural e a escuridão de um mundo virtual.
Eu tinha mesmo que acabar com Platão.

12 comentários:

Alice N. disse...

O quadro é fantástico e concordei absolutamente com o texto, até chegar à questão final. Apesar de aquele senhor estar a observar uma "pessoa real", acho-o ainda mais voyeurista do que quem vê esses programas ou essas revistas sociais, ou ainda quem espreita os outros no facebook, para satisfazer a sua curiosidade sobre conhecidos e desconhecidos. Considero-o mais despudoramento invasivo (apesar do local público em que se encontra), porque, supostamente, ele está ali para ouvir ópera. Já naquelas três realidades virtuais, as regras são conhecidas: todos sabem, aceitam e querem ser vistos. E estão ali também para verem os outros. Quem não está interessado, sai. Na ópera, supostamente, vai-se assistir a um espectáculo - supostamente, já que sabemos que assim não era (e continua a não ser para muitos). Eu diria que temos, assim, um facebook mais erudito, entre pessoas do mesmo estrato social, mas com um exibicionismo e um voyeurismo vividos mas não assumidos; o voyeurismo da plebe e o voyeurismo da nata, um mais imediato e outro menos perceptível. Quanto a mim, quem vai a esses locais com esse espírito, vista a capa que vestir, assume uma postura bem mais hipócrita e não sabe estar ao nível que pretende ter. A embalagem é mais bonita mas o conteúdo é o mesmo. O mundo voyeurista não mudou assim tanto. Os palcos, os meios e a dimensão é que são outros.

Outra coisa: tens certeza que a senhora está concentrada na ópera? O palco não será mais abaixo? Em todo o caso, pelo sim, pelo não, disfarça bem. Já que o senhor não está muito interessado na ópera, por uma questão de elegância, deveria aprender alguma coisa com a senhora observada... ;)

(Olha, cá estou eu a escrever muito outra vez. Há defeitos difíceis de mudar. O senhor da ópera que o diga.)

Artes e escritas disse...

Uma reflexão interessante, bom de ler. Um abraço, Yayá.

José Ricardo Costa disse...

Ai Alice, com esta agora é que tu me tramaste. Ora bem, a senhora está a olhar em frente. Penso que se estivesse a olhar para alguém olharia precisamente para baixo (para quem está nas cadeiras a assistir ao espectáculo) ou então para os lados. A única coisa que pode estar em frente será o palco. E se a distância entre o sítio onde ela está e o palco for razoável, não precisará de inclinar muito os binóculos.
Pois, mas contigo já não me meto mais desde aquela vez em que meti os pés pelas mãos com o Watteau... ;)

José Ricardo Costa disse...

Obrigado, Yayá. Um luso abraço.

josé manuel chorão disse...

Acabar com o Platão...salvo seja, espero eu.
Pois tocaste na questão fundamental: enquanto uns seres humanos olham para o mundo, outros olham para as pessoas que olham para o mundo.
É o que divide, por exemplo, filósofos de adeptos do facebook; é o que divide, por exemplo, Sócrates (o grande filósofo) de Sócrates (o grande...). Pois.

José Ricardo Costa disse...

Bem, também há filósofos que olham pouco para o mundo. Mas isso é outra conversa. E por falar em Sócrates, como o mais recente parece que vai agora para a Sorbonne estudar filosofia, irá passar a ser como o Hípias: passamos a ter o Sócrates Maior e o Sócrates Menor. Muito menor mesmo, coitadito.

Rita Tormenta disse...

Na primeira leitura ocorreu-me a transformação ocorrida no final do Século XVIII em relação à forma de estar numa sala de espectáculos, as proibições, registadas um pouco por toda a Europa, revelam que durante um espectáculo o público vivia, comia, falava e todo um rol de coisas que hoje consideremos impróprias para acontecerem durante uma acção performática que ocorra numa sala convencional ( imagino que os públicos dos festivais tenham comportamentos semelhantes, imagino pois não comprovei).
Mas a 2ª leitura enviou-me para outra direcção. O olhar e as cidades. A curiosidade invasiva do olhar nas terras mais pequenas, a mulher que olha atenta o palco, está implicada numa relação com a cena, ainda que seja público, talvez a ópera seja a Tosca. O homem que observa não está incluído nesta relação, é exterior, talvez esteja apenas incomodado com o prazer daquela mulher atenta ao que se passa em palco.
Olhar um palco é uma cumplicidade, olhar uma pessoa que não está em palco é uma invasão .

José Ricardo Costa disse...

Sim, Rita, por isso é que o Sartre dizia que o inferno são os outros. Porque o olhar do outro transforma a liberdade num palco onde o actor está irremediavelmente preso ao julgamento do espectador.

Hugo da Graça Pereira disse...

Como referiu a Rita Tormenta, o paradigma das salas de espectáculos transformou-se radicalmente em finais do século XVIII. Quando passou a ser aceitável a uma senhora de bem ir à ópera ou ao teatro da cidade. Trouxeram consigo dos teatros e óperas dos grandes Príncipes até então, não só as "boas" maneiras, mas também a subalternização do espectáculo do palco ao espectáculo dos camarotes. O grande interessa da ópera, mesmo para aqueles que até apreciavam a música, era de ordem social e não artística. Nesse contexto, embora a análise aqui deixada faça imenso sentido nos dias de hoje, é legítimo especular se, pelas concepções da época, quem estaria mais longínqua da realidade do momento não seria a mulher. Embevecida com o espectáculo efémero do palco, desligava-se e esquecia o outro, social, que a rodeava.

José Ricardo Costa disse...

Sim, Hugo, tem toda a razão. Claro que poderíamos fazer uma leitura desta pintura mais de acordo com a sociologia da época. Eu limitei-me a entrar por outra porta, aproveitando a sua potencialidade para compreendermos melhor uma realidade actual.

Hugo da Graça Pereira disse...

E fê-lo muito bem, para não variar! Descobri este blog à pouco tempo graças ao Delito de Opinião e gostei. Ei-de passar por cá de quando em vez :)

José Ricardo Costa disse...

Cá o espero, Hugo. Volte sempre.