04 setembro, 2011

CHUVA


                                               Camille Pissarro | Boulevard Montmartre, Tempo Chuvoso, Tarde

Eu vou transcrever uma breve passagem de Lolita, o célebre romance de Nabokov que, como todos os célebres romances, é mais visto no cinema (seja na clássica versão de Kubrick, seja na versão moderna de Adrian Line) do que lido.

A irmã mais velha da minha mãe, Sybil, que um primo de meu pai desposara e depois abandonara, servia na minha família imediata, como uma espécie de preceptora e governanta sem salário. Alguém me contou, mais tarde, que ela estivera apaixonada pelo meu pai e que, num dia chuvoso, ele se aproveitara despreocupadamente disso e já esquecera tudo quanto o tempo melhorara.

Eu vou pedir que se faça o seguinte exercício: ler de novo esta passagem mas omitindo a referência ao «dia chuvoso» no qual o pai se aproveitara «despreocupadamente disso». Fica simplesmente assim:

A irmã mais velha da minha mãe, Sybil, que um primo de meu pai desposara e depois abandonara, servia na minha família imediata, como uma espécie de preceptora e governanta sem salário. Alguém me contou, mais tarde, que ela estivera apaixonada pelo meu pai e ele se aproveitara despreocupadamente disso.

O que leva o narrador a falar de um «dia chuvoso» quando, no fundo, pretende apenas lembrar um affaire sem importância, muitos anos atrás, entre o seu pai e uma irmã da mãe que havia entretanto morrido? Há, para mim, com esta referência ao «dia chuvoso», uma espécie de condensação narrativa que, sem quase nada dizer, acaba por criar um impressionante efeito dramático. O que faz aqui «um dia chuvoso» numa breve evocação biográfica ocorrida tantos anos atrás? Por que razão aparece a chuva em vez de aparecer um dia bonito? Ou por que razão aparece a chuva em vez de não aparecer qualquer referência de natureza meteorológica?
A chuva aparece para dar uma intensidade erótica ao breve encontro entre cunhados que, sem ela, teria outra intensidade. Sem chuva, teríamos apenas um homem que se aproveita sexualmente de uma mulher apaixonada. Com a chuva, porém, há todo um ambiente. Graças à chuva, isto é, graças à mestria narrativa do escritor, eu consigo um envolvimento completamente diferente com o que se terá passado naquele dia.
Contrariamente a um dia de Sol, um dia de chuva apela ao recolhimento. Enquanto o Sol pede rua, jardins, passeio, uma abertura ao mundo exterior, a chuva pede a seca segurança do lar. E um lar num dia escuro de Outono ou Inverno tem uma atmosfera diferente de um lar com o Sol entrando glorioso pelas janelas.
Imaginemos uma tarde chuvosa, uma sala meio-escura. O barulho da chuva lá fora. Há um ligeiro frio. A casa está fechada ao mundo e a escuridão da tarde chuvosa tem um efeito paradoxal: ao mesmo tempo que apaga ligeiramente os corpos, acaba também por reforçar a atenção neles. O que se apaga ligeiramente na escuridão ou na sombra obriga a uma atenção maior. Ela está apaixonada por ele e não consegue dissimulá-lo no olhar. Ele, viúvo, percebe o desejo que emana daquele olhar e é arrastado por esse desejo como um objecto sem vontade própria na corrente de um rio furioso. Muito provavelmente, sem a chuva, ele nem teria reparado nela. Ou até nem estaria em casa. A chuva pede protecção e o instinto de protecção leva as pessoas a aproximarem-se.
Em La Poétique de l'Espace, num capítulo intitulado Maison et Univers, Gaston Bachelard cita uma frase de Baudelaire em Les Paradis Artificiels, a respeito da felicidade de Thomas de Quincey, «enfermé dans l'hiver» numa «cottage» do País de Gales: «Une jolie habitation ne rend-elle pas l'hiver plus poétique, et l'hiver n'augmente-t-il pas la poésie de l'habitation?» Cita igualmente Henri Bosco: « Quand l'abri est sûr, la tempête est bonne.» Mais à frente é o próprio Bachelard que diz: «De l'hiver, la maison reçoit des réserves d'intimité, des finesses d'intimité (...). Le rêveur de maison sait tout cela, sent tout cela, et par la diminution d'être du monde extérieur il connait une augmentation d'intensité de toutes les valeurs d'intimité».
Eis, pois, o ambiente de uma chuvosa tarde parisiense que terá levado o pai do narrador a aproveitar-se da paixão, um aproveitamento certamente propiciado pela atmosfera chuvosa que cercou aquela casa, tornando-a num abrigo que abrigou aqueles dois corpos num abrigo comum.
Mais à frente, Bachelard afirma que «la maison prend les énergies physiques et morales d'un corps humain». Sim, é verdade. Mas também é verdade que o corpo humano não pode deixar de ser afectado pelas energias físicas da casa, induzidas pelas condições atmosféricas do exterior: a escuridão, a frescura, a humidade, o som da chuva, o som específico de cada matéria sobre um chão molhado.
É por isso que eu vejo este «num dia chuvoso» de Nabokov, como uma condensação narrativa, uma espécie de fusão que concentra uma dispersão de elementos narrativos numa única imagem, e não tanto como um elemento simbólico que traduziria a tristeza de um aproveitamento sexual por parte de um homem indiferente face a uma mulher apaixonada.
Quando reli  há três, quatro anos, Os Maias, a primeira frase do romance, sendo eu desconfiado, deixou-me logo intrigado: «A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete». Admito que possa ser excesso de desconfiança da minha parte ou uma natural tendência que não consigo evitar para o devaneio e a especulação. Mas não consegui deixar de pensar que esta referência ao Outono teria aqui um importante valor simbólico face ao que iria suceder. Um pouco como naqueles filmes em que nas primeiras cenas, por causa da música ou de um ambiente misterioso, percebemos que qualquer coisa de mau irá acontecer. Foi isso que eu vi neste Outono sobre o Ramalhete.
Na frase de Nabokov não vejo nada de simbólico. Vejo apenas uma espantosa sugestão narrativa na qual muito se diz sem nada se dizer. Um apelo à imaginação do leitor a quem o escritor dá apenas a cana de pesca, tendo aquele depois que aprender a pescar. Admito que, como no caso em que vi no Outono rodeando o Ramalhete, um cínico abutre sobrevoando um corpo moribundo, possa haver aqui da minha parte uma imaginação desenfreada e uma tendência para ver coisas que jamais passaram pela cabeça do escritor. Mas, como diria Borges, ler um romance é também uma forma de o escrever.

