05 setembro, 2011

HEITOR E AGAMÉMNON


                                                                     Toni Frissell

Na sua memória autobiográfica, Irving Kristol, americano e judeu, fala sobre a sua experiência como militar numa Alemanha destruída pela guerra:

«Os soldados meus camaradas tendiam com facilidade para a rapina, a violação e o fuzilamento dos prisioneiros de guerra. A única coisa que os continha era a vigilância imposta pelo exército. Ao mesmo tempo, o facto de ver as mulheres e as raparigas alemãs a viverem entre ruínas e a venderem os corpos por uns maços de cigarros - a moeda de então - libertou-me de qualquer sentimento antigermânico que, enquanto judeu, pudesse acalentar. Nem a revelação posterior do Holocausto fez com que mudasse o que sentia a respeito dos alemães comuns. Eles também sofreram - mais do que a maior parte dos americanos imagina. E não estava muito convencido de que os soldados americanos que conhecia pertencessem a uma espécie diferente da dos seus homólogos alemães».

Esta compaixão por um "povo inimigo" e acidez face ao seu próprio povo, apesar de surpreendente, sobretudo pela identidade judaica de Kristol, apanhando ainda na cara o bafo da Besta Imunda, é antiga. Quem quiser pode encontrá-la na Ilíada. A Ilíada, opondo os gregos aos troianos, mostra que mais do que uma guerra entre gregos contra troianos descreve tragicamente uma guerra entre bons e maus contra bons e maus. Como podem os troianos ser os maus quando têm Heitor? Como podem os gregos ser os bons quando têm Agamémnon?
A guerra é um cavaleiro do Apocalipse que varre tudo à sua frente, independentemente de se ser bom ou mau, justo ou injusto, inocente ou culpado. O bem e o mal não têm pátria. A guerra, enquanto acto moral, não está para além do bem e do mal. Mas está para além dos bons e dos maus.

6 comentários:

Isabel Pires disse...

Imagem comovente, Zé Ricardo.
Que tenhamos muita paz.

José Ricardo Costa disse...

Por acaso trata-se de um garoto inglês. Mas poderia ser alemão.

jrd disse...

A guerra é uma rameira demasiado séria(?) para fazer as delícias dos militares, mas o pior é que são os políticos, os proxenetas que a exploram nas esquinas da História.

José Ricardo Costa disse...

Nas esquinas? Por vezes é mesmo à descarada nas grandes alamedas.

Ega disse...

Quando li a Ilíada fiquei com a impressão de que havia por parte do seu autor (seja ele Homero ou não) uma certa e subliminar compaixão pela desdita dos homens (todos eles, gregos e troianos), devido à ira dos Deuses que se abateu sobre eles , por sua vez em consequência das tolices dos homens.

Parece haver também uma certa inevitabilidade na guerra de Tróia (e que acaba por se transmitir a todas as outras ao longo da história), que teria de acontecer independentemente da vontade de homens ou deuses para se avançar para algum lado.

Não sei, seria utópico pensar que essa inevitabilidade das guerras passadas e presentes teria como fim último o fim absoluto da guerra.

Mas isto nem sequer era o tema do postal. COmo eu me distraio...

José Ricardo Costa disse...

Ah, distraia-se à vontade, Ega, eu gosto das suas distracções. De facto, a moral da história deveria ser "casa roubada, trancas à porta". Infelizmente, a história não é uma realidade moral nem lógica.