16 setembro, 2011

ENTOMOLOGIA MUSICAL

Tenho 50 anos. Por isso não faço parte das mais recentes gerações que já mamaram enquanto ia mexendo nos botões dos videogames, das nitendos, dos telemóveis em vez de mexerem nos bicos dos peitos maternos. E, é bom lembrar, já tinha mais de 30 anos quando pela primeira vez usei o dedo para ligar um computador.
Não sou da geração dos botões mas já sou da geração da televisão. Cresci a ver televisão, sempre me lembro de ver televisão (apesar de hoje já ter praticamente deixado de o fazer), formei os meus quadros mentais a ver televisão, os lugares mais recônditos do meu cérebro estão repletos de referências alimentadas pela televisão.
Sou, por isso, muito mais sensível à imagem do que será uma pessoa da geração anterior, que cresceu a ouvir rádio ou, indo ainda mais longe, de uma geração anterior à rádio.
Trata-se de um traço cuja presença em mim se manifesta bastantes vezes e fortemente. Desta vez, dei com ele ao ouvir estas diferentes interpretação da Furie Terribili, do Rinaldo.

                   
                          
                           
                           
                           

                             

Para mim, a interpretação do primeiro vídeo é de todas a mais fraca. Porém, é aquela que mais prazer me dá. Se eu desviar os olhos das imagens para me concentrar apenas na vozes como um enólogo numa prova de vinhos, a primeira voz será a que menos prazer me dá. Ainda assim, se eu tivesse que escolher apenas um destes vídeos, continuaria a insistir no primeiro. E porquê? Porque, como um insecto em relação a uma lâmpada, sou fortemente atraído por ele.
Por causa da sua dinâmica, do seu ritmo, dos diferentes planos. Até o sorriso da violinista, logo no início, é um elemento activo que dá a música um sentido visual, contribuindo para enriquecer o sentido auditivo através de um estímulo visual. Eu sei que isto não deixa de ser triste. Trata-se de uma dependência perante um conjunto de estímulos que nada têm que ver com a pureza da música, com os sons em si mesmos. Diria mesmo que se trata de uma mácula, de uma descida da música a um elemento impuro que perverte por completo a sua autenticidade e verdadeira natureza.
Lamento muito mas não consigo evitá-lo. E, nesta idade, tentar mudar certas coisas tem o mesmo efeito  de um insecticida em animais que tiveram o azar de nascerem insectos.

4 comentários:

Rita Tormenta disse...

Wagner achava coisas parecidas...
Se me permite, aconselho-o a escutar a mezzo soprano Bernarda Fink, é fantástica!!!!
Bom Fim de Semana.

José Ricardo Costa disse...

E o Ludwig que o diga...
Irei ouvir Rita. Obrigado pela sugestão e bom fim de semana tamném para si.

m.a.g. disse...

Isto deve ser defeito de geração:)... acabamos por ter as mesmas "máculas" para o melhor e para o pior. mas permita-me que lhe diga que nem toda a música no seu estado puro é a mais apelativa aos sentidos.
Concordo com a sugestão da Rita Tormenta. A Bernarda Fink é excepcional.

José Ricardo Costa disse...

Bem, pelo menos para o sentido da audição deverá ser apelativa... :)