                                                Camille Pissarro | Praça do Teatro Francês, Paris, Chuva

8 comentários:

josé manuel chorão disse...

A chuva é vida, sensações, um mergulho em si mesmo que faz com que venha à consciência o que verdadeiramente somos.
O Sol permite que ocultemos o que somos, a chuva faz-nos ver a nós próprios.
Se à chuva, que cai do céu, juntarmos o som da rebentação do mar nas rochas, aos nossos pés, um Farol e uma chávena de chá a fumegar...temos a minha concepção de Paraíso.

José Ricardo Costa disse...

Eu não penso que o Sol oculte o que somos. Simplesmente revela outra parte que a chuva retrai. O paraíso é multicolor e não a preto e branco.

Isabel Pires disse...

Reflexão particularmente interessante, que li com agrado num ameno final de manhã de domingo, sentada junto de uma janela aquecida pelo sol.:)
Penso que, quer na literatura, quer nos diálogos que estabelecemos no quotidiano, as referências aos ambientes físicos, às características meteorológicas e a outros elementos que, à partida, parecem não fazer falta nenhuma, para além de auxiliarem a contextualizar as acções, expõem a diversidade de sensações que o ser humano é capaz de experimentar. E isto, esse mundo de emoções e sentimentos que cada um experiencia e revela, é algo de absolutamente fantástico, enriquecedor.

josé manuel chorão disse...

O teu paraíso é multicolor.
O meu, dado que a água da chuva não tem cor, é a preto e branco: o preto dos caracteres na brancura das páginas.
Que pena, não nos vamos encontrar no paraíso (mas ao menos eu terei livros).

jrd disse...

Pois é, Sybil!
Quem anda à chuva, molha-se...

José Ricardo Costa disse...

Sim, isabel, eu sempre disse que a meteorologia é mais importante do que habitualmente se considera.

Zé, não nos encontramos no paraíso? Essa agora. O paraíso fica na 2ªcircular e para lá chegar é só precisar comprar bilhete.

jrd, boa! :)

Mar Arável disse...

Por vezes chove e faz sol

chova
que se veja
lubrifique-se este chão

José Ricardo Costa disse...

O pior é se fica demasiado escorrregadio.